Por que a cristandade europeia foi
tão importante para a fé
O florescimento de uma
cultura autenticamente cristã não aconteceu por acidente
Thomas Storck
Andreas Akre Solberg
Hilaire Belloc é famoso (ou
infame, para alguns) por uma afirmação de seu livro “A Europa e a Fé”: "A
fé é a Europa e a Europa é a fé" [1].
É claro que Belloc, como qualquer homem inteligente, sabia muito bem que esta
afirmação não era literalmente verdadeira, pelo menos não no sentido
estatístico: havia milhões de católicos fora da Europa e milhões de não
católicos na Europa. Este é o caso ainda hoje, inclusive mais do que quando
Belloc escreveu. Mas existe um sentido em que essa afirmação é verdadeira:a
Europa é o lugar em que, por providência de Deus, a fé teve tempo e espaço para
se desenvolver intelectual e culturalmente até formar a cristandade, o sinal
externo e visível do trabalho interno e invisível de Deus nas almas humanas.
Embora a órbita cultural da Igreja tenha incluído originalmente partes da
África e da Ásia, e apesar de muitos dos primeiros e mais importantes Padres e
teólogos da Igreja serem do norte da África ou do Oriente Médio, essas áreas
foram até certo ponto cortadas do contato com o resto do mundo católico depois
das invasões maometanas.No caso da África setentrional latina, a Igreja acabou
por desaparecer de todo. A Europa se tornou, assim,o único lugar onde, mesmo em
meio a muitas dificuldades, a vida católica pôde se desenvolver de forma mais
ou menos natural e própria. É correto dizer, neste sentido, que “a fé é a
Europa e a Europa é a fé”,porque foi somente no Velho Continente que a vida
social e cultural católica teve a chance de amadurecer, dando ao continente uma
unidade cultural que provavelmente não teria se constituído sem a cristandade.
Essa manifestação social e cultural exterior da fé católica sempre foi
característica da Igreja. Salvo em casos de perseguição, o normal foi o
estabelecimento de uma ordem social católica, a ponto de darmos por
incontestável o número imenso de expressões intelectuais, literárias,
artísticas, musicais, arquitetônicas e de outras manifestações da fé católica
que nasceram dentro da cristandade. Mas há um elemento adicional e quase sempre
necessário nesta expressão externa da fé: o aspecto político. Desde o
reconhecimento inicial da Igreja pelo Imperador Constantino através do Edito de
Milão, a Igreja católica desfrutou de uma relação complexa com os vários
poderes políticos do mundo. Antes de Constantino, a Igreja era objeto de
perseguição por parte do governo romano.
Com o Edito de Milão, porém, tudo mudou. O governo se tornou, em certo sentido,
patrono e protetor da Igreja. Que esse vínculo teve um lado negativo, ninguém
pode negar. Mas que foi o meio providencial para proteger a Igreja e permitir o
desenvolvimento da civilização cristã é igualmente inegável. É desconcertante
avaliar certas instâncias particulares dessa complexa relação com os poderes do
mundo, relação muitas vezes positiva e negativa ao mesmo tempo.O necessário,
considero eu, é evitar tanto a condenação integral dessa relação quanto o não
reconhecimento ou a minimização dos seus aspectos negativos.
Ao avaliar os prós e contras da relação política que muitos governantes
mantiveram com a Igreja ao longo dos séculos, devemos lembrar que, sem esse
tipo de proteção,as culturas católicas dificilmente teriam conseguido se
desenvolver. Deixo para abordar a situação contemporânea mais adiante; falando
do passado, porém, até algumas centenas de anos atrás, os triunfos militares ou
políticos de poderes anticatólicos acarretavam geralmente a perseguição contra
a Igreja, a destruição das manifestações externas de vida católica e, muitas
vezes, a morte lenta da fé na vida privada dos indivíduos.
A célebre afirmação de Tertuliano de que “o sangue dos mártires é semente da
Igreja”se mostrou verdadeira em vários contextos, mas não pode ser considerada
um axioma aplicável acriticamente a todos os tempos e lugares. Nas terras
conquistadas pelos muçulmanos ou nas partes da Europa que abraçaram o
protestantismo, a Igreja foi submetida a diferentes graus e tipos de
perseguição e, em alguns casos, o organismo católico foi reduzido a nada. Isto
salienta que, qualquer que seja o dano provocado pela proteção do Estado à
Igreja, continua sendo verdade que ela também proporciona o espaço necessário
para que a Igreja e a vida católica existam e se desenvolvam. A triste situação
da Igreja na Europa católica é tomada muitas vezes como “prova” de que, em
última análise, a proteção oficial faz mais mal do que bem, mas, comparando-se
a Europa latina de hoje com terras outrora católicas como a Escandinávia e a
Ásia Menor, podemos concluir que mais de uma opinião é possível.
