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terça-feira, 14 de outubro de 2014

Um espelho do Sínodo para a família

Um espelho do Sínodo para a família


Relatio post disceptationem, o documento que mostra aquilo que foram os últimos dias do Sínodo

© Sabrina Fusco / ALETEIA
Após a apresentação da “Relação após a discussão”, realizada nesta manhã na Sala do Sínodo, pelo relator geral da Assembleia, cardeal Peter Erdö, assembleia se abriu às intervenções livres. Foram cerca de 41 intervenções. Os comentários das intervenções acabaram dando uma direção para os próximos dias do
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Sínodo, além de já serem um retorno do documento “Relatio post disceptationem”.

Na mesa do briefing desta manhã, 13 de outubro, se encontravam: Dom Bruno Forte, cardeal Luis Tagle, cardeal Péter Erdö, Cardeal Ricardo Ezzati Andrello e o porta-voz da Sala de Imprensa Vaticana, Padre Federico Lombardi.

Quem abriu os comentários de maneira muito espirituosa foi o cardeal Tagle, agradecendo os colaboradores diretos da elaboração do documento “Relatio post disceptationem”. Tagle comentou que o documento é um espelho daquilo que foi discutido nos últimos dias de Sínodo e que as intervenções que seguiram dão as direções de aprofundamento para os próximos dias. O purpurado disse que “este não é o documento final do Sínodo - e completou de maneira espontânea: o ‘drama’ continua. Agradecemos aqueles que fizeram parte da equipe que formulou este documento, eles são verdadeiros ‘heróis’”.

© Sabrina Fusco

Neste clima descontraído o arcebispo de Chieti-Vasto, Bruno Forte, disse que o trabalho ainda está em curso, o documento foi um exercício de sinodalidade, como foi pedido pelo Papa Francisco. Foi preciso falar aquilo que se sentia importante dizer, mas também escutar os outros. Agora é o tempo de amadurecer e deixar que tudo cresça com o tempo. O arcebispo comentou que durante as colocações e intervenções se sentia o espírito do Concílio Vaticano II, onde a Igreja segue caminhando em harmonia.

O cardeal chileno Ricardo Ezzati Andrello acrescentou que “este Sínodo é um reflexo de três coisas fundamentais: a escuta, onde existe sintonia e respeito; misericórdia, buscando compreender as situações que vivem as famílias, escutar uma Igreja que se apresenta com um coração de misericórdia; a busca de caminhos de aproximação, para acompanhar por meio de linhas pastorais as famílias. Essas três dimensões estão muito presentes no documento apresentado hoje. Um Sínodo que escuta, se comove e busca caminhos, expressa o que a Igreja sente para ser servidora da humanidade”.

Divorciados e casados novamente

O número 47 do documento “Relatio post disceptationem” fala de um caminho penitencial para poder dar acesso aos sacramentos para os divorciados e casados novamente. Em que consiste o caminho penitencial? Antes de tudo é preciso “um reconhecimento da culpa que possa existir, pois a responsabilidade é dos dois cônjuges, onde cada um precisa ter consciência”, comentou Dom Bruno Forte. O cardeal Erdö completou dizendo que é um “processo, um caminho penitencial. O aspecto de discernimento não apenas ao casamento passado, mas refletir também sobre as condições de vida atual”.

Acolher as pessoas homossexuais

O número 51 do documento diz do desafio educativo dos filhos de casais homossexuais. “Quando falamos de educação, estamos no contexto da educação católica, da fé, da vontade de Deus, ideal cristão de vida. Ou seja, não é a mesma coisa que alguns programas educativos propõem no mundo, colocando uma acentuação diferente”, esclareceu o cardeal Erdö.

“As pessoas homossexuais possuem dons e qualidades a oferecer a comunidade cristã” (Relatio post disceptationem, número 50). “Precisamos respeitar a dignidade de cada pessoa. O fato de ser homossexual não significa que sua dignidade não exista”, disse Dom Bruno Forte. O cardeal Erdö completou o comentário dizendo que “a identidade da pessoa não é determinada por sua tendência sexual. Agora, o comportamento da mesma é algo que não foi comentado no documento”.


