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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Desadaptar a Igreja


Desadaptar a igreja


Frei Bento Domingues O. P.

1. Este Papa anda a desadaptar a Igreja. Pode parecer estranho, mas já deu muitos sinais de que é isso mesmo que pretende. Importa saber em que sentido. Parece-me algo diferente da “revolução” temida pelos conservadores e desejada pelos progressistas. É algo de mais radical.
Quando se falava de adaptação da Igreja ao mundo moderno pensava-se sobretudo na sua descolagem do “antigo regime”, do seu imaginário e privilégios. Daí o repetido toque a finados do chamado “constantinismo” e da cristandade medieval, às vezes, de forma anacrónica. Saber adaptar-se aos novos regimes políticos era uma questão de sobrevivência, procurando salvar o que era possível proteger, em contextos turbulentos. Mas o mundo moderno da criatividade cultural, do pensamento crítico, das descobertas científicas, dos novos movimentos sociais e políticos era coisa bem diferente e implicava discernimentos mais subtis.

Importa salientar que, mesmo no interior do mundo católico, nunca faltaram pessoas, movimentos e grupos que, no meio de grandes obstáculos e condenações vergonhosas, prepararam a grande viragem do Vaticano II. Sem ele e o reconhecimento oficial da liberdade religiosa, os católicos estariam hoje sem espaço para viver, de forma responsável, a crescente complexidade cultural.

A “desorientação” atribuída ao Concílio (1962-65) revelou apenas a falta de liberdade com que se tinha vivido, em diversas épocas e âmbitos, no interior da Igreja Católica. Para “sentir com a Igreja” era recomendada uma estranha e irracional atitude: se vires que uma coisa é preta, mas a hierarquia disser que é branca, conforma-te com a voz da hierarquia!

Lembro esse universo apenas para avivar a memória, mas sem insistir. Quem desejar conhecer o que foram as relações da hierarquia da Igreja com o mundo moderno dispõe hoje de testemunhos e investigações históricas alérgicas às habituais e cómodas explicações piedosas.

2. Por outro lado, em nome do combate à “teologia da libertação” e com o enfraquecimento dos movimentos operários católicos desenvolveu-se um catolicismo ora aburguesado, ora mistificador, servido por movimentos bem adaptados a essa mentalidade, sem qualquer estratégia operativa de combate à pobreza degradada em miséria, esquecendo que “não é de esmola que as pessoas precisam, mas de dignidade” como agora repete M. Bergoglio.

Com o aumento dos chamados católicos não praticantes, a sedução exercida, em vários países, sobre as camadas populares pelas igrejas e seitas pentecostais e uma moral familiar sufocada pelo irrealismo, com os meios de comunicação social cheios de narrativas de eclesiásticos pedófilos e de escândalos financeiros do Banco do Vaticano, tornara-se evidente que as lideranças de João Paulo II e de Bento XVI, por acção e omissão, desbarataram o crédito do Vaticano II, mesmo quando o invocavam. O papa Ratzinger teve o bom senso eclesial de se demitir.

3. Surge M. Bergoglio, com nítida vontade de não se adaptar ao império idolátrico do dinheiro, aos seus interesses e ambientes – dentro e fora da Igreja –, nem às seduções do fausto e do carreirismo eclesiásticos, dentro e fora do Vaticano. Escolhe, por isso, o nome e o paradigma de um clássico desadaptado ao mundo dos negócios, preocupado apenas em seguir Cristo pobre no meio dos pobres, sem ressentimento, respirando uma incansável poética da realidade de Deus e da natureza. Chama-se Francisco de Assis.

Os gestos, as atitudes e o programa deste Papa (Alegria do Evangelho) revelaram-se completamente dissonantes com os costumes inveterados da Cúria vaticana, das cúrias diocesanas, das burocracias paroquiais e com os tiques do catolicismo convencional. Esse não era o mundo de Cristo, manso e humilde de coração para com todos os aflitos e oprimidos, mas implacável perante os responsáveis pelas periferias sociais, culturais e religiosas do seu tempo. Bergoglio vê o mundo económico, social, político e religioso com o olhar do Evangelho e quer que a Igreja não se adapte a uma religião e a uma economia que matam.

Entretanto, as várias tentativas para desacreditar a denúncia da idolatria imperial do Dinheiro, invocando a sua incompetência na matéria, têm agora de engolir obras como as de Thomas Piketty(1) e de Chrystia Freeland(2), que põem a nu os mecanismos que produzem o fosso crescente entre ricos, super-ricos e o imenso mundo dos pobres, cujas consequências serão cada vez mais dramáticas, caso não se mude de rumo.

A concluir a sua investigação, T. Piketty, recorda que todos os cidadãos se deviam interessar pelo destino do dinheiro. Aqueles que o detêm em grande quantidade nunca se esquecem de defender os seus próprios interesses. C. Freeland observa que os super-ricos globais não vão sabotar, de propósito, “o sistema económico que os criou”.

Uma Igreja que consentisse em se adaptar a esse mundo só poderia merecer o desprezo das suas vítimas e de Cristo. O Papa Francisco apostou em contrariar esse destino, votando duas vezes no número 15: nas 15 doenças da Cúria e nos 15 cardeais de comunidades católicas sem poder na Igreja e no mundo.

