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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A MEMÓRIA AFECTUOSA DE DEUS de Frei Bento, in Público


A MEMÓRIA AFECTUOSA DE DEUS

Frei Bento Domingues, O.P.

Púbico 31.01.2016

 

1. A nós, os velhos, roubam-nos tudo: roubam-nos o passado e o futuro, a memória e a possibilidade de renovar o cartão de cidadão.

 É breve e para poucos a sobrevivência na memória afectuosa dos familiares e amigos. Chegamos tarde em relação ao passado e demasiado cedo em relação às maravilhosas promessas da ciência e da técnica.

Por outro lado, a louca persistência das guerras e os absurdos que as provocam, impondo a lei de matar, ser morto ou fugir, geram cepticismo acerca da possibilidade global de humanização da história[1].

A verdadeira vida e a morte dependem dos afectos. Fora deles, há apenas estatística.

Os mais idosos vão sofrendo a desertificação das relações de familiares e amigos. Mário Brochado Coelho, a propósito da morte de Nuno Teotónio Pereira e do desaparecimento de outros companheiros, manifestou aos amigos, de modo comovente, que embora tudo seja natural, ficamos com o sentimento de uma grande orfandade.

Há outras pessoas que alimentam o desejo de um Deus de memória afectuosa, transfiguradora e universal, para si e para os outros, um coração que as acolha.        

2. Em relação ao Nuno Teotónio Pereira, muitas coisas foram ditas e escritas, quer sobre a sua sólida e premiada obra arquitectónica, quer sobre a sua evolução política e religiosa: de uma família monárquica e salazarista para militante da transformação da Igreja na linha de João XXIII e do Vaticano II, da luta contra guerra colonial, das metamorfoses políticas radicais até à entrada no PS.

Cada uma dessas fases e faces deixou imagens diferentes naqueles que com ele conviveram. No entanto, o próprio se explicou longamente sobre os tempos e acontecimentos que viveu. Quem voltar a ler as suas crónicas no Público[2], a última entrevista a José Pedro Castanheira, publicada no Expresso[3] e o testemunho ditado para o Encontro do ISTA e do NAM[4], pode formar uma opinião mais abrangente, não apenas acerca dele, como da sua primeira mulher, a extraordinária Maria Natália Duarte Silva.

É conhecido que ambos, nos anos 60, me associaram à criação do Direito à Informação, à Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, à Iniciativa dos Terceiros Sábados e ao trabalho de encontrar esconderijos para clandestinos.

O Nuno ajudou-me também a encontrar, em Portugal, a pista das pessoas percursoras do Vaticano II, algumas das quais marcaram a sua mudança de rumo e as expressões militantes do seu profundo catolicismo.

Tentei, quando ainda não havia quase nada estudado a esse respeito, apresentar um esboço nas Artes de ser católico português[5]. Desde a Voz de Santo António (1895-1910) até D. António Ferreira Gomes, passando pelos irmãos Alves Correia (Manuel e Joaquim), pelo Movimento e edições Metanoia, dos anos 40-50, pelo Padre Abel Varzim e pela aceleração dos anos 50, em vários ramos da Acção Católica, podem-se encontrar tentativas, obras e correntes que foram reconhecidas no Vaticano II e abafadas pela hierarquia portuguesa, com raras excepções.

3. Ao reler o seu itinerário espiritual, deparei com uma crónica do Público, de 1995, onde reflecte sobre a Igreja Católica e o Partido Comunista, seus problemas actuais e seu futuro[6]. (…) «O Bem da Igreja», que tantas vezes ouvi invocar contra a liberdade das pessoas e contra os preceitos evangélicos e o «Bem do Partido», que espezinhou direitos humanos, têm de ser banidos numa e noutra instituição.

 « (…) Pode ser que seja necessário passarem uma ou duas gerações para que isto aconteça: são acontecimentos para o próximo século. Mas talvez suceda que a mensagem evangélica, por um lado, e a crença numa sociedade mais justa e solidária, por outro, sejam dois fachos que não se apaguem na marcha da Humanidade e que poderão até ser convergentes, com surpresa para muitos. (…) É preciso que qualquer coisa renasça ou nasça de novo para nos devolver a esperança».

O texto do Papa Francisco, sobre a «Igreja de saída», que transcrevi no passado domingo e apresentei no funeral de Nuno Teotónio Pereira, parece-me o começo de realização desta esperança.

José Pedro Castanheira, na última entrevista, perguntou-lhe:  deixou de ser crente? «A certa altura, sim, muito por causa do episódio da morte da minha mulher. Não foi imediato, mas ficou sempre uma ferida. Depois meti-me na política e acabei por chegar à conclusão que o sobrenatural não me dizia nada. Mas, olhando para toda a minha vida e para a minha formação, acho que sou católico, ainda que não praticante. Sou crente».

Santa coerência.






[1] Cf. António Lobo Antunes, Para a semana estou cá, in Visão, 21. Janeiro. 2016, p. 8-9.

[2] Nuno Teotónio Pereira, Tempos, Lugares, Pessoas, Público, 1996. As crónicas vão de 20.6.1993 a 21.11.1995.

[3] Fevereiro de 2015 e republicada a 20 de Janeiro 2016 em on-line.

[4] ISTA (Instituto S. Tomás de Aquino) e NAM (Movimento “Não Apaguem a Memória”), Cadernos ISTA, nº 28 – 2014, p. 59-60.

[5] Frei Bento Domingues, O.P., Artes de ser católico português, in A Religião dos Portugueses, Figueirinhas, Porto/Lisboa 1988, pp. 81-122.

[6] Nuno Teotónio Pereira, Tempos, Lugares, Pessoas, Público, 1996, pp.80-82



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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

DEUS NÃO PASSA POR NÓS A CORRER


Consulte: http://fraternitasmovimento.blogspot.pt. Deixe comentários.