© Sabrina Fusco

“A Igreja tem atenção especial para com as crianças que vivem com casais do mesmo sexo, reiterando que em primeiro lugar são colocadas sempre as exigências e os direitos dos pequenos” ( Relatio post disceptationem, número 52). Esse é um tema fundamental a ser aprofundado nos próximos dias do Sínodo. “Uma criança tem o direito de ser educada por aqueles que são os primeiros a comunicar o amor. Na Igreja e na prática educativa que encontramos existe uma importante presença do pai e da mãe na educação dos filhos. A tradição da Igreja a partir do Concílio Vaticano II destacou a dimensão familiar, em que os pais têm o primeiro dever em educar. Um dos temas que debatemos na América Latina é o direito a uma educação de qualidade. Os pais têm o dever e direito de fortalecê-la e também as instituição são chamadas a apoiar, para que esta relação da vida familiar encontre uma melhor possibilidade de prosseguir no amor dos pais para com os filhos, tendo assim a maior eficácia possível”, disse o cardeal Ricardo Ezzati Andrello.

Segundo o cardeal Erdö existiram muitos comentários e algumas críticas em relação aos pontos apresentados no documento. Algumas propostas de aprofundamento continuarão durante esta semana, assim como em relação à clareza do texto. “As fórmulas e expressões precisam ajudar na reflexão. Esperamos que durante esta semana o texto melhore”, completou o cardeal.
 

Falar claro, pois claro!


Falar claro, pois claro!

 

Falar claro é uma condição geral de base. Assume-o o Papa Francisco na saudação que dirigiu aos padres sinodais, no passado dia 6 de outubro, durante a primeira congregação geral da III assembleia geral extraordinária do Sínodo dos Bispos.

Sim, é uma condição de base em toda a relação interpessoal e no discurso público. Porém, falar claro e frontal não é sinónimo de faltar ao respeito, ser insolente ou brincar com coisas sérias. Mas é o contrário de mentir, dizer meia verdade, deixar de dizer as coisas com receio de ser mal entendido, ferir o interlocutor, pensar que não vale a pena, ter medo de represálias vir a sofrer o desemprego, perder um cargo ou mostrar falso respeito ante quem julgamos respeitável.

Tanto se degradam as relações familiares, grupais, sociais e profissionais com a afronta como com a ocultação da verdade. Se a afronta continuada leva à dissolução, a ocultação só adia os problemas. E quanto maior for o levantamento destes, mais difícil se torna a sua resolução.

Ocultar a verdade das situações, deixar de oferecer uma opinião em tempo necessário e oportuno é tão pernicioso como o excesso e mesmo a afronta. Quantos chefes engordam balofamente dentro do seu casulo, se degradam na sua gestão e cavam a sua ruína com a plêiade de aduladores que pensam que fazem bem (ou zelam o seu bem) com a ocultação da realidade! Isto acontece na empresa, na sociedade, no grupo de amigos, na política, nos meios eclesiásticos. Tão demolidora se torna a adulação como a intriga ou a conspiração. As três atitudes são inspiradas pelo diabo (vd Gn 3,1-13; 4,8; Mt 4,1-10; Mc 1,12-13; Lc 4,1-13; Jo 18,5; Ap 12,4).

Mas para falar claro, é necessário dispor de autoridade moral, que resulta do trabalho dedicado, da competência e da paciência, bem como da magnanimidade. Por outro lado, nas sociedades e na Igreja, o falar claro acontecerá se for estimulada e praticada a colegialidade e a sinodalidade.

Num órgão colegial, os seus membros não têm a função de dizer acriticamente ámen a tudo. Antes, cada um deve oferecer o seu contributo franco e respeitoso, disciplinado e generoso – oral ou escrito – e mesmo, quando oportuno, o silêncio colaborante. A obediência terá lugar, in fine, para as decisões a que solidamente se chegou e após a sua promulgação ou figura análoga, bem como em situação em que a urgência implique a necessidade da não discussão. O colégio é a presença conjunta, física ou virtual e a conjugação de ideias, opiniões e esforços – da parte daqueles que são chamados à matéria ou à ação.

A sinodalidade implica a disposição de caminhar em conjunto na corrida para a meta, na procura da verdade (sínodos é palavra grega derivada do prefixo sin, com + odós, caminho). Tal implica que surja quem puxe pelos outros e quem sugira a espera de quem tem dificuldades; haja palavras de ordem e palavras de aceitação e aclamação; haja momentos de pausa para reflexão, retemperação de forças e avaliação da caminhada; e haja momentos de celebração como de discussão franca. A sinodalidade implica a sinaxe (no grego, sin, com + áxis, eixo), ou seja, a reunião ou a rotação em torno de um eixo, que pode ser um líder, um objetivo, um fim. Só que o objetivo pode ser mantido ou redefinido, o fim tem de persistir e o líder pode ser substituído. Porém, enquanto estiver ao serviço (o líder vê ao longe, indica o caminho, mas é um servidor que serve guiando), ele vai à frente, no meio ou na retaguarda consoante a necessidade dos caminhantes.