Público, 11.01.2015

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(1) Thomas Piketty, O Capital no séc. XXI, Temas e Debates, 2014
(2) Chrystia Freeland, Plutocratas, Temas e Debates, 2014

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

HAWKING E FRANCISCO



De: Nós Somos Igreja Portugal <nossomosigrejaportugal@gmail.com>
Data: 20 de Novembro de 2014 às 17:54
Assunto: [NSI-PT 1211] HAWKING E FRANCISCO, por Anselmo Borges, DN 08/11/2014
Para:


HAWKING E FRANCISCO


Por Anselmo Borges

in Diário de Notícias 8NOV2014

 

1 Que disse o cientista inglês Stephen Hawking? "Antes de termos entendido a ciência, o lógico era crer que Deus criou o universo, mas agora a ciência oferece uma explicação mais convincente. Não há Deus. Sou ateu. A religião crê nos milagres, mas estes não são compatíveis com a ciência."

Pensa que o homem acabará por entender a origem e a estrutura do universo. "De facto, já estamos perto de conseguir este objectivo. Na minha opinião, não há nenhum aspecto da realidade fora do alcance da mente humana." Por isso, julga que a exploração espacial deve continuar e os grandes avanços científicos e tecnológicos neste domínio poderão "evitar o desaparecimento da Humanidade, graças à colonização de outros planetas".

2 O Papa Francisco veio afirmar que o Big Bang "não contradiz a intervenção criadora divina; pelo contrário, exige-a", desacreditando assim completamente os "criacionistas" e a sua leitura literal da Bíblia.

Duas declarações fundamentais. Por um lado, não há incompatibilidade entre o Big Bang e a fé no Deus criador, a evolução da natureza não contradiz a ideia de criação. Por outro lado, Francisco desfez a ideia infantil de um Deus mágico ou feiticeiro. Deus, que dá o ser a todos os seres, respeita a autonomia das criaturas, nomeadamente a autonomia do ser humano.

Textualmente: "Quando lemos no livro do Génesis o relato da criação, julgamos imaginar que Deus é um mago que com uma varinha mágica fez todas as coisas. Mas não é assim. Ele criou os seres e deixou-os desenvolver-se segundo as leis internas que deu a cada um, para que alcançassem o seu próprio desenvolvimento. Deu a autonomia aos seres do universo ao mesmo tempo que lhes assegurava a sua presença contínua, dando o ser a toda a realidade. E assim a criação prosseguiu a sua marcha por séculos e séculos, milénios e milénios, até transformar-se no que hoje conhecemos; precisamente porque Deus não é um mago mas o Criador que dá o ser a todas as coisas. O início do mundo não é obra do caos que deve a outro a sua origem, mas deriva directamente de um Princípio supremo que cria por amor. O Big Bang, que hoje se situa na origem do mundo, não contradiz a intervenção de um Criador divino; pelo contrário, exige-a. A evolução da natureza não se opõe à noção de criação, porque a evolução pressupõe a criação dos seres que evoluem".

O ser humano, que constitui na história da evolução "uma mudança e uma novidade", tem "uma autonomia diferente da da natureza": chama-se liberdade. Participando do poder de Deus, é sua missão investigar a natureza e as suas potencialidades, co

locá-las com responsabilidade ao serviço da humanidade, salvaguardar a criação e "construir um mundo humano para todos os seres humanos e não para um grupo ou classe de pessoas privilegiadas".

3 Aí estão duas tomadas de posição frente ao enigma do universo, mais concretamente, do enigma da existência humana. Elas contrapõem-se, mas nem uma nem outra assenta na ciência. De facto, com argumentos científicos, não se chega a Deus, mas também não se demonstra o ateísmo. Deus não é objecto de saber científico. A ciência não sabe se Deus existe ou não existe. Quem afirma que Deus existe fá-lo baseado na fé, com razões. Quem afirma que Deus não existe fá- -lo também num acto de crença, com razões. Há razões para acreditar em Deus e razões para não acreditar.

Segundo as exigências do seu próprio método, a ciência não pode pronunciar-se sobre as grandes questões metafísicas. Mas, na presente situação do conhecimento científico, são os próprios resultados da ciência que desembocam num universo enigmático, aberto a um fundo último, misterioso, deixando o ser humano numa profunda incerteza metafísica, como escreve o neuró- logo e filósofo Javier Monserrat. Quando se pergunta pelo fundamento último, o homem fica aberto a duas hipóteses metafísicas, não sabendo com certeza se se trata de um puro mundo sem Deus ou se o universo se fundamenta em Deus.

A imagem que a ciência segundo o modelo-padrão nos dá é a de um universo que se produz a partir do Big Bang e terminará numa morte energética, portanto, um universo finito e, assim, "um universo que nasce a partir de um 'fundo' desconhecido no qual ficará reabsorvido". A pergunta que então se coloca é como entender esse fundo ou "mar de energia", essa espécie de meta-realidade a que o universo está referido. O ateísmo poderia ser uma conjectura metafísica filosoficamente possível: "O metafísico seria uma realidade impessoal na qual se produziria de modo cego o nosso universo." Mas o teísmo é uma conjectura metafísica igualmente possível: "O metafísico poderia ser uma Inteligência Pessoal capaz de criar o universo."

 



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sábado, 11 de outubro de 2014

Melhor do que dizer o que é a Igreja para nós será perguntar à Igreja sobre o que ela? diz de si mesma.


1. Quando a palavra Igreja chega aos nossos lábios, é provável que três coisas lhe estejam associadas na nossa mente: lu­gares, figuras e estruturas.

São referências que povoam o imaginário e se entranham no discurso.

2.    Para muitos, a Igreja é, antes de mais, o local de culto.

Neste sentido, Igreja serão sobretudo as igrejas.

