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sábado, 1 de agosto de 2015

Não troco a minha fé por outra fé


Não troco a minha fé por outra fé

Quatro questionamentos frequentes sobre a fé católica e as respostas que a Bíblia oferece
http://www.aleteia.org/resources/images/jmj/no-pict.pngSempre, em minha caminhada de Igreja, ouvi questionamentos sobre certas práticas da Igreja Católica, tanto de católicos em dúvidas quanto de alguns evangélicos mal informados ou talvez mal formados (e que buscam comunidades pentecostais onde qualquer formação é deixada de lado). Para ser breve, apresento algumas dessas questões.

 
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O leitor Bruno Salles de Oliveira nos enviou seu testemunho sobre alguns questionamentos que lhe fazem quanto à fé católica e como ele responde a partir da Bíblia.



NÃO TROCO A MINHA FÉ POR OUTRA FÉ
Bruno Salles de Oliveira

Sempre, em minha caminhada de Igreja, ouvi questionamentos sobre certas práticas da Igreja Católica, tanto de católicos em dúvidas quanto de alguns evangélicos mal informados ou talvez mal formados (e que buscam comunidades pentecostais onde qualquer formação é deixada de lado). Para ser breve, apresento algumas dessas questões:


- “Por que os católicos têm imagens se a Bíblia as proíbe?”
- “Por que a Igreja Católica usa incenso? Isso não é coisa de bruxaria?”
- “Por que acreditar na ação dos santos?”
- “Por que dizer que Maria é virgem se a Bíblia fala dos irmãos de Jesus?”


Há mais perguntas, mas vamos a estas que já preenchem matéria para mais de uma página.

Sobre as imagens é interessante que há passagens que proíbem a fabricação de ídolos, mas, depois, na construção do templo que Davi desejou construir (e que seu filho Salomão teve o privilégio de concretizar), há orientações bem claras sobre imagens de querubins sobre a arca e estátuas de bois para servir de apoio à bacia usada nos ritos de purificação. Havia imagens no templo, mas ninguém as adorava só por estarem ali. Nenhum judeu cometeu idolatria só porque entrou num templo com imagens de ouro e bronze. Além disso, temos outros episódios emblemáticos, como o da serpente de bronze incrustada em um poste (Números 21,8). Deixo a seguir várias citações bíblicas para que cada um verifique e as guarde para dar respostas a muitos que as desconhecem: proibição das imagens – Êxodo 20, 4; Deuteronômio 5, 8-10; aprovação das imagens – 1Reis 6, 23-29; Êxodo 26, 31-33; Êxodo 25, 18-22; 1Samuel 4, 4; 2Samuel 6, 2; Salmo 98, 1; Êxodo 25, 40.

Sobre o incenso, não vou dar uma passagem, mas um livro inteiro! Leiam o livro do Apocalipse e vejam quantas vezes São João Evangelista fala de turíbulos de ouro e incenso queimando dentro desses turíbulos. E tudo isso acontecendo no Céu, diante de Deus! Com certeza, Deus não é bruxo! Por isso é tão ridículo que algumas crenças questionem o uso do incenso na liturgia católica.

Sobre os santos, há várias passagens bíblicas que falam deles sob o altar de Deus, rogando pelos justos. Algumas delas no Apocalipse: 5,8; 6,9-10, 8,3-4. Não tenham dúvida: só há um intercessor no sentido de conceder-nos a Salvação: Jesus Cristo. Mas cada santo da Corte Celeste pode e roga a Nosso Senhor Jesus por nós. Eles não fazem milagres; Nossa Senhora não faz milagres; mas, por intercessão dela e dos santos diante de Deus, recebemos inúmeros benefícios vindos de Nosso Senhor. Sabemos que Jesus canonizou o primeiro santo da Igreja Católica, o bom ladrão, conhecido como São Dimas. Jesus garantiu a ele a Graça do Céu ainda na cruz (Lucas 23,39-43). Ninguém morre e fica dormindo à espera do Juízo Final: cada qual tem seu juízo particular na hora da morte (Hebreus 9,27); quem está no Céu, como o bom ladrão, já está contemplando o Senhor e rogando por nós.

Por fim, quanto aos irmãos de Jesus e a virgindade de Maria: muitos, muitos mesmo, ficam presos ao versículo da Bíblia que fala dos “irmãos de Jesus” (Mateus 12,46). Então quer dizer que todos aqueles a quem São Paulo, em suas cartas, trata por irmãos, e olha que era muita gente, eram literalmente irmãos dele? Claro que não! São João Evangelista, em suas cartas, chama aos cristãos de filhinhos; mas nem por isso todos os que liam as suas cartas eram seus filhos. Os estudos e tradições, aliás, chegaram à conclusão de que João nem mesmo se casou, quanto mais ter gerado filhos. E Nossa Senhora não foi uma mulher comum da Palestina. Setecentos anos antes de seu nascimento, o Espírito Santo, já anunciava, pela boca do profeta Isaías (Isaías 7,14), a vinda do Messias no ventre de uma jovem (em hebraico almah, que quer dizer virgem). O arcanjo Gabriel, na Anunciação, a reconheceu cheia de graça (Lucas 1,28). Além disso, à época de Nosso Senhor Jesus, era comum que parentes próximos, como primos primeiros, se tratassem por irmãos. Ou ainda, São José poderia ser viúvo, conforme afirmam alguns estudiosos da Bíblia, e ter filhos do primeiro casamento, que seriam, portanto, chamados de irmãos de Jesus.