Houve na Europa cristã uma sucessão de poderes políticos que ofereceram esse
patrocínio até o século XIX, embora de modo cada vez menos consistente à medida
que os séculos passavam: o Império Romano, tanto ocidental quanto oriental; o
Império Franco de Carlos Magno; a maioria dos reinos europeus durante a Idade
Média; a Espanha dos Habsburgo, juntamente com o Sacro Império Romano, e, por
último, a França. Durante esse tempo, é claro, a Igreja perdeu grandes partes
da Europa na revolta protestante, quase ao mesmo tempo em que começava a
expansão católica para o Novo Mundo e para partes da Ásia e da África.
Necessariamente,a vida católica nessas regiões derivou da vida católica
europeia. Em uma região, particularmente, houve tempo e recursos suficientes
para a criação de uma verdadeira nova província da cristandade: a América
Latina, onde surgiu uma cultura católica barroca, certamente transplantada da
Europa em suas linhas principais, mas desenvolvida em um novo ambiente e entre
novos povos.
Christopher Dawson escreveu:
"Nenhum lugar exibe a
vitalidade e a fecundidade da cultura barroca melhor do que o México e a
América do Sul, que experimentaram um rico florescimento de estilos regionais
de arte e arquitetura, alguns com influência indígena considerável. Este poder
da cultura barroca de assimilar influências exteriores é um dos seus traços
característicos,que a distingue nitidamente da cultura e do estilo artístico do
âmbito anglo-americano" [2].
Este poder assimilador do barroco espanhol foi tão grande que, no tocante à
música,outro estudioso chegou a afirmar:
"É muito difícil, na
Bolívia, no Peru e no Equador, separar os elementos musicais de origem indígena
dos de tradição europeia... Os elementos das duas culturas se combinaram para
formar unidades inseparáveis" [3].
A América Latina, por um lado,ofereceu espaço para o desenvolvimento cultural
católico, mas, por outro, como todas as terras recém-descobertas ou
colonizadas, continuou a depender política e intelectualmente da Europa.
Já na Europa, como observei antes, países importantes e cada vez mais poderosos
tinham se desligado da unidade católica. A Inglaterra protestante, junto com a
Holanda e,durante um tempo, com a Suécia, passou a ser a central europeia de
destruição da civilização católica. Esses países se tornaram não só rivais
políticos e militares das potências católicas, mas erigiram um modelo
alternativo de vida cultural ocidental que tem exercido um poderoso apelo
intelectual.
Os Estados Unidos se transformaram, posteriormente, na base mundial da cultura
protestante. Belloc escreveu a respeito: "A força da cultura protestante
encontra-se agora fora da Europa, nos Estados Unidos" [4]. Essas várias
potências protestantes trabalharam para conquistar porções de territórios católicos
no mundo todo, com o envio de missionários protestantes para a América Latina e
outros países católicos.Eles têm contribuído para a destruição da fé e da
cultura católica, mas, talvez mais significativo do que isso, têm oferecido um
modelo alternativo de cultura ocidental que apela fortemente ao materialismo
moderno. O crescente poderio e riqueza industrial deste modelo oferece
argumentos espúrios a seu favor, resumidos por Belloc nas seguintes palavras:
"A Igreja Católica é falsa
porque as nações de cultura católica têm decrescido de forma constante em
riqueza material e em poder, contrastando com as nações de cultura
anticatólica, ou, neste caso particular, de cultura protestante" [5].
Embora hoje em dia nem a Grã-Bretanha nem os Estados Unidos tenham qualquer
interesse, como nações, na teologia protestante, ambos continuam se opondo
reflexivamente aos interesses católicos ou a quaisquer remanescentes de cultura
católica no mundo atual. Aliás, parte do sentimento anti-hispânico de tantos
anglo-americanos, inclusive católicos, tem raiz no sentimento de superioridade
cultural da civilização protestante.