3.    A Igreja é igualmente compreendida como os seus membros.

Mas quem são os membros da Igreja? O conjunto dos fiéis ou algu­mas das suas figuras?

4.    Ainda há quem pense que dizer Igreja é dizer hierarquia. Ainda há quem julgue que a Igreja são os padres e os bispos.

Afinal, ainda não se percebeu que na Igreja não se entra pelo sacra­mento da Ordem, mas pelo sacramento do Baptismo.

5.    Não espanta, pois, que a Igreja tenda a ser vista não como ela é, mas como nós a vemos.

Assim, quando se diz Igreja, pensa-se especialmente no sistema ecle­siástico. O qual, com frequência, surge mais como embaraço do que como apoio. Mais como sombra do que como facho de luz.

6.    A estrutura tem importância na Igreja, mas não constitui o mais importante da Igreja.

Por conseguinte, melhor do que dizer o que é a Igreja para nós será perguntar à Igreja sobre o que ela diz de si mesma.

7.    Foi o que fizeram os cardeais Montini e Suennens no Concilio Va­ticano II: «Igreja, que dizes de ti mesma?»

Na sua gênese, a Igreja não está polarizada no sistema eclesiástico, mas em Deus e no Povo: no Deus do Povo e no Povo de Deus.

8.    Acontece que quando se fala de Igreja, muitos não pensam no Povo nem em Deus.

Não falta até quem alegue que a Igreja está distante do Povo e nem sequer está próxima de Deus.

9.    Só que isso não é aquilo que a Igreja é. Quando muito, será aqui­lo em que a Igreja se pode tornar.

A Igreja é muito mais que o sistema eclesiástico. A Igreja é a propos­ta de Deus ao Povo. E há-de ser a resposta do Povo a Deus.

10.    Não encolhamos a Igreja. Não nos encolhamos em Igreja. Abra- mo-nos em Igreja a Deus. E abramos a Igreja ao Povo.

Mais oração e mais missão, eis do que precisamos. Enfim, deixemos que a Igreja seja Igreja!

P. Melhor do que dizer o que é a Igreja para nós será perguntar à Igreja sobre o que ela diz de si mesma.
in DM de um teólogo

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A Igreja segundo o Papa Francisco


A Igreja segundo o Papa Francisco

 

Nota prévia

O Papa Francisco é o primeiro dos Sumos Pontífices pós-conciliares que não teve participação nos trabalhos conciliares e a sua formação teológica inicial, passe a expressão, decorreu no momento de viragem dos estudos teológicos. É óbvio que a sua atividade apostólica e pastoral, tão intensa e diversificada, não se entende sem um contacto contínuo com o avanço teológico, que não de mera abordagem superficial. Tanto assim parece ser que o modo flexível como aflora as questões doutrinais, até no discurso menos formal, revela uma segurança plástica aliada a uma singular profundeza, impercetível aos espíritos menos atentos. Tratar por tu as questões consideradas fundamentais não significa falta de estudo e de conhecimento; pelo contrário, pode significar – e significa muitas vezes – domínio, segurança, à vontade.

 

Percurso homilético de Francisco

Ora, neste contexto, será interessante verificar algumas das noções de Igreja que o atual sucessor de São Pedro veicula para os seus destinatários de discurso homilético e testemunho.

E a ideia de Igreja, explicitada na sua primeira aparição como Sumo Pontífice (13-03-2013), é a de uma coletividade – “bispo e povo” – que vai a caminho. E este caminho será “de fraternidade, de amor, de confiança entre nós e promotor de “uma grande fraternidade” em “todo o mundo”. A dinâmica do caminho (de partilha-solidariedade) é retomada na celebração do Corpus Christi (30-05-2013), à luz da Eucaristia:

Isto diz-nos que na Igreja, mas também na sociedade, uma palavra-chave de que não devemos ter receio é “solidariedade”, ou seja, saber pôr à disposição de Deus aquilo que temos, as nossas capacidades humildes, porque só na partilha e no dom a nossa vida será fecunda e dará fruto. [...]. Na Eucaristia, o Senhor faz-nos percorrer o seu caminho, que é de serviço, de partilha e de dom, e o pouco que temos, o pouco que somos, se for compartilhado, torna-se riqueza porque o poder de Deus, que é de amor, desce até à nossa pobreza para a transformar.

Na homilia da primeira celebração eucarística com os cardeais, a Igreja aparece como um “edifício” em permanente construção, feito de pedras vivas sobre a pedra angular que é Jesus Cristo e como esposa de Cristo, cujo guardião é são José, tal como o foi de Maria, figura e modelo da mesma Igreja, corpo místico de Jesus Cristo (vd tb homilia da inauguração do seu exercício do ministério petrino).

E na missa crismal de Quinta-feira Santa (2013), vislumbra-se a Igreja na sua dimensão de “povo” que beneficia da unção de seus sacerdotes, mas à maneira de “rebanho” em cujas periferias há dor, sofrimento e pobreza, devendo os pastores acorrer a essas periferias e viver com o odor das ovelhas e não no conforto do centro. Esta imagem do rebanho, que postula, acima de tudo, a solicitude dos pastores, como seus modelos, aflora na profissão de fé com a CEP italiana, a 23 de maio do mesmo ano:

Não somos expressão de uma estrutura, nem de uma necessidade organizativa: também com o serviço da nossa autoridade somos chamados a ser sinal da presença e da ação do Senhor ressuscitado, portanto a edificar a comunidade na caridade fraterna. Não é uma certeza: com efeito, até o maior amor, quando não é alimentado continuamente, debilita-se e apaga-se. Não é sem motivo que o apóstolo Paulo admoesta: “Cuidai de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentar a Igreja de Deus, que Ele adquiriu com o próprio sangue” (At 20,28). [...]. “Tende cuidado dele (do rebanho), não constrangidos, mas espontaneamente, não por amor a interesses vergonhosos, mas com dedicação, não como dominadores absolutos sobre as comunidades que vos são confiadas, mas como modelos do vosso rebanho” (1Pd 5, 2-3).