Levando todas estas informações em consideração, fica mais clara a importância de estudar e conhecer a nossa Santa Religião e saber dar razões da nossa fé.

Espero que cada um possa afirmar como na música do Padre Zezinho: “Não troco a minha fé por outra fé”.

 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Gosto de ir à missa, mas não concordo com a doutrina católica ------O que fazer se eu não estou em sintonia com o Magistério da Igreja?


Gosto de ir à missa, mas não concordo com a doutrina católica

O que fazer se eu não estou em sintonia com o Magistério da Igreja?


 Public Domain


Um leitor perguntou:
 

Sempre frequentei a Igreja e seria muito difícil, para mim, renunciar à missa e a outras atividades da paróquia. Além disso, a minha esposa e eu procuramos passar esta mesma disposição para os nossos filhos. Só que, em muitas coisas, não me sinto em sintonia com a doutrina católica: em questões de moral, de teologia, sacramentos, organização hierárquica... Faço certo em continuar frequentando a Igreja ou seria mais coerente deixá-la, reconhecendo que estou fora da comunhão eclesial?



O padre italiano Athos Turchi, professor de filosofia, responde:

As divergências me parecem significativas, mas, sem saber especificamente quais são elas, não é fácil responder à sua pergunta. Uma coisa é você não concordar em comer peixe às sextas-feiras e outra é dizer que Deus não é trino. Se as divergências dizem respeito a questões fundamentais da fé, como parece o caso, é preciso, de fato, você questionar se ainda faz parte da religião que diz professar.

O problema, porém, não está colocado adequadamente, porque, em matéria de religião, a questão não é se você pode comungar com tudo ou com um pouco. Há uma questão prévia: o que é uma religião e o que ela pode lhe oferecer? O que você procura em uma religião e aonde quer chegar com ela? Se você deseja apenas pertencer a certo círculo político, social, cultural, então, obviamente, a religião não é o que você procura. Ela não pode lhe dar essas coisas porque as transcende, nem pode ser flexível e mutável ao sabor das preferências particulares precisamente porque ela não tem uma dimensão evolutiva e dialética, e sim salvífica.

Um exemplo: se a religião diz que somos salvos por viver honestamente, ela não pode mudar de ideia em dado momento e passar a dizer que somos salvos por roubar. Uma religião tão contraditória se desacreditaria e se destruiria sozinha.

Já se você estiver em busca de uma comunhão com Deus voltada à sua salvação eterna, e para isso estiver disposto a seguir uma doutrina de fé e uma prática de aperfeiçoamento, então deverá avaliar a religião que melhor lhe permite alcançar o que deseja, bem como, por consequência, o modo e o método que essa religião lhe propõe para obter aqueles bens eternos, normalmente resumidos no seu corpo doutrinal. O cristianismo propõe um caminho, um método, um conteúdo ou doutrina, um ensinamento e uma organização, chamada de Igreja, e toda essa proposta é derivada de Cristo. Esse credo atende às suas aspirações? Se você disser que deseja aderir ao cristianismo, não poderá viver como um budista; seria uma contradição tanto quanto se dizer vegetariano e continuar comendo carne.

Hoje temos a impressão de que cada um pode pinçar nas religiões os elementos que prefere e até criar uma religião própria, com doutrina e organização personalizada. A questão é, de novo, o que o crente espera da religião à qual decide aderir. Se, por exemplo, a fé cristã ensina que o caminho da santidade é o casamento indissolúvel, mas o crente não está convencido disto, ele é perfeitamente livre para participar de outra religião que pregue algo diferente. Mas atenção: a religião que nega a indissolubilidade do matrimônio deverá negá-la sempre, porque, assim como a cristã, ela deve ser coerente com aquilo que prega. Aliás, a maior parte das outras religiões é muito mais rigorosa do que o cristianismo. Nelas, a salvação vem do cumprimento de leis e regras, enquanto o cristianismo abre espaços para a caridade e para relevar a ignorância, coisa que, em outras religiões, não ocorre. É o caso da blasfêmia: no cristianismo ela é quase uma constante, ao passo que, no islã, para citar um exemplo, talvez ela seja tolerada uma vez ou duas, mas, depois disso, pode ensejar uma condenação à decapitação. Isso quer dizer que, nas religiões, o conteúdo de salvação e de doutrina não pode ser alterado, exceto para ser reafirmado com ainda mais clareza conforme a época em que se está vivendo.

O problema exposto, caro leitor, deverá ser resolvido por você mesmo, que precisa encarar estas perguntas: o que você procura na religião e o que espera da religião cristã? Ela pode lhe dar o que você quer? Você aceita o seu conteúdo, formas, métodos e realizações? Se você só quer pertencer a uma "cultura" cristã, parece claro que não está interessado prioritariamente na salvação, e sim no "pensamento" cristão ou em algumas partes dele. Acontece que isto, obviamente, não é o cristianismo. Já se o seu desejo é a vida eterna mediante o seguimento do exemplo traçado por Cristo, então essas divergências não cabem, pois indicam que você não compreendeu a religião à qual aparentemente pertence e da qual espera a eternidade.