Pode enviar mensagens para : fraternitasmovimento@gmail.com

 

---------- Mensagem encaminhada ----------
De: Nós Somos Igreja Portugal <nossomosigrejaportugal@gmail.com>
Data: 29 de novembro de 2015 às 22:34
Assunto: [NSI-PT 1499] DEUS NÃO PASSA POR NÓS A CORRER Frei Bento Domingues, O.P. Público 29NOV2015
Para:



DEUS NÃO PASSA POR NÓS A CORRER


Frei Bento Domingues, O.P.

Público 29NOV2015

 

1. Não esperava que me viessem pedir contas por Deus não ter feito nada para impedir o massacre de Paris. Essas pessoas acabaram por concluir que tinham batido à porta errada. Sugeri-lhes, com toda a paciência, que falassem directamente com Ele e aproveitassem o encontro para se esclarecerem acerca de todas as guerras e violências que, até em seu nome, foram desencadeadas ao longo da História. Algumas das narradas na Bíblia Hebraica até passaram a ser glorificadas na Liturgia católica, como acontece, por exemplo, na própria Vigília Pascal. Isto sem falar na recitação e canto de alguns salmos especialmente violentos!

Como não me lembro de ter, alguma vez, atribuído a Deus as asneiras da iniciativa humana ou os desconcertos da natureza, não me sinto atraído a abordar casos de polícia como altamente religioso-teológicos. Tanto os que o culpabilizam como os que o absolvem sabem demasiado da divindade. Não se dão conta que Deus, em si mesmo, nos é totalmente desconhecido (omnino ignoto).

Fui vacinado, muito cedo, pela corrente mística da teologia negativa ou apofática. Esta prática teológica tem o bom senso de fazer acompanhar todas as afirmações, acerca da divindade, de uma luminosa negação anti-idolátrica. A paradoxal oração do dominicano alemão, Mestre Eckhart (1260-1327) – Deus, livra-me de Deus – confessa, de modo enérgico, que não nos podemos fiar nas fórmulas que julgam apanhar Deus na sua rede. S. Tomás de Aquino sustentou que a própria letra dos Evangelhos, sem o sopro libertador do Espírito, se pode tornar uma prisão, uma letra que mata.

Quando me entregaram o grande roteiro da viagem teológica para principiantes, a Suma Teológica, fui logo avisado, pelo autor, de que não iria passar a saber como era Deus, mas sobretudo como Ele não era, Deus conhecido como desconhecido[1].

No âmbito religioso, pelo salto de significação que permite, a linguagem metafórica é a menos inconveniente. Na grande poesia e na grande música todas as viagens são possíveis, mistério do Mundo, mistério de Deus.

2. Ao falarmos tanto, sobretudo desde o séc. XIX, da morte de Deus, do silêncio de Deus, de se lançar a suspeita sobre tudo o que se relacionava com as religiões, foi esquecido um pequeno pormenor: tomou-se uma importantíssima questão cultural da modernidade europeia, como se fosse o retrato da situação religiosa universal. Resultado: não entendemos o que se está a passar na Europa, nem no resto do mundo. Não sabemos qual o sentido da civilização que herdamos, nem a que estamos a construir.

Vivemos num mundo de negócios. Sem negócios não se pode viver. Estes são cada vez mais globalizados. Mas o negócio dos negócios é o comércio de seres humanos e de armas. Chegámos a um ponto em que sem a indústria bélica, muita gente iria para o desemprego. Com o seu uso, muita gente vai para o cemitério.

Quando se pensava que o tempo das guerras religiosas, das Inquisições, das Cruzadas tinha acabado, reaparece a união entre armas e religião, em pleno coração da Europa. Os pseudo-religiosos, os terroristas, usam as armas em nome de Deus. Os laicos usam as armas para se defenderem dessa religião, confessando, e ainda bem, um respeito sagrado pelas religiões que ignoram. Petróleo oblige.

3. Quando João Paulo II se opôs, da forma mais firme, à guerra no Iraque, ignoraram-no. Ele estaria a defender os interesses cristãos da zona. Quando o Papa Francisco advertiu que era urgente suster a calamidade do Estado Islâmico, uns ignoraram-no, outros comentaram: o pacifista converteu-se à guerra justa. Também ele estaria a defender os cristãos dos massacres que os tinham por alvo preferencial.

Não basta intensificar o diálogo inter-religioso, embora seja muitíssimo importante que todos confessem que um deus que incita à violência gera uma religião diabólica, uma anti-religião.

Religiosos e não religiosos, místicos ou ateus teremos de aprender a viver no mesmo mundo, não como uma fatalidade, mas como uma oportunidade de nos tornarmos mais humanos, com o contributo de todos. Os cépticos dirão que não passa de uma utopia, mas que seria de nós sem aquilo que nos faz andar?

A liturgia católica celebrou, no domingo passado, Jesus Cristo Rei do Universo, ajuda difícil para as monarquias em dificuldades. É um rei coroado de espinhos e cravado na cruz. Ele próprio confessou que não era o poder que lhe interessava. Se assim fosse teria organizado um exército. Para ele só contava a alegria da vida humana, a sua verdade última. Assim terminava o ano litúrgico. Hoje recomeça, com o Advento, mas Deus na sua caminhada com os seres humanos não passa a correr.

Segundo o Novo Testamento, adopta os ritmos e os zigue-zagues da história humana, para que ninguém se sinta perdido. Insere-se nos seus movimentos para abrir brechas de esperança.

Na situação actual, parece que ninguém sabe para onde caminha a nossa civilização que, ao mesmo tempo que se globaliza, se despedaça em fragmentos irreconhecíveis, esquecendo que somos todos migrantes da mesma promessa.