Uma síntese das noções de Igreja se pode ler no texto da homilia da ordenação de presbíteros em 21-04-2013: “Corpo de Cristo (…), Povo de Deus e Templo sagrado do Espírito Santo” é a Igreja, “a guardiã da palavra de Deus”, chamada a constituir uma só família, a da fraternidade universal. É o corpo cuja cabeça é Cristo ressuscitado de que todos, fiéis e pastores, têm de dar testemunho, é o edifício em cuja edificação todos têm de cooperar em união com o mesmo Cristo.

Mas Francisco, no seu percurso de mediador (e não de intermediário), para seus irmãos na fé, do ser e missão da Igreja no mundo, descobre-nos três dimensões basilares da Igreja, em 23 de abril do seu primeiro ano de pontificado: a missionariedade, a maternidade e a alegria.

A missionariedade descobriu-a a Igreja, pelo impulso do Espírito Santo, aquando das primeiras perseguições: “Algumas pessoas de Chipre e de Cirene, que se tinham tornado cristãs, chegadas a Antioquia, começaram a falar também aos gregos (cf. At 11,20). Trata-se de mais um passo; e assim avança a Igreja”. 

Quanto à maternidade da Igreja, diz o Papa, fixando-se nos primórdios:

Ele (Barnabé) observou, e viu que tudo caminhava bem (cf. At 11,23). E a Igreja assim vê crescer a sua maternidade: é Mãe de mais filhos, de muitos filhos; torna-se Mãe, sempre mais Mãe. E Mãe que nos dá a fé, Mãe que nos dá a identidade. A identidade cristã não é dada por um bilhete de identidade; a identidade cristã é pertença à Igreja: todos estes pertenciam à Igreja, à Igreja Mãe, porque não é possível encontrar Jesus fora da Igreja.

No atinente à alegria, Francisco cita o livro dos Atos, a Patrística e o seu predecessor Paulo VI:

“Quando Barnabé chegou e viu a graça que Deus havia concedido, ficou muito contente” (At 11,23). É a alegria própria do evangelizador; é, como dizia Paulo VI, “a doce e consoladora alegria de evangelizar” (cf. Evangelii nuntiandi, 80). E esta alegria aparece na sequência de uma perseguição, de uma grande tristeza, e termina com a alegria. E assim a Igreja avança, como diz um Santo, entre as perseguições do mundo e as consolações do Senhor (cf. S. Agostinho, De Civitate Dei, 18, 51, 2: PL41, 614).

E assegura que “a Igreja caminha sempre entre a Cruz e a Ressurreição, entre as perseguições e as consolações do Senhor” e que “este é o caminho: quem vai por esta estrada não se engana”.

No Pentecostes do mesmo ano de 2013, o Papa apresenta-nos a Igreja como portadora de Cristo ao homem e do homem a Cristo, mas numa caminhada conjunta e una na diversidade das pessoas e suas manifestações. E esta unidade anímica é obra do Espírito Santo que impele o avanço na caminhada, tal como o vento faz à vela da respetiva barca:

O Espírito Santo faz-nos entrar no mistério do Deus vivo e salva-nos do perigo de uma Igreja gnóstica e de uma Igreja narcisista, fechada no seu recinto; impele-nos a abrir as portas e sair para anunciar e testemunhar a vida boa do Evangelho, para comunicar a alegria da fé, do encontro com Cristo. O Espírito Santo é a alma da missão. […]. É o Espírito Paráclito, o «Consolador», que dá a coragem de levar o Evangelho pelas estradas do mundo! O Espírito Santo ergue o nosso olhar para o horizonte e impele-nos para as periferias da existência a fim de anunciar a vida de Jesus Cristo. 

Bergoglio apresenta também como imagem da Igreja o mosaico, que faz unidade na variedade:

Um grande mosaico onde todos os ladrilhos concorrem para formar o único grande desígnio de Deus. E isto deve impelir a superar sempre todo o conflito que possa ferir o corpo da Igreja. Unidos nas diferenças: não há outra estrada para nos unirmos (29-06-2013). 

A 7 de julho, contemplamos pela mão de Francisco a Igreja como a cidade santa sobre a qual o Senhor derrama “uma cascata de consolação – ficando assim repletos de consolação –, uma cascata de ternura materna”. E, considerando que “a Igreja – repetia Bento XVI – não é nossa, mas de Deus”, ela há de encontrar a sua força na oração, pois é uma comunidade orante, atenta ao Espírito de Deus. E tem como ação essencial a evangelização. Mas como evangelizar?

A evangelização faz-se de joelhos. Ouvi bem: “A evangelização faz-se de joelhos”. Sede sempre homens e mulheres de oração! Sem o relacionamento constante com Deus a missão torna-se um ofício. 