Em termos gerais,a civilização protestante ainda existe hoje como força de
apoio (não me refiro ao protestantismo como religião, mas à cultura
protestante);já um poder católico, neste sentido, não existe. Com a exceção
parcial e frágil de alguns países latino-americanos [6], a cultura da Igreja
católica não têm verdadeiras propostas políticas hoje. No final do século XIX,
o papa Leão XIII e outros pensadores católicos de vasta visão perceberam que a
Igreja não poderia mais depender de príncipes católicos para garantir apoio
externo. Tanto no campo cultural quanto no político, passaria a ser a massa do
povo católico, residente cada vez mais em regimes democráticos e com voz em
seus governos, quem constituiria o apoio externo da Igreja. E esse novo arranjo
pareceu funcionar razoavelmente bem. O último terço do século XIX e a primeira
metade do século XX foram um dos períodos mais brilhantes do pensamento e das letras
católicas, da filosofia, dos esforços dos papas Pio X a Pio XII para
concretizar o potencial da liturgia como escola de vida cristã. Apesar das
interrupções causadas pelas duas guerras mundiais, o pensamento católico
exerceu influência política em mais de um país;houve partidos políticos
católicos, oficiais ou não; e alguns regimes se dedicaram, mais ou menos
conscientemente, a realizar um programa católico de políticas públicas; mesmo
nos países protestantes,a vida popular católica florescia em grande variedade
de associações e instituições e os católicos chegaram a exercer considerável
influência no processo político.
Infelizmente, na segunda metade do século XX, a Igreja infligiu a si mesma,de
modo deliberado e incompreensível, um grave ferimento. Os documentos
conciliares como tais, apesar de algumas ambiguidades, não são
problemáticos;mas parece haver uma razoável percepção de que a condução do
concílio Vaticano II e, mais ainda,a sua aplicação e o pós-concílio provocaram
um desastre pastoral, intelectual e institucional para a Igreja. Como resultado
desse desastre, a vida católica popular que já existia foi destruída em grande
parte. A cultura católica é muito mais ampla do que simplesmente a recepção dos
sacramentos e da catequese,mas depende de elementos formais de vida
católica,sem os quais ela não pode durar.
É difícil, assim, imaginar qualquer saída desta nossa situação atual, já que
tanto o lado formal quanto o popular da vida católica foram afetados. Como
podemos responder a esta situação em que a Igreja não goza do apoio de nenhum
governo poderoso nem exerce um entusiasmo vasto e leal no povo católico? Em
circunstâncias assim, como manter, alimentar e estendera Igreja e a vida
católica?
Infelizmente, as medidas que podem ser sugeridas para esse fim parecem muito
inadequadas. Uma liturgia bela e historicamente enraizada; o cultivo deliberado
de uma consciência da tradição intelectual católica, incluindo a ênfase na
doutrina social da Igreja; escolas católicas novas ou restauradas em todos os
níveis; educação popular constante através da mídia...Estes estão, para mim,
entre os meios principais possíveis e com esperança de sucesso. Mas nenhum
deles é fácil de desenvolver.Além disso, dos que já foram iniciados, muitos
estão mais do que contaminados por influências externas:nos EUA, por exemplo,
há contaminação vinda de compromissos fatais com a visão de mundo do
liberalismo clássico por parte de católicos incapazes de distinguir entre a
visão católica da ordem social e a visão do liberalismo clássico, simplesmente
porque este último parece estar em desacordo com a trajetória de um liberalismo
mais recente e, obviamente, prejudicial. Que ambas as formas de liberalismo
estão enraizadas nos mesmos erros é coisa aparentemente impossível de entender
para muitos.
Eu não tenho grandes esperanças para o futuro imediato. No longo prazo, não há
dúvida nem deve haver medo, pois Jesus Cristo é a cabeça da Igreja e a Igreja é
o seu Corpo Místico. Quanto tempo significa esse “longo prazo”?Seja pouco, seja
muito, o fato é que não está em nossas mãos. Enquanto isso, o sucesso não deve
ser a regra da nossa atividade, mas sim a fidelidade: fidelidade ao mandado que
o Fundador deu à Igreja de sair para o mundo e pregar o Evangelho a toda
criatura.
[1] Rockford: TAN, [1920] 1992, pág. 2.
[2] The Dividing of Christendom; Garden City: Image, 1967, pág. 162.
[3] Bruno Nettl, Folk and Traditional Music of the Western Continents;
Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall, 2ª ed., 1973, pág. 191.
[4] The Two Cultures of the West, in Essays of a Catholic; Rockford: TAN [1931]
1992, pág. 244.
[5] Survivals and New Arrivals; Londres: Sheed & Ward, 1939, pág.
80.
[6] Quando a Argentina escolheu a data de 25 de março como Dia da Criança Ainda
Não Nascida, para simbolizar a sua rejeição ao aborto, o presidente Carlos
Menem escreveu aos chefes de Estado de todos os países latino-americanos,além
de Espanha, Portugal e Filipinas, convidando-os a aderir. Ele observou que
"as raízes históricas comuns dos nossos países nos unem não só em questões
de linguagem, mas também na compreensão do homem e da sociedade baseada na
dignidade fundamental da pessoa humana" (Catholic World News, 25/03/1999).
É um eco do antigo status do mundo hispânico em seu papel de baluarte
geopolítico do catolicismo.