Não passemos este Advento a correr. Precisamos de tempo para nascer de novo, para descobrir que outro rumo e outra vida são possíveis.

 

29.11.2015





[1] S.T, I,q.2,prol.; q,13,a.4;Super Boet. De Trini. q. 2 a. 2 ad 1.

sábado, 4 de outubro de 2014

O LUGAR DE DEUS


 
O LUGAR DE DEUS
 
 
 
 
 
Por: João César das Neves

É estranho ver aqui um artigo com este título, não é? Vários leitores, irritados ou enfastiados, passaram já à página seguinte; outros lêem, desconfiados ou agradavelmente surpreendidos; todos, porém, sentiram o insólito da situação. Não é normal ter, num diário de referência e gran­de circulação, um texto com este tema.

A estranheza é, ela mesmo, estranha. Nos tempos que correm não so­mos propriamente cândidos. Por isso, nas outras páginas deste periódi­co, precisamente por ser de referência e grande circulação, encontram- se, sem despertar assombro, os assuntos mais diversos e abstrusos. Violências cruéis e perversões várias, passando por inúmeros crimes, tolices e extravagâncias, até temas religiosos, de agressões extremistas a ensinamentos sábios, não suscitam perturbação. Nada incomoda tan­to uma audiência sofisticada e esclarecida quanto este título. Todas as coisas são de esperar numa publicação destas; não uma inquirição séria sobre a pessoa de Deus.

No entanto, a divindade é o tema mais presente e comum da huma­nidade. Nas publicações de referência e nas manifestações públicas de qualquer outro período ou região, surge a natural e serena presença da Providência. Todas as culturas, épocas e civilizações conviveram com ela de formas variadas, mas sempre normais. O incômodo actual con­trasta com a generalidade dos povos. A aberração é realmente nossa. Insólito não é o título, mas a sua raridade.

A origem da inesperada estranheza é óbvia. Somos herdeiros da pri­meira tentativa humana de erradicação sistemática do transcendente. Nos últimos 250 anos, em toda Europa, filósofos argumentaram e orado­res ridicularizaram; autoridades proibiram, encerraram, prenderam, por vezes devastaram e executaram. No conjunto, representou o maior es­forço colectivo da história da humanidade. E foi contra Deus.

Finalmente os promotores entenderam que não só o processo os transformara em monstros piores do que os que diziam perseguir, mas os resultados eram desanimadores. A religião, debaixo da terrível pres­são, resistiu e prosperou. Então mudaram o método. O Todo-Poderoso deixou de ser atacado abertamente para ser ignorado. Passou de inimi­go a desconhecido.

Hoje suscita-se um esforço colectivo de fingir que as questões funda­mentais da existência -origem e finalidade da realidade, sentido da vida, destino pessoal- afinal não interessam. A cultura mediática embriaga-se em ilusão, magia, política, ciência, zombies e super-heróis para esque­cer que somos apenas humanos em busca da felicidade. As crenças mais abstrusas podem ser apregoadas livremente, desde que realmente não sejam levadas a sério. Como não se entende uma fé verdadeira, existem oficialmente apenas duas alternativas admissíveis: indiferença ou fanatismo. Chega-se a ponto de rejeitar como boçalidade ou funda- mentaüsmo qualquer genuína expressão de devoção. Um texto como este, por exemplo, deve manifestar desequilíbrio.

O desvio afectou até os fiéis piedosos. Como algum público se irrita com a religião alheia, vários devotos escondem a sua fé para não in­comodar. Sem se preocuparem com o incômodo de Deus. Muitos, até zelosos, têm dificuldade em se relacionar com o sublime, preferindo uma religião pragmática e assistencialista. O Papa Francisco censurou preci­samente isso na sua primeira homilia: “Se não confessarmos Jesus Cris­to, tornar-nos-emos uma ONG sociocaritativa, mas não a Igreja, Esposa do Senhor" (Capela Sistina, 14 de Março de 2013).

Qual é então o lugar de Deus? Alguns recusam-Lhe cidadania, fazen- do-O o único proscrito da sociedade tolerante. Outros situam-n’0 no alto dos Céus, cheio de majestade mas vago, longínquo e indiferente. Há ainda os que O colocam dentro do coração do homem, mas tão fundo que mal se sente. Não entendem que a questão do lugar de Deus real­mente não faz sentido. Deus, sendo Deus, não tem lugar, pois o infinito não sofre localização; o absoluto não é contingente. O único lugar a de­terminar é o nosso. E, onde quer que esse seja, “o Reino de Deus está próximo” (Mc 1, 15).

In DN 2014.09.01

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Os caminhos de Deus são os melhores

Os caminhos de Deus são os melhores

Deus sempre age em nossas vidas como um Pai que nos ama

 
Mensajero del Amor de Dios
 
 
 
 
                                                                                                                                                                                                     
Os caminhos de Deus muitas vezes nos parecem incompreensíveis. No entanto, a experiência do amor de Deus e a fé selam em nós uma verdade maior que esta incompreensão: "Aliás, sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os seus desígnios" (Romanos 8, 28).

Porque os caminhos de Deus podem ser estranhos e incompreensíveis, mas, sem dúvida alguma, são os melhores e deles podemos tirar um bem maior, respeitando sempre a liberdade. Deus nos faz vencer!

"Lembra-te de todo o caminho por onde o Senhor te conduziu durante esses quarenta anos no deserto, para humilhar-te e provar-te, e para conhecer os sentimentos de teu coração, e saber se observarias ou não os seus mandamentos. Humilhou-te com a fome; deu-te por sustento o maná, que não conhecias nem tinham conhecido os teus pais, para ensinar-te que o homem não vive só de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor. Tuas vestes não se gastaram sobre ti, e teu pai, não se magoou durante estes quarenta anos. Reconhece, pois, em teu coração, que assim como um homem corrige seu filho, assim te corrige o Senhor, teu Deus." (Deuteronômio 8, 2-5).

