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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O que o sofrimento pode me oferecer de bom?


O que o sofrimento pode me oferecer de bom?

Deus não nos oferece o sofrimento como castigo, e sim como caminho
Padre Carlos Padilla
 
                                                                                                                                                                          © Agustín Ruiz / Flickr / CC
 
Ninguém quer sofrer. Isso vai contra nossa natureza, que busca a felicidade, a paz, o descanso, a alegria. Não há nada mais contrário ao nosso querer. Sofrer nos parece desnecessário, duro demais.

É nessas horas, quando nos faltam forças, que Deus nos sustenta. Isso vale especialmente quando Deus nos leva à escola do sofrimento. Para Paulo, é natural que nós, em nossa qualidade de membros de Cristo, sejamos associados à sua Paixão, e que o padecimento não só signifique colapso de forças humanas, senão também surgimento de forças divinas e abundante fecundidade da nossa vida e das nossas obras.

A escola do sofrimento. Deus o permite em nossa vida. Deus nos ama e, em seu amor, tolera que soframos.

O coração se rebela contra todo sofrimento. Não queremos padecer, não queremos sofrer a perda nem a dor. Queremos uma vida plena. Uma pessoa rezava assim a Jesus em sua dor:

"Conheço muito bem as perdas. Desde pequena tive de sofrê-las. As mais abruptas, as que me deixaram sem ar. Deus saberá explicar-me tudo no final do caminho. O tempo fará o resto, acalmará um pouco a ausência, curará um pedaço do meu coração ferido.

Enquanto isso, Tu me guias por este mundo com a tua luz, Senhor, que, da estrela mais brilhante, do mar mais profundo e dos cumes mais altos, me mostra que só se chega a Ti pela tua cruz."

O caminho do sofrimento é o caminho da cruz. Não acho que Deus nos mande as cruzes. Mas a cruz vem ao nosso encontro sempre, porque somos limitados, porque o tempo desgasta tudo, porque a natureza nos fere.

Então chega a dor e o sofrimento. E Jesus está aí, na minha cruz. Muitas vezes não encontraremos o sentido. Na verdade, isso nem sempre será necessário. Só pedimos a Jesus que não solte nossa mão, que não nos deixe sozinhos na vida, sem sua companhia, sem sua força e estímulo. É disso que precisamos.

Falando da sua doença, a Dra. África Sendino comentou: "Se Deus me desse a oportunidade de voltar no tempo e me oferecesse a possibilidade de escolher entre as duas opções possíveis – saúde ou doença –, eu não poderia dizer 'não' ao que me aconteceu.

Porque Deus não nos oferece a doença como castigo, mas como caminho. Porque neste caminho estou aprendendo intensas lições.

Compreendo que a Providência divina não é uma simples abordagem, mas uma realidade cotidiana que me aguarda no rosto dos meus amigos. E presencio, como um espetáculo grandioso, até onde pode chegar a bondade dos que me cercam."

Na dor, não somente nos encontramos com o rosto amigável e próximo de Deus, com sua mão que nos sustenta, mas também com o rosto de todos os que cuidam de nós, que velam por nós, que nos acompanham.

Por isso, queremos pedir a Deus essa liberdade interior diante da vida. Entregamos a Deus nossos medos confusos diante do futuro, o temor que nos invade ao pensar em tudo o que pode nos acontecer. Entregamos a Deus.

Trata-se de viver inscritos no coração de Jesus. Lá, pouco importa o que possa acontecer. Quando Ele segura nossa mão, todo medo desaparece.

 

 
 
 
 
 



 


 


 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Sofrimento útil


Sofrimento útil



Pe. José Rebelo
Missionário comboniano

 

O sul-africano Cyril Axelrod é o único padre completamente surdo e cego no mundo. Filho de pais judeus, quis ser rabi. Mas o rabinato não é para pessoas com deficiência. Começa então a estudar Contabilidade, mas Deus tinha outros planos para ele. A semente da vocação sacerdotal plantada durante os seus anos numa escola católica para surdos cresce e aos 23 anos pede ao bispo de Port Elizabeth para o admitir ao baptismo e ao sacerdócio na Igreja Católica. Estuda Filosofia nos Estados Unidos e Teologia no seminário nacional em Pretória. É ordenado padre em 1975. A mãe assiste comovida à cerimónia.

Cyril nasceu com a síndrome de Usher, o que significa que a sua surdez inata era acompanhada de retinite pigmentosa (visão em túnel), que o tornaria progressivamente cego. Quando o diagnóstico lhe foi confirmado em 1981, numa clínica norte-americana em Washington, o seu superior estava com ele e testemunha: «Depois do choque inicial, Cyril sorriu e com uma paz interior profunda comentou: “Deus tem usado a minha surdez para o seu trabalho. Talvez, ele queira usar também a minha cegueira.”» Fica completamente cego em 1990 e passa a andar com uma bengala.

O ministério sacerdotal do Cyril em favor dos surdos, que já abrangia todo o país, assume pro-porções internacionais. Depois de se tornar redentorista começa a ser requisitado para pregar em missões e retiros para os surdos na Itália, Irlanda, Reino Unido, Holanda, EUA, França, Singapura e Austrália. Em Singapura apercebe-se da grande falta de cuidado pastoral de que são alvo os surdos no Extremo Oriente. Parecia que Deus o estava a chamar para campos de missão ainda mais vastos. De regresso à África do Sul, começou a estudar o cantonês. Depois de dois anos sente que está pronto para aceitar a oferta de um ministério para surdos em Hong Kong e Macau, para onde se mudou em 1988. Uma vez na China, começa a estabelecer serviços sociais para os surdos e cegos.

Aos 72 anos, Cyril vive em Londres, o ponto mais central para o seu apostolado internacional que o leva à China duas vezes por ano e regularmente a Malta, Eslováquia, Coreia, Singapura, Japão, Austrália, Canadá e África do Sul. Fluente em braille e em várias línguas como o inglês, africâner e cantonês, Cyril recebeu vários prémios internacionais e um doutoramento honoris causa. Em Novembro de 2013, recebeu a Ordem do Império Britânico (OBE) em Windsor das mãos da rainha Isabel II de Inglaterra. O caso de Cyril, em que a deficiência se torna uma oportunidade de missão, não é único. O padre comboniano Fabio Gilli é também paradigmático. Em vez de o incapacitar, a cegueira levou-o a exercer um magnífico ministério de compaixão em favor dos invisuais do Togo, que até aí eram completamente esquecidos. Quando o entrevistei, disse-me com uma serenidade invejável: «A minha vida é toda ela luz.» Certamente a vontade normal de Deus é de que gozemos de boa saúde. Mas o sofrimento que nos «assalta» contra a nossa vontade não tem de ser uma maldição; pode transformar-se numa oportunidade de crescimento e ajuda. Um caso recente ilustra-o bem: um ano depois do suicídio do seu filho, o popular evangelista e autor norte-americano Rick Warren, em parceria com a diocese católica de Orange, está a começar um ministério na área da saúde mental inspirado pela sua tragédia pessoal.

Matthew Warren, de 27 anos, cometeu suicídio em Abril do ano passado depois de ter lutado durante anos contra uma depressão grave que o levava a ter pensamentos suicidas. A decisão do pai é inspiradora: «Não vou certamente desbaratar esta dor. Uma das coisas em que eu acredito é que Deus nunca desperdiça uma dor e que muitas vezes o nosso maior ministério resulta do nosso sofrimento mais profundo.» E concluía: «No jardim da graça de Deus até as árvores quebradas dão frutos.»