Em suma, o ponto a ser observado é que uma religião não é uma teoria política, nem um movimento social, nem uma organização civil; uma religião é uma prática salvífica voltada a bens eternos que transcendem o mundo e a história. Estes bens, ou a religião atinge ou não atinge. Se ela os atinge, então o caminho a ser seguido é único e sempre o mesmo, porque se a eternidade pudesse ser atingida tanto pelo amor quanto pelo ódio, a religião seria uma farsa.

Quanto aos sete sacramentos, eles são os instrumentos que Deus mesmo nos oferece para a comunhão com Ele: seria insensato achar que não há problema algum em não ser batizado, em pecar, em odiar, em matar, em manter qualquer tipo de relacionamento na hora e do jeito que se quiser. A religião ou tem um significado expresso na sua doutrina ou não tem sentido algum.

O leitor analise, então, o que deseja na vida e considere se a religião cristã pode oferecê-lo. Depois, decida se quer segui-la ou não. Toda a questão se resume nas palavras de Jesus: “Dai a Deus o que é Deus”.  
                     Aleteia

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A fé do nadador campeão

A fé do nadador campeão


“Sem Deus seria um vazio total”, Massimiliano Rosolino

 
 
Aleteia
 
 
 
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Para o nadador italiano Massimiliano Rosolino, que de 1995 a 2008 foi 14 vezes campeão europeu, além de ganhar outras 60 medalhas em diversas ocasiões, a piscina sempre foi seu habitat natural para estar em harmonia consigo mesmo. Mas o campeão sabe perfeitamente que sozinho o homem pode fazer pouco, quando não é acompanhado por uma força interior que o apoie em cada momento.
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“Sempre acreditei em algum ser superior que nos observa e nos guia em todas as nossas ações. Caso contrário, seria um vazio total”, contou Massimiliano em uma entrevista para A Sua Immagine (dia 13 de setembro). Pai de duas meninas e vencedor do reality da RaiDue “Pechino Express”, ele confessou que tem com o Senhor “um cordão umbilical desde sempre, seja nos momentos felizes ou naqueles mais difíceis. Quando me tornei pai olhei para o céu e agradeci intensamente a Deus”.

“Acredito que deveríamos ligar aa algo de positivo, não sempre a um pedido”, comenta o campeão dos 200 metros medley individual, ouro olímpico em Sydney 2000, e mundial em Fukuoka 2001. “Eu gosto de rezar muito mais pelos outros do que para mim mesmo. Em particular para amigos e parentes que estão mal e têm algum problema”.

Envolvido em vários projetos e atividades em relação aos jovens, como a associação sem fins lucrativos “Mille culture”, que busca aproximar os jovens em dificuldade do esporte, tirando-os das ruas. O atleta encoraja sempre os jovens a “se mexerem, a não esperarem que as coisas cheguem”, e sobretudo “a não se abaterem. Perder me fortaleceu muito. O amargo na boca faz crescer muito mais o doce”. 
sources: Aleteia

sábado, 8 de março de 2014

Os milionários da Fé

                                                                                                                                                                         in Além -Mar

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Por que a cristandade europeia foi tão importante para a fé

Por que a cristandade europeia foi tão importante para a fé
O florescimento de uma cultura autenticamente cristã não aconteceu por acidente
Thomas Storck
Andreas Akre Solberg
Hilaire Belloc é famoso (ou infame, para alguns) por uma afirmação de seu livro “A Europa e a Fé”: "A fé é a Europa e a Europa é a fé" [1].


É claro que Belloc, como qualquer homem inteligente, sabia muito bem que esta afirmação não era literalmente verdadeira, pelo menos não no sentido estatístico: havia milhões de católicos fora da Europa e milhões de não católicos na Europa. Este é o caso ainda hoje, inclusive mais do que quando Belloc escreveu. Mas existe um sentido em que essa afirmação é verdadeira:a Europa é o lugar em que, por providência de Deus, a fé teve tempo e espaço para se desenvolver intelectual e culturalmente até formar a cristandade, o sinal externo e visível do trabalho interno e invisível de Deus nas almas humanas.


Embora a órbita cultural da Igreja tenha incluído originalmente partes da África e da Ásia, e apesar de muitos dos primeiros e mais importantes Padres e teólogos da Igreja serem do norte da África ou do Oriente Médio, essas áreas foram até certo ponto cortadas do contato com o resto do mundo católico depois das invasões maometanas.No caso da África setentrional latina, a Igreja acabou por desaparecer de todo. A Europa se tornou, assim,o único lugar onde, mesmo em meio a muitas dificuldades, a vida católica pôde se desenvolver de forma mais ou menos natural e própria. É correto dizer, neste sentido, que “a fé é a Europa e a Europa é a fé”,porque foi somente no Velho Continente que a vida social e cultural católica teve a chance de amadurecer, dando ao continente uma unidade cultural que provavelmente não teria se constituído sem a cristandade.