Deus age muitas vezes dessa maneira em nossa vida: como um Pai. Ele nos ensina, nos corrige, nos faz conhecer-nos melhor, nos guia pelo bom caminho, cuida de nós, nos dá aquilo de que precisamos para continuar. E, em suma, Ele nos ama.

Eu mesmo passei por momentos de provação, tempos difíceis, nos quais se manifestou o que havia em meu coração, e assim pude me conhecer melhor.

Mas devo dizer que, em todos esses momentos, Deus sempre esteve presente, consolando-me e ensinando-me com a sua Palavra, escutando a minha oração, fortalecendo-me e reavivando a minha esperança, amando-me!

Além disso, no final Ele sempre saiu vencedor, pois "não é, porém, Efraim, filho querido, eternamente amado por mim? Todas as vezes que falo contra ele, mais viva se torna em mim a sua lembrança. E meu coração se comove ao pensar nele. Terei compaixão dele - oráculo do Senhor" (Jeremias 31, 20).

Outras muitas vezes, os caminhos de Deus são muito mais incompreensíveis, mas leve em consideração sempre sua Palavra sobre você, pois "assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão" (Isaías 55, 11).

E, como garantia disso, Deus venceu a morte, o destino inevitável da sua vida, e lhe deu a esperança da vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor. Ele mesmo entrou na morte para mostrar-lhe que você não tem nada a temer, e para amá-lo até o extremo.

Deus realmente ama você. Confie nele!

(Artigo publicado originalmente por Mensajero del Amor de Dios)

quarta-feira, 12 de março de 2014

É possível escutar Deus? Apesar da correria da vida diária, temos necessidade de buscá-lo incansavelmente nas pessoas e acontecimentos


É possível escutar Deus?

Apesar da correria da vida diária, temos necessidade de buscá-lo incansavelmente nas pessoas e acontecimentos

Padre Carlos Padilla



Eric Tornlov

Há alguns dias, uma menina de 8 anos me perguntou: “O que eu faço para Jesus falar comigo?”. Fiquei surpreso diante da pergunta. Ao mesmo tempo, pareceu-me essencial. É mesmo: como fazer para que Deus nos fale? Podemos fazer que Jesus fale conosco?

Não parece tão fácil. Seus silêncios nos desconcertam e suas palavras muitas vezes parecem incompreensíveis. Dá a impressão de que ele não fala o nosso idioma. Pelo menos não o entendemos. Sua voz parece um sussurro, uma melodia quase imperceptível.

Mas Ele está aí, ao nosso lado, todos os dias, acompanhando-nos no caminho. Ele nos abraça e nos sustenta quando nos sentimos cansados; Ele nos motiva a vencer nossas limitações quando não somos capazes de segui-lo.

Ele fala e cala, mas sempre nos olha. Sim, seu olhar é o olhar de um pai que ama, uma janela aberta ao céu, um abismo de misericórdia, um broto de esperança no meio da noite. Ele não deixa de contemplar nossos passos, de prever nossas quedas, de esperar-nos quando nos cansamos.

Mas isso sim: Ele respeita totalmente a nossa liberdade! Nunca a violenta, não nos força. Só quer nos seduzir com o seu amor, atrair-nos com a sua voz. Subitamente, ao descansar em seus braços, sentimos uma paz desconhecida. E, em nosso coração, descobrimos novas respostas, como se Ele as tivesse semeado em nossa alma enquanto dormíamos.

Para isso, é preciso, certamente, um jardim bem cuidado, uma terra bem trabalhada, profunda e fértil. É preciso um oceano fundo, porque, entre os barulhos da vida diária, sua voz se perde. É preciso aprender a “perder tempo” ao seu lado, buscá-lo, dedicar-nos a essa espera muitas vezes aparentemente infecunda.

Deus nos convida a buscá-lo nas pessoas, nos lugares, no vazio. Não quer que o busquemos somente naquilo que nos encanta e fascina, mas que o procuremos também naquilo que nos desagrada, nos rostos que não são tão simpáticos.

Ele quer que aprendamos a ler o livro da nossa própria vida, cheia de erros e rabiscos. Com paciência, decifrando sinais, levantando pedras, ventilando de vez em quando o quarto da alma, pelo qual o Senhor passeia. Sim, é claro que Deus nos fala!

Não podemos fazer nada para que Ele nos fale mais, nem mais claramente. Mas sim podemos fazer muito por aprender a escutar sua voz em meio a tantas vozes que nos confundem. Deus nos fala no humano e, a partir do humano, Ele nos conduz às alturas, ao seu coração.

O Pe. Kentenich dizia que “todo o criado pode acender meu coração: uma figura feminina, um bem terreno, uma ideia etc. Tudo isso pode me acender, mas meu agir precisa estar sempre dirigido ao divino”.

Deus sempre quer que subamos mais alto, que voemos até as alturas. Que levemos ao seu coração de Pai todo o humano que temos, nossas fraquezas e fortalezas, as tristezas e alegrias, as lágrimas e os sorrisos.

Porque tudo isso agrada Deus. Tudo lhe importa.
 
http://www.aleteia.org/image/pt/article/e-possivel-escutar-deus-5316209889247232/woman-in-prayer_pt/topic

 

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Como viver em Deus? Santo Agostino rezou: “Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim, e eu, lá fora, a procurar-Vos!

Como viver em Deus?
Santo Agostino rezou: “Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim, e eu, lá fora, a procurar-Vos!
26.09.2013
Prof. Felipe Aquino
 
O Catecismo da Igreja ensina, no primeiro parágrafo, que “Deus, em um desígnio de pura bondade, criou livremente o homem para fazê-lo participar de sua vida bem-aventurada”; isto é, para participar de sua felicidade eterna. “Fomos criados por Deus e para Deus; e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar” (n.27).

