''Como Jesus, vou usar o bastão contra os padres
pedófilos", diz Papa Francisco
O
Papa concedeu mais uma importante entrevista esse final de semana, em que
tratou de temas como a pedofilia e o celibato
AFP PHOTO / VINCENZO PINTO
Reportagem de Eugenio Scalfari, diretor do
jornal La Repubblica,
veiculada nesse domingo. Tradução de Moisés Sbardelotto, publicada na IHU
On-Line.
"A pedofilia é uma lepra que há na Igreja e também afeta os
bispos e os cardeais. Alguns sacerdotes passam por cima do fenômeno mafioso: a
denúncia pública é rara".
São as 17 horas da quinta-feira, 10 de julho, e é a terceira vez que eu
encontro o Papa Francisco para conversar com ele. Sobre o quê?
Sobre o seu pontificado, que começou há pouco mais de um ano e que, em tão
pouco tempo, já começou a revolucionar a Igreja; sobre as relações entre os
fiéis e o papa que vem do outro lado do mundo; sobre o Concílio Vaticano
II concluído há 50 anos e apenas parcialmente implementado nas suas
conclusões; sobre o mundo moderno e a tradição cristã e, sobretudo, sobre a
figura de Jesus de Nazaré.
Finalmente, sobre a nossa vida, sobre os seus afãs e as suas alegrias, sobre os
seus desafios e o seu destino, sobre o que nos espera em um esperado além ou
sobre o nada que a morte traz consigo.
Esses nossos encontros foram desejados pelo Papa Francisco, porque, entre
as tantas pessoas de todas as condições sociais, de todas as fés, de todas as
idades que ele encontra no seu apostolado cotidiano, ele também desejava trocar
ideias e sentimentos com um não crente.
E eu o sou; um não crente que ama a figura humana de Jesus, a sua
pregação, a sua lenda, o mito que ele representa aos olhos de quem reconhece
uma humanidade de excepcional densidade, mas nenhuma divindade.
O papa considera que uma conversa com um não crente do gênero é
reciprocamente estimulante e, por isso, quer continuá-la; digo isso porque foi
ele quem me disse. O fato de eu também ser jornalista não o interessa
especificamente; eu poderia ser engenheiro, professor escolar, operário.
Interessa-lhe falar com quem não acredita, mas gostaria que o amor ao próximo
professado há 2.000 anos pelo filho deMaria e de José fosse o
principal conteúdo da nossa espécie, enquanto, infelizmente, isso acontece
muito raramente, dominado pelos egoísmos, por aquilo
que Francisco chama de "cobiça de poder e desejo de posse".
Ele definiu isso em uma nossa conversa anterior como "o verdadeiro pecado
do mundo, do qual todos somos afetados", e representa a outra forma da
nossa humanidade, e é a dinâmica entre esses dois sentimentos que constrói,
para o bem ou para o mal, a história do mundo.
Ela está presente em todos, e, além disso, na tradição
cristã, Lúcifer era o anjo predileto de Deus, portador de luz até que
se rebelou contra o seu Senhor, tentado a tomar o seu lugar, e o seu Deus o
precipitou nas trevas e no fogo dos condenados.
Falamos dessas coisas, mas também das intervenções do papa nas estruturas da
Igreja, das adversidades que ele encontra. Devo dizer que, para além do extremo
interesse dessas conversas, nasceu em mim um sentimento de afetuosa amizade que
não modifica em nada o meu modo de pensar, mas de sentir, isso sim. Não sei se
é correspondido, mas a espontaneidade desse muito estranho sucessor de Pedro me
faz pensar que sim.
Agora, estou esperando-o há alguns minutos na pequena sala no piso térreo
de Santa Marta, onde o papa recebe os amigos e os colaboradores. Ele chega
pontualíssimo, sem ninguém que o acompanhe. Ele sabe que eu tive nos últimos
dias alguns problemas de saúde e, de fato, logo me pede notícias a respeito.
Coloca a sua mão sobre a cabeça, uma espécie de bênção, e depois me abraça.