Essa manifestação social e cultural exterior da fé católica sempre foi característica da Igreja. Salvo em casos de perseguição, o normal foi o estabelecimento de uma ordem social católica, a ponto de darmos por incontestável o número imenso de expressões intelectuais, literárias, artísticas, musicais, arquitetônicas e de outras manifestações da fé católica que nasceram dentro da cristandade. Mas há um elemento adicional e quase sempre necessário nesta expressão externa da fé: o aspecto político. Desde o reconhecimento inicial da Igreja pelo Imperador Constantino através do Edito de Milão, a Igreja católica desfrutou de uma relação complexa com os vários poderes políticos do mundo. Antes de Constantino, a Igreja era objeto de perseguição por parte do governo romano.


Com o Edito de Milão, porém, tudo mudou. O governo se tornou, em certo sentido, patrono e protetor da Igreja. Que esse vínculo teve um lado negativo, ninguém pode negar. Mas que foi o meio providencial para proteger a Igreja e permitir o desenvolvimento da civilização cristã é igualmente inegável. É desconcertante avaliar certas instâncias particulares dessa complexa relação com os poderes do mundo, relação muitas vezes positiva e negativa ao mesmo tempo.O necessário, considero eu, é evitar tanto a condenação integral dessa relação quanto o não reconhecimento ou a minimização dos seus aspectos negativos.


Ao avaliar os prós e contras da relação política que muitos governantes mantiveram com a Igreja ao longo dos séculos, devemos lembrar que, sem esse tipo de proteção,as culturas católicas dificilmente teriam conseguido se desenvolver. Deixo para abordar a situação contemporânea mais adiante; falando do passado, porém, até algumas centenas de anos atrás, os triunfos militares ou políticos de poderes anticatólicos acarretavam geralmente a perseguição contra a Igreja, a destruição das manifestações externas de vida católica e, muitas vezes, a morte lenta da fé na vida privada dos indivíduos.


A célebre afirmação de Tertuliano de que “o sangue dos mártires é semente da Igreja”se mostrou verdadeira em vários contextos, mas não pode ser considerada um axioma aplicável acriticamente a todos os tempos e lugares. Nas terras conquistadas pelos muçulmanos ou nas partes da Europa que abraçaram o protestantismo, a Igreja foi submetida a diferentes graus e tipos de perseguição e, em alguns casos, o organismo católico foi reduzido a nada. Isto salienta que, qualquer que seja o dano provocado pela proteção do Estado à Igreja, continua sendo verdade que ela também proporciona o espaço necessário para que a Igreja e a vida católica existam e se desenvolvam. A triste situação da Igreja na Europa católica é tomada muitas vezes como “prova” de que, em última análise, a proteção oficial faz mais mal do que bem, mas, comparando-se a Europa latina de hoje com terras outrora católicas como a Escandinávia e a Ásia Menor, podemos concluir que mais de uma opinião é possível.


Houve na Europa cristã uma sucessão de poderes políticos que ofereceram esse patrocínio até o século XIX, embora de modo cada vez menos consistente à medida que os séculos passavam: o Império Romano, tanto ocidental quanto oriental; o Império Franco de Carlos Magno; a maioria dos reinos europeus durante a Idade Média; a Espanha dos Habsburgo, juntamente com o Sacro Império Romano, e, por último, a França. Durante esse tempo, é claro, a Igreja perdeu grandes partes da Europa na revolta protestante, quase ao mesmo tempo em que começava a expansão católica para o Novo Mundo e para partes da Ásia e da África.

Necessariamente,a vida católica nessas regiões derivou da vida católica europeia. Em uma região, particularmente, houve tempo e recursos suficientes para a criação de uma verdadeira nova província da cristandade: a América Latina, onde surgiu uma cultura católica barroca, certamente transplantada da Europa em suas linhas principais, mas desenvolvida em um novo ambiente e entre novos povos.


Christopher Dawson escreveu:

 
"Nenhum lugar exibe a vitalidade e a fecundidade da cultura barroca melhor do que o México e a América do Sul, que experimentaram um rico florescimento de estilos regionais de arte e arquitetura, alguns com influência indígena considerável. Este poder da cultura barroca de assimilar influências exteriores é um dos seus traços característicos,que a distingue nitidamente da cultura e do estilo artístico do âmbito anglo-americano" [2].

Este poder assimilador do barroco espanhol foi tão grande que, no tocante à música,outro estudioso chegou a afirmar:

 
"É muito difícil, na Bolívia, no Peru e no Equador, separar os elementos musicais de origem indígena dos de tradição europeia... Os elementos das duas culturas se combinaram para formar unidades inseparáveis" [3].

A América Latina, por um lado,ofereceu espaço para o desenvolvimento cultural católico, mas, por outro, como todas as terras recém-descobertas ou colonizadas, continuou a depender política e intelectualmente da Europa.


Já na Europa, como observei antes, países importantes e cada vez mais poderosos tinham se desligado da unidade católica. A Inglaterra protestante, junto com a Holanda e,durante um tempo, com a Suécia, passou a ser a central europeia de destruição da civilização católica. Esses países se tornaram não só rivais políticos e militares das potências católicas, mas erigiram um modelo alternativo de vida cultural ocidental que tem exercido um poderoso apelo intelectual.