 
 

São Tomás de Aquino disse que “quanto mais o homem se afasta de Deus, mais experimenta o seu nada”. Este é problema do homem moderno, afastou-se de Deus, quis ser o seu próprio deus e nele perece. O cristão “vive em Deus”, como o peixe vive na água. São Paulo disse aos gregos em Atenas “Ele não está longe de cada um de nós. Porque Nele existimos, nos movemos e somos” (Atos 17,27-28).



Já neste mundo podemos começar a viver a vida eterna se vivermos em Deus todo o tempo, unidos à Trindade Santa que habita em nosso coração como em um Templo. Mais do que atos de piedade e devoção, Deus quer que vivamos unidos a Ele todo instante.

A Beata Elizabete da Trindade rezava: “Ó meu Deus, Trindade que adoro, ajudai-me a esquecer-me inteiramente, de mim mesma, para me fixar em Vós, imóvel e calma, como se minha alma estivesse já na eternidade: que nada possa perturbar-me  a paz, nem me fazer sair de Vós, ó meu Imutável, mas que cada instante me leve mais avante na profundidade de Vosso mistério”.


Santo Agostino também rezou: “Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim, e eu, lá fora, a procurar-Vos! Disforme, lançava-me sobre estas formosuras que criastes. Estáveis comigo e eu não estava Convosco! Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria, se não existisse em Vós. Porém, chamastes-me, com uma voz tão forte, que rompestes a minha surdez! Brilhastes, cintilastes, e logo afugentastes a cegueira! Exalastes perfume: respirei-o a plenos pulmões, suspirando por Vós. Saboreei-Vos e, agora, tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me e ardi, no desejo da Vossa Paz”.


Se Deus não estivesse em nós não poderíamos sequer mover os olhos. “É Ele que opera em nós o querer e o fazer” (Fil 2,13). Não há nada que possa nos esconder dos olhos de Deus e de sua Presença; nem mesmo o pecado.  É Ele quem nos mantém fora do nada. Sem Ele nada podemos: “Sem mim nada podeis fazer” (João 15,5).


(Publicado em
 
 

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Resposta ao amor de Deus * Nossa resposta ao amor incomensurável de Deus por nós só pode ser uma: amor a Ele sobre todas as coisas e pessoas, e amor ao irmão como a nós mesmos...


Resposta ao amor de Deus

Nossa resposta ao amor incomensurável de Deus por nós só pode ser uma: amor a Ele sobre todas as coisas e pessoas, e amor ao irmão como a nós mesmos

20.08.2013 -- Prof. Felipe Aquino

Cleofas

Aleteia/Bruno

                                              

                              

Há dois versículos na Bíblia que nos revelam de maneira clara quem é Deus. O primeiro deles é quando o próprio Senhor disse a Moisés: “EU SOU AQUELE QUE SOU” (Ex 3,14ª). Ser aquele que é quer dizer se aquele que existe, independente de qualquer causa. Existe por si mesmo; é incontingente, gera e mantém a vida de tudo o que existe fora do nada. Criou tudo sem precisar de nada. Essa é a majestade e o poder onipotente de Deus; por isso, somente Ele tem o direito de ser adorado. Os demais seres são contingentes.

O segundo versículo que nos revela Deus é o que saiu dos lábios de São João: “Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (I Jo 4,8). Deus é amor! O amor é a essência da natureza de Deus. Por essa razão, São João insistia que quem não ama não conhece a Deus; não tem a experiência de Deus em sua vida; não tem a vida eterna (cf. I Jo 3,14-15).

Resumindo os dois versículos acima, podemos conhecer um pouquinho sobre Deus: Ele é aquele que é a essência do Seu ser é o amor. Assim, todas as ações de Deus são movidas pelo amor, principalmente pelo amor a cada um de nós.

 Estou convencido de que só seremos pessoas amadurecidas na fé e convictamente religiosas, se experimentarmos este amor de Deus em nossa vida e dermos uma profunda resposta de amor a este Deus e Pai que nos ama sumamente.

 Os apóstolos foram incisivos ao nos lembrarem de que Deus nos amou primeiro: “Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em  os ter enviado ao mundo o seu Filho único, para que vivamos por ele. Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em ter-nos ele amado e enviado o seu Filho para expiar os nossos pecados” (I Jo 4,9-10). O próprio Jesus nos revelou a imensidão do amor de Deus por nós, quando disse a Nicodemos: “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).

 Estou certo de que enquanto não aprofundarmos nossa reflexão sobre esse versículo do Evangelho de São João, experimentando em nosso coração todo o amor de Deus por nós, não daremos uma resposta fiel de amor a Deus e aos irmãos em nossa vida.

 São Paulo sentiu e viveu este amor de Deus por ele e, por isso, disse aos gálatas: “Eu vivo, mas á não sou eu, é Cristo que vive em mim; a minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.” (Gl 2,20).  Todos nós precisamos, com a graça de Deus, experimentar isso que São Paulo experimentou e que transformou a sua vida: “(Ele) me amou e se entregou por mim.” O que mais queremos?

 Depois que Deus entregou o Seu Unigênito à morte de cruz por nós, ninguém mais pode duvidar do Seu amor. Deus não poderia fazer nada além do que fez para provar o Seu amor por mim e por você, individualmente. São Pedro chegou a dizer: “Não é por bens perecíveis, como a prata e o ouro, que tendes sido resgatadas (…) mas pelo precioso sangue de Cristo” (I Pd 1,18). É o caso de eu perguntar a você: Quanto vale a vida? E a do seu filho? Sei que você vai me dizer que ela não tem preço… é impagável. E quanto vale então a vida do Filho único de Deus?

Deus nos deu a vida por amor, quis que existíssemos, nos tirou do nada, “nos predestinou para sermos adotados como filhos seus por Jesus Cristo” (Ef 1,5).