E para evangelizar bate à porta de Maria, rogando: “mostra-nos Jesus”. Assim, “a Igreja sai em missão sempre na esteira de Maria” (cf homilia em Aparecida, 24-07-2013), não como quem impõe, mas na dinâmica da promoção da cultura do encontro (cf homilia em São Sebastião, Rio de Janeiro, a 27-07-2013). No entanto, ela congrega todos aqueles que são enviados a toda parte sem medo e para servir: “Partilhar a experiência da fé, testemunhar a fé, anunciar o Evangelho é o mandato que o Senhor confia a toda a Igreja”. (cf homilia à JMJ no rio de janeiro).

Todavia, o Papa não olvida a feição hierárquica da Igreja, já que se trata de um corpo orgânico, quando, na memória de Santo Inácio de Loyola (31-07-2013), afirma a centralidade da Igreja associada umbilicalmente à centralidade de Cristo:

Cristo é a nossa vida! À centralidade de Cristo corresponde também a centralidade da Igreja: são dois focos que não se podem separar: não posso seguir Cristo, a não ser na Igreja e com a Igreja. E também neste caso nós, jesuítas, e toda a Companhia não estamos no centro, estamos por assim dizer “deslocados”, estamos ao serviço de Cristo e da Igreja, Esposa de Cristo nosso Senhor, que é a nossa Santa Mãe Igreja Hierárquica.

E, na solenidade da Assunção (15-08-2013), assoma a dialética do e do ainda não da Igreja, a partir da mulher do Apocalipse, que se aplica à Igreja e a Maria, seu início e modelo. A figura da mulher é, simultaneamente, gloriosa, triunfante e, ainda, se encontra em dificuldade. Assim é a Igreja – Povo de Deus ainda peregrinante, até que chegue o dia do Senhor: se no Céu já está associada à glória de seu Senhor, na história enfrenta constantemente as provações e desafios que supõe o conflito entre Deus e o maligno. E, nesta luta que os discípulos de Jesus devem enfrentar, Maria não os deixa sozinhos; a Mãe de Cristo e da Igreja, seu sinal de esperança, está sempre connosco e sempre caminha connosco.

Mas, em ambiente de celebração de ordenação episcopal (24-10-2013), brotam as ideias de Corpo de Cristo e família do Pai.

Na festa da Apresentação do Senhor (02-02-2014), dia mundial da vida consagrada, ressoa a imagem da Igreja como espaço de carismas dos fundadores dos institutos de vida consagrada e como o Templo em cujo centro encontramos Cristo, trazido por dois jovens, Maria e José, em diálogo com dois anciãos proféticos (Simeão e Ana); espaço de encontro intergeracional, espaço “onde podemos encontrá-lo (a Jesus), reconhecê-lo, recebê-lo e também abraçá-lo”.

Se o horizonte da Igreja é o Ressuscitado (19-04-2014), a missa de ação de graças pela canonização de José de Anchieta (24-04-2014) fá-la viver e crescer com a alegria contagiante:

A alegria do encontro com Jesus Cristo, aquela que temos tanto medo de aceitar, é contagiosa e clama o anúncio: é ali que a Igreja cresce! O paralítico acredita, porque a Igreja não se desenvolve por proselitismo, mas por atração; a atração do testemunho da alegria que anuncia Jesus Cristo. Este testemunho que nasce da alegria acolhida e transformada em anúncio. Trata-se da alegria fundante! Sem esta alegria, sem este júbilo não se pode fundar uma Igreja! Não se consegue instituir uma comunidade cristã! É alegria apostólica, que irradia, que se propaga.

Porém, é na celebração da canonização de João XXIII e João Paulo II que Francisco, por via homilética, é mais explícito na apresentação da visão originária de Igreja: “É uma comunidade onde se vive o essencial do Evangelho, isto é, o amor, a misericórdia, com simplicidade e fraternidade”. E apresenta o segredo do seu avanço na História – a força dos santos:

João XXIII e João Paulo II colaboraram com o Espírito Santo para restabelecer e atualizar a Igreja segundo a sua fisionomia originária, a fisionomia que lhe deram os santos ao longo dos séculos. Não esqueçamos que são precisamente os santos que levam avante e fazem crescer a Igreja.

 

Concluindo

Percorrido singelamente este percurso homilético franciscano ainda breve no tempo, não admira que o Papa insista na ideia e exigência de uma Igreja em saída do centro para as periferias do sofrimento e da miséria, no combate à opressão e repressão, à injustiça e às desigualdades (que recuse o conforto do centro, mas a ele volte para se purificar e tonificar com a força do Alto); numa Igreja missionária que anuncie o essencial – Cristo Ressuscitado – com a alegria do Evangelho; numa Igreja que ande como povo peregrino, mas não vagabundo, que cresça e faça crescer mercê da sua maternidade, que ame e se faça amar como esposa de Cristo que é, que se cuide e cuide como corpo orgânico que é e que gera nova vida em seres verdadeiramente humanos que aspiram à concretização da dignidade de pessoas; enfim, numa Igreja orgânica, acolhedora, abraçante, transparente – que tem consciência de si, se renova e tem algo a comunicar ao mundo, em que lê os sinais que forem de Deus.

É justo que Francisco recuse o empresarialismo de uma Igreja carreirista e aconselhe o alpinismo a quem pretenda subir, já que nesta comunidade de amor e perdão, serve-se e não se é servido; é justo que não aceite a ideia de uma ONG, porque a Igreja está ao serviço da vida e vida em abundância e não é uma simples repartidora burocrática de bens e serviços – ela é mesmo um hospital de campanha ao serviço de uma humanidade ferida, acidentada, doente.

É pertinente que o Papa recuse uma Igreja gnóstica e narcisista (cheia só de conhecimento, ciência e cultura; e a olhar só para o umbigo) ou a Igreja como mera “universidade de religiões”, mas um povo, comunidade, família referenciada permanentemente a Cristo Mestre, Sacerdote, Pastor – o guia das nossas almas.