Os Estados Unidos se transformaram, posteriormente, na base mundial da cultura protestante. Belloc escreveu a respeito: "A força da cultura protestante encontra-se agora fora da Europa, nos Estados Unidos" [4]. Essas várias potências protestantes trabalharam para conquistar porções de territórios católicos no mundo todo, com o envio de missionários protestantes para a América Latina e outros países católicos.Eles têm contribuído para a destruição da fé e da cultura católica, mas, talvez mais significativo do que isso, têm oferecido um modelo alternativo de cultura ocidental que apela fortemente ao materialismo moderno. O crescente poderio e riqueza industrial deste modelo oferece argumentos espúrios a seu favor, resumidos por Belloc nas seguintes palavras:

 
"A Igreja Católica é falsa porque as nações de cultura católica têm decrescido de forma constante em riqueza material e em poder, contrastando com as nações de cultura anticatólica, ou, neste caso particular, de cultura protestante" [5].

Embora hoje em dia nem a Grã-Bretanha nem os Estados Unidos tenham qualquer interesse, como nações, na teologia protestante, ambos continuam se opondo reflexivamente aos interesses católicos ou a quaisquer remanescentes de cultura católica no mundo atual. Aliás, parte do sentimento anti-hispânico de tantos anglo-americanos, inclusive católicos, tem raiz no sentimento de superioridade cultural da civilização protestante.


Em termos gerais,a civilização protestante ainda existe hoje como força de apoio (não me refiro ao protestantismo como religião, mas à cultura protestante);já um poder católico, neste sentido, não existe. Com a exceção parcial e frágil de alguns países latino-americanos [6], a cultura da Igreja católica não têm verdadeiras propostas políticas hoje. No final do século XIX, o papa Leão XIII e outros pensadores católicos de vasta visão perceberam que a Igreja não poderia mais depender de príncipes católicos para garantir apoio externo. Tanto no campo cultural quanto no político, passaria a ser a massa do povo católico, residente cada vez mais em regimes democráticos e com voz em seus governos, quem constituiria o apoio externo da Igreja. E esse novo arranjo pareceu funcionar razoavelmente bem. O último terço do século XIX e a primeira metade do século XX foram um dos períodos mais brilhantes do pensamento e das letras católicas, da filosofia, dos esforços dos papas Pio X a Pio XII para concretizar o potencial da liturgia como escola de vida cristã. Apesar das interrupções causadas pelas duas guerras mundiais, o pensamento católico exerceu influência política em mais de um país;houve partidos políticos católicos, oficiais ou não; e alguns regimes se dedicaram, mais ou menos conscientemente, a realizar um programa católico de políticas públicas; mesmo nos países protestantes,a vida popular católica florescia em grande variedade de associações e instituições e os católicos chegaram a exercer considerável influência no processo político.

Infelizmente, na segunda metade do século XX, a Igreja infligiu a si mesma,de modo deliberado e incompreensível, um grave ferimento. Os documentos conciliares como tais, apesar de algumas ambiguidades, não são problemáticos;mas parece haver uma razoável percepção de que a condução do concílio Vaticano II e, mais ainda,a sua aplicação e o pós-concílio provocaram um desastre pastoral, intelectual e institucional para a Igreja. Como resultado desse desastre, a vida católica popular que já existia foi destruída em grande parte. A cultura católica é muito mais ampla do que simplesmente a recepção dos sacramentos e da catequese,mas depende de elementos formais de vida católica,sem os quais ela não pode durar.

É difícil, assim, imaginar qualquer saída desta nossa situação atual, já que tanto o lado formal quanto o popular da vida católica foram afetados. Como podemos responder a esta situação em que a Igreja não goza do apoio de nenhum governo poderoso nem exerce um entusiasmo vasto e leal no povo católico? Em circunstâncias assim, como manter, alimentar e estendera Igreja e a vida católica?


Infelizmente, as medidas que podem ser sugeridas para esse fim parecem muito inadequadas. Uma liturgia bela e historicamente enraizada; o cultivo deliberado de uma consciência da tradição intelectual católica, incluindo a ênfase na doutrina social da Igreja; escolas católicas novas ou restauradas em todos os níveis; educação popular constante através da mídia...Estes estão, para mim, entre os meios principais possíveis e com esperança de sucesso. Mas nenhum deles é fácil de desenvolver.Além disso, dos que já foram iniciados, muitos estão mais do que contaminados por influências externas:nos EUA, por exemplo, há contaminação vinda de compromissos fatais com a visão de mundo do liberalismo clássico por parte de católicos incapazes de distinguir entre a visão católica da ordem social e a visão do liberalismo clássico, simplesmente porque este último parece estar em desacordo com a trajetória de um liberalismo mais recente e, obviamente, prejudicial. Que ambas as formas de liberalismo estão enraizadas nos mesmos erros é coisa aparentemente impossível de entender para muitos.

Eu não tenho grandes esperanças para o futuro imediato. No longo prazo, não há dúvida nem deve haver medo, pois Jesus Cristo é a cabeça da Igreja e a Igreja é o seu Corpo Místico. Quanto tempo significa esse “longo prazo”?Seja pouco, seja muito, o fato é que não está em nossas mãos. Enquanto isso, o sucesso não deve ser a regra da nossa atividade, mas sim a fidelidade: fidelidade ao mandado que o Fundador deu à Igreja de sair para o mundo e pregar o Evangelho a toda criatura.