 

Tudo por amor: Como exclamou o salmista: “Fostes vós que plasmastes as entranhas de meu corpo, Vós me tecestes no seio de minha mãe.  Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso” (Sl 138,13-14a). Somos  a grande maravilha de Deus; fomos criados à Sua imagem (cf. Gn 1,26) e toda a beleza do nosso ser – inteligência, vontade, liberdade, consciência, etc. – espelha o Seu amor por nós. Além disso, Deus criou este mundo maravilhoso em que vivemos e fez de nós “senhores” de tudo o que criou. Deu-nos a terra que produz o alimento de cada dia, a beleza das flores e os frutos saborosos; deu-nos o subsolo com todas as riquezas minerais; deu-nos os animais de todas as espécies, as aves do céu e os peixes do mar. Tudo criado para nós gratuita, generosa e amorosamente.

 Só não vê e não sente o amor de Deus quem não quer, quem tem os olhos cegos pelo orgulho que o impede de ver e de proclamar a glória de Deus. Desse fala o livro da Sabedoria quando diz: “São insensatos por natureza todos os que desconheceram a Deus, e, através dos bens visíveis, não souberam conhecer Aquele que é, nem reconhecer o Artista, considerando suas obras” (Sb 13,1).

Nossa resposta ao amor incomensurável de Deus por nós só pode ser uma: amor a Ele sobre todas as coisas e pessoas, e amor ao irmão como a nós mesmos (cf. Mc 12,29). Sem uma vida (não palavras) de amor a Deus e aos irmãos, não estaremos em comunhão com o Senhor: “Nisto temos conhecido o amor: (Jesus) deu sua vida por nós. Também nós outros devemos dar a nossa vida pelos nossos irmãos” (I Jo 3,16).  Essa é a resposta de amor que Deus espera de nós, pois “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (I Jo 4,16b). Ou ainda mais: “Aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê” (I Jo 4,20b). Amemos portanto a Deus, “porque Deus nos amou primeiro” (I Jo 4,19b). Vivendo assim, nada ou ninguém poderá roubar de nós a paz e a alegria, mesmo entre as tribulações da vida que Deus permite para a nossa santificação.

 (Originalmente publicado em Cléofas, no dia 19 de agosto de 2013)

terça-feira, 28 de maio de 2013

DEUS NÃO SÓ SE CRIA, COMO RECRIA, NÃO SÓ TRABALHA, COMO BRINCA

DEUS NÃO SÓ SE CRIA,  COMO
 
RECRIA, NÃO SÓ TRABALHA,
 
COMO
 
 BRINCA
Em Nossa Senhora do Bom Despacho--na Peregrinação
 
Na celebração, o pre­sidente destacou aos pe­regrinos o significado da peregrinação neste Ano da Fé: «A peregrinação à vossa, à nossa, Senho­ra do Bom Des­pacho, é o sím­bolo de cami­nharmos juntos como um Povo e uma Igreja, que quer ser como uma Ver­dadeira Família. Daí que esta peregrinação deve ser um orgulho para to­dos nós», salientou o pa­dre Paulo Sérgio.

Partindo dos textos da liturgia daquele domingo, o sacerdote referiu que «hoje, mais do que nun­ca, a família, o trabalho e a festa, são realidades

a instaurar e inaugurar. É necessário olhar o mun­do com os olhos de Deus, ou seja, anunciar Cris­to aos homens e mulhe­res, que passa por acei­tar e valorizar a diferen­ça, procurando chegar a todos. Uma das formas de responder a todos es­tes princípios, é procurar a fidelidade à mensagem do Evangelho».

Diante de centenas de fiéis, o cele­brante alertou ainda: «A co­munhão entre pessoas é vista como um instru­mento importante para o discernimento da fé da Igreja; Deus não criou o homem para viver iso­lado, mas em família pro­curando a igualdade e di­versidade, daí que o crente deve ser luz e sal para o mundo e no meio do mun­do, em todas as realidades que ele comporta».

«Vivemos num mundo marcado pela falta de autoestima na cultura atual, na cultura familiar, pois falta-nos a consciência do grande amor de Deus por cada um de nós, pois a mentalidade hodierna empurra-nos para o narcisismo, num amor fecha­do e exagerado a nós pró­prios», acrescentou.

in DM-28-05-2013

segunda-feira, 29 de abril de 2013

PAPA REJEITA FÉ NUM «DEUS-SPRAY» -- E FRISA QUE CATÓLICOS DEVEM ACREDITAR EM «PESSOAS»


PAPA REJEITA FÉ NUM «DEUS-SPRAY»

E FRISA QUE CATÓLICOS DEVEM ACREDITAR EM «PESSOAS»

 0 Papa rejeitou hoje o catolicismo baseado num “deus 'no ar', um deus-spray que está  em todos os lugares, mas não se sabe o que seja" e sublinhou que os católicos devem  crer em pessoas concretas.

"Nós acreditamos no Deus que é Pai, que é Filho, que é Espirito Santo, acreditamos em, Pessoas. E quando falamos com Deus, falamos com pessoas: ou falo com o Pai, ou falo  com o Filho ou falo com o Espirito Santo. E esta é a fé", sublinhou Francisco na missa  que presidiu no Vaticano, revela o portal de noticias da Santa Sé.

Na eucaristia concelebrada na Casa de Santa Marta por vários sacerdotes, entre os' quais o padre luso-canadiano José Avelino Bettencourt, chefe de protocolo da Secre­taria de Estado do Vaticano, o Papa realçou que "a fé é um dom" divino.