Finalmente, o Santo Padre, a 9 de maio pp, ao receber os participantes do encontro das Pontifícias Obras Missionárias, declarou que, na exortação apostólica “Evangelii gaudium”, convidou todos os fiéis a uma nova estação evangelizadora: “Evangelizar, neste momento de grande mudança social, requer uma Igreja missionária, toda em atitude de saída, capaz de discernir e enfrentar as diferentes culturas e visões de homem”, no contexto de “uma Igreja renovada e transformada pela contemplação e contacto pessoal com Cristo pelo poder do Espírito Santo”, bem necessária “num mundo em mudança”. É o Espírito Santo que – diz o Papa – “nos dá força para empreender o caminho missionário e a alegria do anúncio para que a luz de Cristo ilumine todos aqueles que ainda não o conhecem ou o rejeitaram”. E acrescenta que “não nos podem parar nem as nossas debilidades, nem os nossos pecados, nem tantos obstáculos colocados ao testemunho e anúncio do Evangelho”, quando urge ganhar e manter a coragem de “chegar em todas as periferias que precisem da luz do Evangelho”.

Bastava este discurso papal, no dia da Europa envelhecida e cansada de egoísmos e narcisismos, para que ressoasse em todo o orbe uma nova e sempre verdadeira noção de Igreja:

A Igreja é “o povo das bem-aventuranças e a casa dos pobres, dos aflitos, dos excluídos e perseguidos, daqueles que têm fome e sede de justiça”. E, como é “missionária por natureza, tem como prerrogativa fundamental o serviço de caridade a todos” – a começar “dos últimos, dos pobres, dos  que têm as costas dobradas pelo peso do cansaço e da vida” – e são inerentes à sua vida e missão no mundo e para o mundo “a fraternidade e a solidariedade universal”.

2014.05.11

Louro de Carvalho

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Servir a Igreja com sentido de comunhão


Servir a Igreja com sentido de comunhão

Conselhos Económicos e Comissões de Festas instados a “purificarem” religiosidade popular

«Servir a Igreja com sentido de comunhão, procurando revelar a verdadeira beleza de Deus» e «purificar e evangelizar a religiosidade popular», foram dois dos pontos que se destacaram na ação de formação para os elementos dos Conselhos Econômicos e Comissões de Festas das diferentes paróquias do arciprestado de Vila Nova de Famalicão, refere o Departamento Arciprestal da Comunicação Social em nota ao Diário do Minho.

O encontro de formação foi promovido, no sábado, pelo arciprestado em colaboração com a Arquidiocese de Braga e teve lugar no salão paroquial de Calendário.

Depois da oração inicial e das palavras de acolhimento feitas pelo padre Daniel Neves, secretário do Conselho Arciprestal, os presentes puderam assistir a um vídeo preparado propositadamente pela arquidiocese para a formação de Conselhos Econômicos e Comissões de Festas de todos os arcipres- tados, a realizar ao longo deste mês de janeiro. Para além da formação propriamente dita, a ação aspira ser sinal da comunhão que os responsáveis da pastoral pretendem ver incrementada entre as comu-nidades da diocese.

O referido vídeo é essencialmente composto por intervenções protagonizadas por D. Jorge Or- tiga, Arcebispo Primaz; D. Antônio Moiteiro, bispo auxiliar; cônego José Paulo Abreu, Vigário Geral; e cônego Manuel Joaquim, presidente da Comissão Arquidiocesana para a Pastoral Litúrgica e Sacramentos. Toda a projeção foca-se no papel e missão dos Conselhos Econômicos, nas respe- tivas paróquias, à luz da temáti-ca de fundo do ano pastoral - Fé Celebrada - e inspirada também pela recente exortação apostólica do Papa Francisco “A Alegria do Evangelho”.

Assim, porque a celebração da Fé «faz-se com alegria e com outros, isto é, com pessoas, mas reve- ladora da alegria da pessoa de Jesus Cristo», en- fatizou-se que os Conselhos Econômicos «podem ser agentes de uma co-res- ponsabilidade muito feliz nas celebrações», refere a nota do arciprestado.

Por outro lado, acrescenta a mesma fonte, os Conselhos Econômicos e Comissões de Festas devem «zelar

 pelos espaços cele- brativos da paróquia, pelas alfaias litúrgicas, pelo canto, vestes, livros, pelo sistema de som», entre muitos outras necessidades, «intervindo sempre que necessário para os melhorar e requalificar», com o propósito final de «chegar à beleza e à harmonia de Deus» e para «que as celebrações sejam reveladoras desse mesmo Deus».

Os participantes foram alertados ainda para a necessidade de uma «preocupação com a dimensão da formação a vários níveis, também para que a celebração seja mais bela e mais digna», tendo mesmo D. Jorge Ortiga referido a importância de existirem nas paróquias «pessoas verdadeiramente compro-metidas com a Igreja».

Antes da oração final que encerrou o encontrou, o ar- cipreste de Vila Nova de Famalicão, padre Pauli- no Carvalho, para além de agradecer a todos os presentes, relembro a necessidade de «purificar e evangelizar a religiosidade popular», sensibilizando os Conselhos Econômicos e as Comissões de Festas para «uma gestão justa e correta dos bens da paróquia, sempre numa lógica de comunhão com o pároco e com todos, para que cada um faça a sua parte na missão de testemunhar a Fé e para que tudo seja sempre para louvor de Jesus Cristo», conclui a nota.
in DM

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Para que serve a Igreja?