[1] Rockford: TAN, [1920] 1992, pág. 2.
[2]  The Dividing of Christendom; Garden City: Image, 1967, pág. 162.
[3]  Bruno Nettl, Folk and Traditional Music of the Western Continents; Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall, 2ª ed., 1973, pág. 191.
[4] The Two Cultures of the West, in Essays of a Catholic; Rockford: TAN [1931] 1992, pág. 244.
[5] Survivals and New Arrivals; Londres: Sheed & Ward, 1939, pág. 80.
[6] Quando a Argentina escolheu a data de 25 de março como Dia da Criança Ainda Não Nascida, para simbolizar a sua rejeição ao aborto, o presidente Carlos Menem escreveu aos chefes de Estado de todos os países latino-americanos,além de Espanha, Portugal e Filipinas, convidando-os a aderir. Ele observou que "as raízes históricas comuns dos nossos países nos unem não só em questões de linguagem, mas também na compreensão do homem e da sociedade baseada na dignidade fundamental da pessoa humana" (Catholic World News, 25/03/1999). É um eco do antigo status do mundo hispânico em seu papel de baluarte geopolítico do catolicismo.
 

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

A fé que remove montanhas *** Assim poderemos viver felizes nesta vida, e tranquilos, como aquele menino que seguia no trem cujo maquinista era seu pai


A fé que remove montanhas

Assim poderemos viver felizes nesta vida, e tranquilos, como aquele menino que seguia no trem cujo maquinista era seu pai

07.10.2013


Prof. Felipe Aquino

 

Um menino viajava sozinho em um trem de carga. Quando o trem chegou a uma estação, o chefe desta perguntou-lhe intrigado:

- Menino, o que você faz neste trem? Você sabe para onde este trem vai?

O garoto, muito tranqüilo, lhe respondeu:

- Não se preocupe, senhor, estou apenas andando de trem. Gosto muito de andar de trem.

O chefe da estação, mais intrigado ainda, ordenou-lhe que saísse do trem e disse que providenciaria para que ele voltasse para casa. Nisso o garoto lhe respondeu, sorrindo:

- Não se preocupe, senhor, meu pai é o maquinista deste trem… Para onde o trem for, ele vai junto comigo…

Essa história pode ser aplicada à nossa vida religiosa e à nossa fé em Deus. Vivemos dizendo ao Senhor, em nossas orações, que nós confiamos n’Ele, mas tantas vezes não agimos assim nas horas mais difíceis. Não aprendemos ainda a abandonar nossa vida nas mãos de Deus e a deixar que Ele a conduza conforme Sua vontade. Creio ser essa uma das mais profundas experiências religiosas que devemos viver. Como aquele garoto do trem precisamos viajar tranqüilos no trem desta vida, certos de que o “maquinista” dela é o nosso Pai. Ele nos criou por amor e nos guia no Seu amor. Precisamos confiar nisso para ver a mão de Deus na nossa vida e sentir que a Sua face nos acompanha.

Há três versículos na Bíblia que repetem a mesma palavra de Deus: “O justo viverá pela fé” (Hb 2,4; Gl 3,11; Hb 10,38). E há um outro onde São Paulo nos ensinou que “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11,6a). De fato, sem uma confiança profunda em Deus pela fé, é impossível fazermos a Sua vontade, pois essa se realiza em nossa vida na medida em que, pela fé, aceitamos os acontecimentos cotidianos.

Toda a Bíblia é um livro de fé que narra a aventura de muitos homens e mulheres que, agindo na fé, fizeram a vontade de Deus, vencendo obstáculos intransponíveis. Quando agimos na fé sentimos com clareza o que o anjo disse a Maria: “A Deus nenhuma coisa é impossível” (Lc 1,37).

Jesus repreendia severamente os Seus discípulos quando eles fraquejavam na , e chamava-os de “homens fracos na fé”. Depois da tempestade acalmada, disse-lhes: “Por que este medo gente de pouca fé?” (Mt 8,26a). A Pedro, que afundara nas águas do mar de Tiberíades, Ele disse “Homem de pouca fé, por que duvidaste?” (Mt 14,31b).

Deus não pode agir em nossa vida quando não demonstramos confiança Nele e no Seu amor. O poder de Deus é liberado quando nos lançamos em Seus braços com toda a fé. O livro dos Salmos está repleto dessa profunda manifestação de fé em Deus. O rei Davi, que vivia pela fé, cantava:

“O Senhor é meu pastor, nada me faltará

Ainda que eu atravesse o vale escuro,

Nada temerei, pois estais comigo” (Sl 22,1.4a).

“O Senhor é minha luz e minha salvação, a quem temerei?

O Senhor é o protetor de minha vida, de quem terei Medo?” (Sl 26,1)

Essa jubilosa esperança em Deus, que faz brotar dos lábios do homem de fé palavras de confiança no Criador, é a sua força e alegria, mesmo nos momentos mais difíceis da vida. Nós também precisamos fazer crescer nossa fé, repetindo e vivendo essa esperança em Deus todos os dias, até que nossa vida e nosso futuro estejam completamente em Suas mãos. Essa fé é o único remédio disponível para o homem cansado e estressado de nossos dias. Enquanto as âncoras não estiverem presas no absoluto de Deus, não estaremos firmes. Só Deus, no Seu poder, é capaz de nos dar a segurança que está além de tudo  e de todos. Então poderemos cantar como o salmista:

“Só em Deus repousa minha alma,

Só dele me vem a salvação.