"Todos somos pecadores, temos sempre algo de errado, mas o Senhor perdoa-nos. Devemos prosseguir sempre, sem nos desencorajar", afirmou perante dezenas de membros do corpo de polícia italiano responsável pela segurança do Papa e do Vaticano.) Francisco referiu-se também à "alegria" e à "paz" proporcionadas pelo seguimento de  Cristo: "Peçamos ao Senhor que nos faça crescer nesta fé, nesta fé que nos fortalece, e que nos torna alegres, essa fé que começa sempre com o encontro com Jesus e pros­segue sempre na vida com os pequenos encontros quotidianos com Ele".

 In UM, Ecclesia. 18/04/20131

 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Como falar de Deus ao nosso tempo?-BentoXVI



A questão central que hoje nos colocamos é a seguinte: como falar de Deus no nosso tempo? Como comunicar o Evangelho, para abrir caminhos à sua verdade salvífica no coração frequentemente fechado dos nossos contemporâneos e nos seus espíritos às vezes atordoados pelos numerosos clarões ofuscantes da sociedade?

O próprio Jesus, dizem-nos os evangelistas, ao anunciar o Reino de Deus interrogou-se sobre esta questão: «A que coisa podemos comparar o reino de Deus ou com que parábola poderemos descrevê-lo?» (Marcos 4, 30). Como falar de Deus hoje?


 
 
 
 

A primeira resposta é que podemos falar de Deus porque Ele falou connosco. A primeira condição do falar de Deus é por isso a escuta que quando o próprio Deus disse. Deus falou connosco! Deus não é portanto uma hipótese longínqua sobre a origem do mundo; não é uma inteligência matemática muito afastada de nós. Deus interessa-se por nós, ama-nos, entrou pessoalmente na realidade da nossa história, autocomunicou-se até se incarnar. Assim Deus é uma realidade da nossa vida, é de tal forma grande que também tem tempo para nós, ocupa-se de nós.

Em Jesus de Nazaré encontramos o rosto de Deus, que desceu do seu céu para penetrar no mundo dos homens, no nosso mundo, e ensinar a «arte de viver», a estrada da felicidade; para nos libertar do pecado e tomar-nos filhos de Deus (cf. Efésios 1, 5; Romanos 8, 14). Jesus veio para salvar-nos e mostrar-nos a vida boa do Evangelho.

Falar de Deus quer dizer antes de tudo ter bem claro o que devemos levar aos homens e às mulheres do nosso tempo: não um Deus abstracto, uma hipótese, mas um Deus concreto, um Deus que existe, que entrou na história e está presente na história; o Deus de Jesus Cristo como resposta à pergunta fundamental do porquê e do como viver.

Por isso, falar de Deus requer uma familiaridade com Jesus e o seu Evangelho, supõe um nosso pessoal e real conhecimento de Deus e uma forte paixão pelo seu projecto de salvação, sem ceder à tentação do sucesso, mas seguindo o método do próprio Deus.

O método de Deus é o da humildade - Deus faz-se um de nós - é o método realizado na Incarnação na casa simples de Nazaré e na gruta de Belém, o da parábola do grão de mostarda É preciso não temer a humildade dos pequenos passos e confiar no fermento que penetra na massa e lentamente a faz crescer (cf. Mateus 13. 33).

No falar de Deus. na obra de evangelização, sob a orientação do Espírito Santo, é necessário reencontrar a simplicidade, regressar ao essencial do anúncio: a boa noticia de um Deus que é real e concreto, um Deus que se interessa por nós. um Deus-amor que se faz próximo de nós em Jesus Cristo até á cruz e que na ressurreição nos dá a esperança e nos abre para uma vida que não tem fim, a vida eterna, a vida verdadeira.

Aquele excepcional comunicador que foi o apóstolo Paulo oferece-nos uma lição que vai precisamente ao centro da fé sobre a questão de "como falar de Deus" com grande simplicidade. Na primeira carta aos Coríntios, escreve: «Eu mesmo, quando fui ter convosco, irmãos, não me apresentei com o prestígio da linguagem ou da sabedoria, para vos anunciar o mistério de Deus. Julguei não dever saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado» (2, 1-2). Logo, a primeira realidade é que Paulo não fala de uma filosofia que desenvolveu, não fala de ideias que encontrou algires ou inventou, mas fala de uma realidade da sua vida, fala do Deus que entrou na sua vida, fala de um Deus real que vive, que falou com ele e falará connosco, fala do Cristo crucificado e ressuscitado.

A segunda realidade é que Paulo não se procura a si próprio nem quer criar um grupo de admiradores, nem quer entrar na História como cabeça de uma escola de grande conhecimento, não se procura a si mesmo, mas anuncia Cristo e quer ganhar a as pessoas para o Deus verdadeiro e real. Paulo fala só com o desejo de querer anunciar aquele que entrou na sua vida e que é a verdadeira vida, que o conquistou na estrada de Damasco.

Nesse sentido, falar de Deus quer dizer dar espaço Àquele que o dá a conhecer, que nos revela o seu rosto de amor; quer dizer afastar o próprio eu oferecendo-o a Cristo, na consciência de que não somos nós a poder ganhar os outros para Deus, mas devemos esperá-lo do próprio Deus, pedir-Lho. O falar de Deus nasce, assim, de uma escuta, da nossa consciência de Deus que se realiza na familiaridade com Ele, na vida de oração e segundo os Mandamentos.

Comunicar a fé, para São Paulo, não significa levar-se a si mesmo, mas dizer aberta e publicamente o que se viu e sentiu no encontro com Cristo, o quanto se experimentou na existência desde então transformada por esse encontro: é levar aquele Jesus que sente presente em si e que se tornou a verdadeira orientação da sua vida, para fazer compreender a todos que Ele é necessário para o mundo e é decisivo para a liberdade de cada pessoa.