Para que serve a Igreja?

Entender a missão da Igreja na terra nos ajuda a entender nossa própria missão como batizados no mundo

Juan Ávila Estrada

Entender a missão da Igreja na terra nos ajuda a entender nossa própria missão como batizados no mundo. Por meio do apóstolo Paulo, aprendemos que a Igreja é o corpo de Cristo, do qual Ele é a cabeça. Não podemos conceber um Cristo sem corpo nem um corpo sem Cristo: tudo é uma unidade.

Quando nos perguntam sobre a finalidade da Igreja neste mundo, o que respondemos? O Evangelho nos revela a missão que Jesus lhe confiou: Ide ao mundo inteiro e anunciai o Evangelho, ensinai o que eu vos ensinei (cf. Marcos 16, 15-20). A missão da Igreja, portanto, é construir o Reino de Deus na terra, um Reino que “não é comida nem bebida, mas alegria e júbilo no Espírito Santo” (Romanos 14, 17).
 




Ela não tem uma tarefa exclusivamente mundana, não substitui as obrigações do Estado e dos seus governantes, mas possui uma missão muito mais sublime, pois toca o âmbito transcendente, espiritual: construir um Reino que se verifica aqui e agora mediante a entrega do grande tesouro que ela tem para compartilhar, Jesus vivo e ressuscitado.

Esta tarefa foi confiada às mãos e lábios frágeis e pecadores do ser humano. Jesus, mesmo conhecendo isso, quis confiar no ser humano para que construa em seu nome esse Reino poderoso e eterno.

A responsabilidade de educar na fé, de proclamar a salvação, passou de mão em mão, de lábios a lábios, inicialmente por meio dos patriarcas, posteriormente dos profetas, sumos sacerdotes, letrados, João Batista, depois foi retomada e levada à plenitude pelo próprio Jesus e confiada finalmente aos seus discípulos, para que continuassem seu exercício no mundo.

Quando João saiu de cena pela prisão, Jesus tomou as rédeas desta tarefa e evitou que ficasse inconclusa. Transcorridos mais de dois mil anos, esta mensagem chegou aos nossos ouvidos. Foi Jesus quem quis que esta tarefa nunca terminasse até sua volta à terra e, por isso, quis confiar a seres tão limitados a responsabilidade desta maravilhosa esperança.

O fato de não estarmos à altura da missão a nós confiada não significa que esta construção perca seu valor ou se perverta, porque, acima do pecado de cada ser humano está o poder do Espírito, que é quem faz acreditar, ainda contra toda limitação e pecado.

A Igreja, em meio ao pecado do homem que a constrói, é a manifestação da presença de Deus no mundo, e sua edificação não depende do vaivém das emoções humanas.

O Senhor se vale de cada fragilidade humana para manifestar seu poder e mostrar que o que se constrói não é um simples projeto humano. Todos nós temos uma tarefa muito grande à qual responder e o Senhor não se fixa nos limites que nos envolvem: idade, estado, falta de eloquência etc.

A Igreja possui um enorme tesouro a ser compartilhado e este tesouro é Jesus, em quem tudo se relativiza, pois, quando uma pessoa não o conhece, tudo parece importante, ainda o mais banal, mas, ao conhecê-lo, então começamos a perceber que tudo é “lixo, comparado com Cristo Jesus” (cf. Filipenses 3, 8).

Ainda quando muitos tentam destruir com sua ideologia o que a Igreja procura construir, o Espírito de Deus continua fazendo sua obra, para que a Verdade seja conhecida. E para construir esse Reino, é preciso fazê-lo como Igreja, corpo vivo, e não com sectarismos, que convertem o Reino de Deus em reino próprio.

O Reino de Deus não se constrói com sectarismos perigoso, nos quais cada um considera ter a razão; esta foi a grande fraqueza com que revestimos o cristianismo ao longo da história, pois cada um quis um Reino segundo seu próprio entender e, por isso, preferiu afastar-se dos lineamentos da Igreja quando não lhe pareciam adequados.

Como Cristo está vivo, a Igreja também é um corpo vivo, mas não em estado de coma ou vegetativo, e sim transmitindo essa vida, por meio dos sacramentos de Cristo e da pregação da Sua palavra. Quem vive a experiência de Jesus ressuscitado não pode ter uma atitude de agonizante; suas obras não podem cheirar a cadáver, mas a vida nova, essa vida que só Jesus sabe dar.

A Igreja não é o Reino em si, mas a semente com a qual ele começa; por isso, quando, como comunidade, nos amamos, vemos como o Senhor mesmo vai agregando os que vão se salvando (cf. Atos 2, 42-47). Portanto, esta não é uma obra nossa, mas somos seus construtores; não é nosso Reino, mas pertencemos a ele; não é nossa comunidade, mas nela nos congregamos.

Esta é a Igreja de Jesus Cristo, chamada a ser fermento de unidade no meio das massas, que andam errantes como ovelhas sem pastor. E Jesus é o verdadeiro Pastor.

 

sábado, 25 de maio de 2013

QUE DEUS VENHA CÁ A BAIXO VER... O PAPA, O EMÉRITO E A SUA IGREJA


QUE DEUS VENHA CÁ A BAIXO VER...