Só ele é meu rochedo e minha salvação;

Minha fortaleza: jamais vacilarei.

Ó povo, confia nele uma vez por todas” (Sl 61,2-3.9).

Assim poderemos viver felizes nesta vida, e tranquilos, como aquele menino que seguia no trem cujo maquinista era seu pai.

Prof. Felipe Aquino

(Retirado do livro: “Em Busca da Perfeição”)


(Publicado em
Cléofas, no dia 4 de outubro de 2013)

 

Fé e amor matrimonial


REFLECTINDO.,._____________


Por: Pe. Rodrigo Lynce de Faria

O homem e a mulher, diz-nos o Catecismo no número 372, são feitos um para o outro. Não é que Deus os tenha feito “a meias" e “incompletos”. Criou-os para uma comunhão de pes­soas, em que cada um pode ser ajuda para o outro. São, ao mesmo tempo, iguais enquanto pessoas e complementares en­quanto masculino e feminino.

Por esse motivo, amar também é estimar as diferenças que existem entre o homem e a mulher. Diferenças queridas por Deus desde o principio da Criação.

A maior felicidade a que uma mulher pode aspirar no seu ca­samento é que o marido que está lá em casa seja verdadeira­mente um homem. No entanto, esse facto vai ter como con­seqüências inúmeras rudezas e indelicadezas que ela saberá aceitar e amar porque entende que ele é "diferente".

E aquilo que um marido mais deve pretender para a sua felici­dade matrimonial é que a sua esposa seja de verdade uma mu­lher, apesar de todos os aborrecimentos que lhe possa causar a sua misteriosa e delicada afectividade.

O homem precisa dessas qualidades femininas que lhe faltam e a mulher das qualidades masculinas. É um apoio específico que o homem não encontra nos outros homens, nem a mulher nas outras mulheres.

O problema é que, como diz R. Llano Cifuentes, a nossa épo­ca está cativada pelo mito narcisista do “amor sentimental". Mito que oscila entre o romantismo dourado da paixão que “tudo jus­tifica” e o cinismo duro como o diamante que dá um pontapé no traseiro do outro com estas palavras de “carinho”: “Sinto mui­to... acabou-se o amor”.

Um exemplo muito actual deste cinismo traduzido em palavras sentimentais e enganosas: “Quando o amor começa a murchar não há muito a fazer. O melhor mesmo é procurar que ele mor­ra sem muita dor”. Uma espécie de eutanásia aplicada “suave­mente" ao amor matrimonial.

E fundamental que os casais que se dizem cristãos vivam e saibam transmitir aos outros a alegria do amor gratuito. Um amor sem cálculo, amadurecido, abnegado, que encontra de forma paradoxal a sua maior gratificação sob a forma de felicidade. O amor, mesmo quando inclui o sacrifício - e, se for genuíno, sem­pre o incluirá - é a fonte secreta da felicidade matrimonial.

Porquê tantas crises conjugais nos nossos dias? Talvez por­que muitas pessoas perderam a noção de quem são, de onde vêm, para onde vão e o que fazem por aqui. Essas crises conju­gais procedem antes de mais nada de crises existenciais. A per­da da convicção de se estar a caminhar com passo firme para a felicidade eterna - a perda da fé - gera um processo de dolorosa crise existencial e, consequentemente, também matrimonial.

Pelo contrário, a fé profunda traz consigo uma enorme energia vital, uma força e uma paz da qual só podem falar aqueles que a experimentam. Essa força passa de um cônjuge para o outro, e destes para os filhos.

In D.M.

“Não sou uma máquina registadora de pecados”



Por: P.e João Seabra

“O segrede profissional dos padres ultrapassa o da confissão. As leis em vigor dizem que os sacerdotes não podem ser interrogados pelas autoridades acerca de factos que conheceram no exercido do seu mundus. As pessoas vêm falar connosco sobre a sua vida, pedir ajuda... Recebo 7, 8 pessoas por dia na minha paróquia, e a maioria não vem para ser ouvida em confissão. As pessoas contam-me coisas porque partem do princípio que vou guardar reserva sobre elas.

A lista dos valores pelos quais parece que vale a pena sacrificar o segredo de confissão é muito longa. Mas a igreja tem como valor maior que todo o pecador pode dirigir-se ao seu pároco e contar-lhe os seus pecados - e que isso está abrangido por um sigilo inviolável. Isto é um serviço à paz das consciências, à união das famílias. A inviolabilidade deste segredo é tão forte que a pena de violação do sigilo é a exco­munhão reservada ao Santo Padre. Na igreja Católica o segredo da confissão não cede perante nenhum outro valor. E não está prevista nenhuma exceção.

Nunca conheci um padre que tivesse violado o segredo da confissão. Perante casos mais graves, se alguém me confessasse, por hipótese, intenção de matar a mulher, o que faria seria não lhe dar e absolvição, ameaçá-lo com as penas do inferno - e calar-me muito bem calado. Graças a Deus nunca me aconteceu. Penso que se me acontecesse fi­caria muito perturbado com Isso e rezaria a Nosso Senhor para que re­solvesse a questão. Mas sei que há uma coisa que não poderia fazer: telefonar á mulher a dizer que o marido a ia tentar matar. O código diz claramente que não posso revelar o pecado. Em 32 anos de trabalho, nunca tive a tentação de violar o segredo da confissão.