***

Porém, o Papa Francisco dá um exemplo da magnanimidade sinodal. A par dos eleitos pelo conselho pós-sinodal (o relator e o secretário geral), também ele eleito pelos participantes no último sínodo, competia ao Pontífice designar os presidentes delegados para as congregações gerais e para a coordenação dos trabalhos. No entanto, ele solicitou ao próprio Conselho pós-sinodal que propusesse alguns nomes, e nomeou aqueles que o Conselho lhe propôs.

Francisco aproveita o ensejo par afazer uma necessária distinção de cariz doutrinal. Enquanto refere que os padres sinodais são transmissores ou porta-vozes das Igrejas particulares, reunidas a nível de Igrejas locais mediante as Conferências Episcopais esclarece que “A Igreja universal e as Igrejas particulares são de instituição divina; as Igrejas locais assim entendidas são de instituição humana”. Sim, o Papa é o sucessor do apóstolo Pedro e os bispos são os sucessores dos demais apóstolos – isto é de instituição divina. O sacro colégio dos cardeais ou toda a organização central em Roma e diplomática com os olhos de poder em todo o mundo ou a organização dos bispos em torno dos arcebispos (ou patriarcas) metropolitas ou em conferências episcopais é instituição humana, sujeita às limitações e suscetível de correção ou reforma.

No entanto, mesmo esta dimensão humana de organização é importante. “Esta é a voz que transmitireis em sinodalidade. Trata-se de uma grande responsabilidade: anunciar as realidades e as problemáticas das Igrejas, para as ajudar a percorrer aquele caminho que é o Evangelho da família.” – reconhece o Papa.

Ora, sempre, mas sobretudo quando se fala em representação da coletividade, é importante falar claro. O Papa Francisco chega ao ponto de suplicar: “Que ninguém diga: ‘Isto não se pode dizer; pensará de mim assim ou assim...’. É necessário dizer tudo o que se sente com parrésia.

E aduz um exemplo pertinente, não valendo como desculpa o “Sumus coram Pontifice”:

Depois do último Consistório (fevereiro de 2014), no qual se falou sobre a família, um Cardeal escreveu-me dizendo: é uma lástima que alguns Purpurados não tiveram a coragem de dizer certas coisas por respeito ao Papa, talvez julgando que o Papa pensasse de outra maneira. Isto não está bem, isto não é sinodalidade, porque é necessário dizer tudo aquilo que, no Senhor, sentimos que devemos dizer: sem hesitações, sem medo. E, ao mesmo tempo, é preciso ouvir com humildade e aceitar de coração aberto aquilo que os irmãos dizem. A sinodalidade exerce-se com estas duas atitudes.

 

Que sirva de exemplo a todos aqueles que se autoproclamam democratas, mas de quem a prática da democracia anda tão afastada! Bateu-lhe dizendo: respondes assim ao Pontífice? (Jo 18,22).

***

Entretanto, antecipando a temática do sínodo que ia ser inaugurado na manhã do dia seguinte, o seu discurso da vigília de oração, no dia 4 de outubro, constitui uma realista e forte interpelação.

“É a hora em que de bom grado se regressa a casa para se reunir à mesma mesa na consistência dos afetos, do bem feito e recebido, dos encontros que abrasam o coração e o fazem crescer, vinho bom que antecipa, nos dias do homem, a festa sem ocaso”.

 

Porém, algumas sombras, quase indeléveis, impendem agora sobre o mundo dos homens:

“Mas é também a hora mais pesada para quem se vê cara a cara com a própria solidão, no crepúsculo amargo de sonhos e projetos desfeitos. Quantas pessoas arrastam os seus dias no beco sem saída da resignação, do abandono, se não mesmo do rancor! Em quantas casas falta o vinho da alegria e, consequentemente, o sabor – a própria sabedoria – da vida!”