O PAPA, O EMÉRITO E A SUA IGREJA

 

CARLOS ENRIQUE – CONVIDADO do último número da revista «Courrier Internacional»

 

Carlos Enrique é diretor do jornal digital Público, trabalhou em Moscovo e Washington, cobriu guerras no Médio Oriente, Afeganistão, Camboja e Arménia, bem como a queda do Muro de Berlim e o massacre de Tiananmen.
Excertos de um artigo mais longo, publicado em «publico.es», a 14 de março de 2013.

Com a mais do que dogmática exclusão das mulheres – do conclave e de qualquer posição na Igreja Católica, exceto a de serventes dos religiosos varões —, 115 cardeais elegeram um novo bispo de Roma, que tem sido elogiado por todos os teólogos. incluindo proeminentes filósofos da libertação, como Leonardo Boff, condenado a um ano de silêncio pelo agora Papa emérito Ratzinger, quando presidia à Congregação para a Doutrina da Fé.

Muitos cristãos respiraram de alívio por o novo Papa não ser dos mais ultraconservadores da Cúria, mas o certo é que Jorge Mario Bergoglio nunca foi liberal. No que respeita à total falta de representação das mulheres na Igreja, Francisco doutrinou-nos: "As mulheres são naturalmente inaptas para cargos políticos (...) A ordem natural e os factos ensinam-nos que o homem é o ser político por excelência: as Escrituras mostram-nos que a mulher é sempre o apoio do homem pensador e criador, mas nada mais do que isso".

Depois de ler tão douta e irrefutável explicação da misoginia eclesiástica, não admira que o Papa tenha considerado uma lei sobre o casamento homossexual "uma manobra de Satanás", numa carta dirigida às freiras carmelitas da Argentina. É que nas questões sexuais os cardeais são muito rigorosos... salvo quando se trata da pedofilia dos sacerdotes, claro. A verdade é nunca se decidiram a explicar-nos por que razão os abusos pedófilos dos religiosos não são tão diabólicos como a homossexualidade ou o adultério, que, em contrapartida, os exasperam.

No conclave votaram (nunca saberemos em quem), membros da "dúzia suja", classificação atribuída a 12 cardeais pela SNAP – Rede de Sobreviventes de Abusos Praticados por Padres, organização dos EUA que divulgou, em Roma, a lista negra dos cardeais que "não enfrentaram com suficiente rigor os casos de clérigos pedófilos, não lhes deram relevância, recusaram reunir-se com as vítimas e criticaram as investigações jornalísticas".

Uma vez que alguns desses 12 são latino-americanos (como Norberto Rivera Carrera, arcebispo da Cidade do México, amigo e cúmplice do pederasta fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel, ou o hondurenho Óscar Rodríguez Maradiaga), ou hierarcas eminentes do conclave (como o próprio Tarcisio Bertone), não é arriscado apostar que o primeiro Papa latino-americano tenha recebido muitos votos de cardeais que foram defensores ou cúmplices de sacerdotes pedófilos. Não é de estranhar, numa hierarquia que gosta tanto de encobrir esse tipo de crimes (considerados, em qualquer outro grupo humano, dos mais terríveis e condenáveis), que em países onde a Igreja Católica não goza de imunidade oficial, como nos EUA, as dioceses se estejam a arruinar pagando indemnizações judiciais multimilionárias às vítimas desses abusos horrendos.

Agora teremos dois Papas e é possível que o emérito se tenha refugiado na clausura perante o avanço das investigações internacionais sobre o seu encobrimento desses crimes sexuais eclesiásticos, que conhecia perfeitamente quando dirigia a Congregação para a Doutrina da Fé e perseguia religiosos por denunciarem tiranias na América Latina. Em setembro de 2011, o Centro para os Direitos Constitucionais dos EUA iniciou uma ação, no Tribunal Penal Internacional, contra Ratzinger e outros altos cargos do Vaticano, em nome das vítimas, alegando que "o Papa é responsável por violação e outros abusos sexuais em todo o mundo, tanto pelo seu exercício de responsabilidade superior como pelo seu envolvimento direto no encobrimento dos crimes".

Na própria Santa Sé, sucedem-se escândalos de espionagem (o VatiLeaks do mordomo do Papa), intercâmbio de favores sexuais entre seminaristas, leigos e prelados que marcavam encontros nos lugares mais inesperados de Roma, e corrupção no Banco do Vaticano (onde se lavou durante décadas o dinheiro da Máfia, de traficantes de drogas e de armas). É muito provável que sejam a verdadeira razão da decisão histórica de Ratzinger de renunciar à cadeira de São Pedro e retirar-se para lamber as feridas das intrigas do padrinho de toda essa máfia.

Tão árdua é a tarefa de limpeza que espera o novo Pontífice, que não lhe basta o Espírito Santo. O melhor é que Deus venha cá a baixo e veja; porque o que está a acontecer na sua Igreja, só vendo é que se pode acreditar.

90 - MAIO 2013 – N.º 207, pág. 90





Não sei se leram este artigo, que vem na última página do número de maio do Courrier Internacional.

Interrogo-me como é possível haver ainda hoje leituras tão extremistas de uma realidade que sabemos ser muito diferente – objetivamente!

Sem comentários – ou valerá/valeria a pena fazê-los?

Boa leitura.

Fp
 
 
 

Não será de concluir que o diabo anda por aí a cegar os seus? Até parece. O ódio e a mentira é muita.

Mas lá que quere chegar à demolição da Igreja, lá isso quere. Coitado! Deus lhe perdoe pelo menos uns minutos antes de morrer.

Entretanto ai dos que  escandalizam os mais fracos como as  crianças.

Um abraço amigo.

Aires Gameiro
 
 
Fernando, ainda tinha mais para dizer, mas fica para depois...