Estou acautelado pela lei civil a não ter de prestar declarações, em tribunais ou inquéritos públicos. Dou-lhe um exemplo: na véspera da famosa fuga de Peniche, em 1960, em que fugiram dez reclusos pre­sos por oposição à ditadura, todos eles, à exceção de Álvaro Cunhai, pediram para falar com o capelão da cadeia, o padre monsenhor Bas­tos. Após a fuga, a monsenhor Bastos nunca ninguém perguntou rada. Mem os agentes investigadores, nem o diretor da PI DE, nem o ministro da Justiça, nem o dr. Salazar - ninguém.

Não sei como fazem os outros padres com os segredos que lhes confiam, mas eu esqueço-me. O que chega a ser até um pouco em­baraçoso. Não faço por esquecer, mas a verdade é que me esqueço da maioria. Por vezes, há coisas graves, terríveis, que não consigo esquecer facilmente. Nessas ocasiões, rezo, rezo, rezo. Peço a Deus que me faça humilde e não me permita arvorar-me em juiz dos meus irmãos, que não sou. Já houve confissões que me deixaram profunda­mente perturbado e aflito, consciente dos limites da humanidade, oran- te e ajoelhado diante de Deus. Não sou uma máquina registadora de pecados.

A confissão não faz de nós terapeutas da alma. É um momento sagra­do de encontro entre o pecador e Deus que perdoa, em que o sacerdo­te é instrumento da misericórdia de Deus. Não nos cria nenhum direito sobre a alma do penitente. A contrição verdadeira (arrependimento pe­los pecados) passa-se num santuário do coração onde eu não tenho direito de entrar. Só Deus consegue entrar aí. Não me permito recusar a absolvição a uma pessoa por não me parecer verdadeiramente ar­rependida. A definição de santo é essa mesma, a de um pecador que não desiste de se arrepender. Ser um repositório de segredos é difícil. Mas é mais belo que difícil. Porque a luz de alívio no rosto do pecador absolvido é mais bela do que tudo o mais”.

 

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Deus surdo para o Homem?


Deus surdo para o Homem?

Nunca como hoje se tornou necessário redescobrir as razões do crer. Aquele que acredita, se facilmente se confunde com o que não acredita, mesmo sem o querer, testemunha a inutilidade da fé. Quem não reconhece que este é o grande pecado de cada um? Ou mesmo o pecado que se atribui à Igreja? Não é verdade que o jogo fácil de acusar a Igreja, como se ela fosse apenas uma empresa humana, esconde a atitude covarde e ilusória de me colocar de fora a atirar pedras como se, pelo Bap­tismo, eu não fosse Igreja? A verdade é que a Igreja sou eu. E a partir daqui, tudo muda: o mal que eu vejo na Igreja é o mal que está em mim.

Vamos, então, cada um assumir a sua verdadeira identidade de cristão, de pessoa de fé, obrigando-se a agir de modo que a diferença entre o que é crente e o que não o é apareça como algo de natural. Trata-se de um elemen­to que identifica: sou/não sou crente.

O sofrimento abate-se sobre todos in­distintamente: o crente e o não crente ambos sofrem, ambos se situam diante de problemas insolúveis, de desgraças repentinas, de horizontes bem escuros: que diferença há entre as posturas do crente e as do não crente?

Diante da violência, do mal e da injus­tiça no mundo, que faz Deus? O crente bate-lhe à porta e reprova-Lhe o silên­cio. O não crente interpreta o silêncio como sinal da sua não-existência. O profeta Habacuc, diante de um povo queixoso do silêncio de Deus, lembra a fidelidade de Deus, manifestada num passado de proximidade permanente, algo que o povo esquecera quando deportado devido à sua própria infi­delidade. Ou seja, responde o profeta: Deus não abandonou o povo, foi o povo que abandonou Deus e se encontra agora em desgraça, pagando pelo seu erro. Mas há-de ser de Deus que virá a força de recuperação do que se perdera. Só que... que direito têm aqueles (nós...) insolentes que se atrevem a pedir contas a Deus, querendo impor-lhe a hora e o modo de Ele intervir? O verdadeiro crente põe a sua confiança no Senhor.

Diante do incompreensível agir misterioso de Deus, Jesus convida os Apóstolos a suplicarem a Deus que aumente a sua pouca fé. Suplicar é aceitar-se necessitado. Logo, aberto à intervenção de Deus. Ao contrário daquele que não pede porque se julga capaz, por si só, de transformar o mundo que o rodeia.

A Igreja vive, ao longo da sua história, esta experiência difícil de se pôr humilde­mente aos pés do seu Senhor, pedindo-lhe que aumente a sua fé. Diante de um mundo quase hermeticamente fechado à acção de Deus, homens e mulheres da Igreja aprendem a confiar em Deus mais que nas suas próprias estratégias. Faze­mos nós parte desse grupo? Senhor, aumenta a nossa fé!
O Prior - P. Abílio Cardoso

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013