O apóstolo não se contenta em proclamar palavras mas convoca toda a sua própria existência na grande obra da fé Para falar de Deus é preciso dar-lhe espaço, na confiança de que é Ele que age na nossa fraqueza: dar-lhe espaço sem medo. com simplicidade e alegria, na convicção profunda que quanto mais colocarmos Deus ao centro, e não nós. mais a nossa comunicação será frutuosa.

E isto vale também para as comunidades cristãs: são chamadas a mostrar a acção transformadora da graça de Deus. superando individualismos. fechamentos, egoísmos. indiferenças, e vivendo o amor de Deus nas relações do dia a dia. Perguntemo-nos se são verdadeiramente assim as nossas comunidades. Devemos pôr-nos a caminho para nos tornarmos sempre e realmente assim, anunciadores de Cristo e não de nós próprios.

Aqui chegados devemos perguntar-nos como é que o próprio Jesus comunicava. Jesus na sua unicidade fala do seu Pai - Abbà - e do Reino de Deus com o olhar pleno de compaixão pelos problemas e dificuldades da existência humana. Fala com grande realismo e, diria, o essencial do anúncio de Jesus é que Ele torna o mundo transparente o mundo e a nossa vida tem valor para Deus.

Jesus mostra que no mundo e na criação transparece o rosto de Deus e mostra-nos como na história quotidiana da nossa vida Deus é presente. Seja na parábolas da natureza, o grão de mostarda, o campo com várias sementes, ou na nossa vida - pensemos na parábola do filho pródigo, em Lázaro e outras parábolas de Jesus.

No Evangelho vemos como Jesus se interessa por todas as situações humanas que encontra, mergulha na realidade dos homens e das mulheres do seu tempo, com confiança plena no auxílio do Pai. E vemos que realmente nesta história, de maneira oculta, Deus está presente, e se estivermos atentos podemos encontrá-lo. E os discípulos, que vivem com Jesus, as multidões que o encontram, vêem as suas reacções aos problemas mais diversos, vêem como fala, como se comporta; vêem nEle a acção do Espírito Santo, a acção de Deus. Nele anúncio e vida entrelaçam-se: Jesus age e ensina, partindo sempre de uma relação intima com Deus Pai.

Este estilo torna-se um indicador essencial para nós, cristãos: o nosso modo de viver na fé e na caridade torna-se um falar de Deus no hoje, porque mostra com uma existência vivida em Cristo a credibilidade, o realismo do que dizemos com as palavras, que não são só palavras, mas mostram a realidade, a verdadeira realidade.

E nesta atitude devemos estar atentos a colher os sinais dos tempos na nossa época, discernindo as potencialidades, os desejos, os obstáculos que se encontram na cultura actual, em particular o desejo de autenticidade, o anseio à transcendência, a sensibilidade pela salvaguarda da criação, e comunicar sem temor a resposta que oferece a fé em Deus

O Ano da Fé é ocasião para descobrir, com a fantasia animada pelo Espírito Santo, novos percursos a nível pessoal e comunitário, para que em todos os lugares a força do Evangelho seja sabedoria de vida e orientação da existência.

Também no nosso tempo um espaço privilegiado para falar de Deus é a família, a primeira escola para comunicar a fé às novas gerações. O Concilio Vaticano II fala dos pais como os primeiros mensageiros de Deus (cf. Lumen gentium. 11; Apostolicam actuositatem, 11), chamados a redescobrir esta sua missão, assumindo a responsabilidade no educar, no abrir a consciência dos mais pequenos ao amor de Deus como um serviço fundamental à sua vida, no ser os primeiros catequistas e mestres da fé para os seus filhos.

E neste sentido é importante antes de mais a vigilância, que significa saber discernir as ocasiões favoráveis para introduzir na família o discurso da fé e para fazer amadurecer uma reflexão crítica no que respeita aos numerosos condicionamentos a que são submetidos os filhos. Esta atenção dos pais é igualmente uma sensibilidade para acolher as possíveis questões religiosas presentes na interioridade dos filhos, às vezes evidentes, às vezes escondidas.

Depois, a alegria: a comunicação da fé deve ter sempre uma tonalidade de alegria. É a alegria pascal, que não cala ou esconde a realidade da dor, do sofrimento, do cansaço, da dificuldade, da incompreensão e da própria morte, mas sabe oferecer os critérios para interpretar tudo na perspectiva da fé cristã.

A vida boa do Evangelho é precisamente este olhar novo, esta capacidade de ver com os próprios olhos de Deus cada situação. É importante ajudar todos os membros da família a compreender que a fé não é um peso mas uma fonte de alegria profunda, é perceber a acção de Deus, reconhecer a presença do bem que não faz rumor; e oferece orientações preciosas para viver bem a própria existência.

Por fim, a capacidade de escuta e de diálogo: a família deve ser um meio onde se aprende a estar junto, a reconciliar as oposições no diálogo recíproco, que é feito de escuta e de palavra, a compreender-se e a amar-se, para ser um sinal, um para o outro, do amor misericordioso de Deus.

Falar de Deus, portanto, que dizer fazer compreender com a palavra e com a vida que Deus não o concorrente da nossa existência, mas é o seu verdadeiro garante, o garante da grandeza da pessoa humana.

Assim regressamos ao início: falar de Deus é comunicar, com força e simplicidade, com a palavra e com a vida, o que é essencial: o Deus de Jesus Cristo, aquele Deus que nos mostrou um amor de tal forma grande ao ponto de incarnar, morrer e ressuscitar por nós; esse Deus que pede que o sigamos e nos deixemos transformar pelo seu imenso amor para renovar a nossa vida e as nossas relações: esse Deus que nos deu a Igreja, para caminharmos juntos e, através da Palavra e dos Sacramentos, renovar toda a Cidade dos homens, para que se possa tornar Cidade de Deus

Bento XVI

Audiência geral no Vaticano, 28.11.2012

 in Escalada,boletim da Casa Ozanam