 

O Papa não esquece os anseios de cada pessoa, mesmo no contexto de uma cultura individualista ou até egoísta, que, entregue a si, teima no isolamento e pode levar ao desânimo:

É significativo como permanece viva, em cada nascido de mulher - mesmo na cultura individualista que perverte e torna efémeros os laços – uma exigência essencial de estabilidade, duma porta aberta, de alguém com quem tecer e partilhar a narração da vida, duma história a que se pertença. A comunhão de vida assumida pelos esposos, a sua abertura ao dom da vida, a defesa recíproca, o encontro e a memória das gerações, o acompanhamento educativo, a transmissão da fé cristã aos filhos... Com tudo isto, a família continua a ser escola incomparável de humanidade, contribuição indispensável para uma sociedade justa e solidária (cf EG 66-68). E quanto mais profundas são as suas raízes, tanto mais é possível singrar e chegar longe na vida, sem se extraviar nem se sentir estrangeiro em terra alguma.

 

 

Perante esta situação humana, define as condições da abordagem sinodal:

Para individuar o que o Senhor pede hoje à sua Igreja, devemos prestar ouvidos às pulsações deste tempo e sentir o ‘odor’ dos homens de hoje, até ficar impregnados  das suas alegrias e esperanças, das suas tristezas e angústias (cf. GS 1). Então saberemos propor, com credibilidade, o evangelho, a boa nova sobre a família.

 

Fundamenta no Evangelho a opção sólida por este dinamismo termo e misericordioso:

Há, no Evangelho, uma força e ternura capazes de vencer aquilo que cria infelicidade e violência. Sim, no Evangelho, há a salvação que cumula as necessidades mais profundas do homem! Desta salvação, obra da misericórdia de Deus e sua graça, somos, como Igreja, sinal e instrumento, sacramento vivo e eficaz (EG 112). Se assim não fosse, o nosso edifício não passaria dum castelo de cartas, e os pastores reduzir-se-iam a clérigos de estado, em cujos lábios o povo procuraria em vão o frescor e o ‘perfume do Evangelho’ (Ibid. 39).

 

Assim, enuncia três dons fundamentais a solicitar ao Espírito Santo para este sínodo: a escuta, a disponibilidade e a atitude de manter o olhar fixo em Cristo.

Primeiro:

Pedimos, antes de mais nada, ao Espírito Santo, o dom da escuta: escuta de Deus, até ouvir com Ele o grito do povo; escuta do povo, até respirar nele a vontade a que Deus nos chama.

 

Segundo:

Suplicamos a disponibilidade para um confronto sincero, aberto e fraterno, que nos leve a ocupar-nos, com responsabilidade pastoral, das interrogações que esta mudança epocal traz consigo. Deixemos que inundem o nosso coração, sem nunca perdermos a paz, mas com a serena confiança de que o Senhor não deixará, a seu tempo, de reconduzir à unidade. Porventura não nos fala a história da Igreja – como sabemos – de tantas situações análogas que os nossos pais souberam superar com obstinada paciência e criatividade?

 

Terceiro:

Se verdadeiramente pretendemos verificar o nosso passo no terreno dos desafios contemporâneos, a condição decisiva é manter o olhar fixo em Jesus Cristo, deter-se na contemplação e adoração do seu rosto. Se assumirmos o seu modo de pensar, viver e relacionar-se, não teremos dificuldade em traduzir o trabalho sinodal em indicações e percursos para a pastoral da pessoa e da família. Na verdade, todas as vezes que voltamos à fonte da experiência cristã, abrem-se estradas novas e possibilidades inimagináveis. Assim no-lo deixa intuir a indicação evangélica: ‘Fazei o que Ele vos disser’ (Jo 2,5). São palavras que contêm o testamento espiritual de Maria, ‘amiga sempre solícita para que não falte o vinho na nossa vida’ (EG 286).

 

E sintetiza, sob a égide de S. Francisco, o renovador da Igreja, a missão dos padres sinodais:

As três coisas – a nossa escuta e o nosso confronto sobre a família, amada com o olhar de Cristo – tornar-se-ão uma ocasião providencial para renovar, a exemplo de S. Francisco, a Igreja e a sociedade. Com a alegria do Evangelho, reencontraremos o passo duma Igreja reconciliada e misericordiosa, pobre e amiga dos pobres; uma Igreja capaz de ‘vencer, pela paciência e pela caridade, as suas aflições e dificuldades tanto internas como externas’ (LG 8).

 

É o escol da Igreja a refletir, circundado por uma enorme retaguarda de oração e de esperança, na busca, em aliança com o Espírito, da lucidez necessária para responder aos desafios de hoje.

2014.10.10

– Louro de Carvalho