Fecha a porta, ajeita a sua cadeira na frente da minha e começamos.
* * *
Pedofilia e máfia são os dois temas sobre os
quais Francisco falou nos últimos dias e que levantaram uma onda de
sentimentos e também de polêmicas dentro e fora da Igreja. O papa é muito
sensível tanto em relação a um quanto ao outro assunto e já tinha falado, em
várias ocasiões, mas ainda não os tinha tomado tão a peito, sobretudo sobre os
pontos referentes ao comportamento de uma parte do clero.
"A corrupção de uma criança", diz,
"é o que de mais terrível e imundo se possa imaginar, especialmente
quando, como indicam os dados que eu pude examinar diretamente, grande parte
desses fatos abomináveis ocorrem dentro das famílias ou mesmo de uma comunidade
de velhas amizades. A família deveria ser o sacrário onde a criança e depois o
menino e o adolescente são amorosamente educados ao bem, encorajados no
crescimento estimulado a construir a própria personalidade e a se encontrar com
a dos seus coetâneos. Brincar juntos, estudar juntos, conhecer o mundo e a vida
juntos. Isso com os coetâneos, mas, com os parentes que os colocaram no mundo
ou que os viram entrar no mundo, a relação é como o de cultivar uma flor, um
canteiro de flores, cuidando-o do mau tempo, desinfetando-a dos parasitas,
contando-lhes as fábulas de vida e, enquanto o tempo passa, a sua realidade.
Essa é ou deveria ser a educação que a escola completa e a religião coloca no
plano mais alto do pensar e do crer no sentimento divino que se assoma às
nossas almas. Muitas vezes, transforma-se em fé, mas, mesmo assim, deixa uma
semente que, de algum modo, fecunda aquela alma e a volta para o bem."
Enquanto fala e diz essas verdades, o papa se aproxima de mim ainda mais. Fala
comigo, mas é como se refletisse consigo mesmo, desenhando o quadro da sua
esperança que coincide com a de todas as pessoas de boa vontade.
Provavelmente – digo eu – isso é uma grande parte do que acontece. Ele me olha
com olhos diferentes, que de repente se tornaram duros e tristes. "Não,
infelizmente não é assim. A educação como nós a entendemos parece quase ter
desertado as famílias. Cada um é tomado pelas próprias incumbências pessoais,
muitas vezes para assegurar à família um padrão de vida suportável, às vezes
para buscar o seu próprio sucesso pessoal, outras vezes por amizades e amores
alternativos. A educação como tarefa principal em relação aos filhos parece ter
fugido das casas. Esse fenômeno é uma gravíssima omissão, mas ainda não estamos
no mal absoluto. Não apenas a educação inexistente, mas também a corrupção, o
vício, as práticas torpes impostas à criança e, depois, praticadas e atualizadas
cada vez mais gravemente, assim que ela cresce e se torna moço e, depois,
adolescente. Essa situação é frequente nas famílias, praticada por parentes,
avós, tios, amigos da família. Muitas vezes, os outros membros da família estão
conscientes disso, mas não intervêm, enredados por interesse ou por outras
formas de corrupção".
Eis a entrevista.
Para o senhor, Santidade, o fenômeno é frequente e generalizado?
"Infelizmente, é e é acompanhado por outros vícios, como a disseminação
das drogas."
E a Igreja? O que a Igreja faz em tudo isso?
"A Igreja luta para que o vício seja debelado e a educação, recuperada.
Mas nós também temos essa lepra em casa."
Um fenômeno muito generalizado?
"Muitos dos meus colaboradores que lutam comigo me tranquilizam com dados
confiáveis que avaliam a pedofilia dentro da Igreja em nível de 2%. Esse dado
deveria me tranquilizar, mas devo lhe dizer que realmente não me tranquiliza.
Ao contrário, eu o considero gravíssimo. Os 2% de pedófilos são sacerdotes e
até bispos e cardeais. E outros, ainda mais numerosos, sabem, mas se calam,
punem, mas sem dizer o motivo. Eu acho insustentável esse estado de coisas, e a
minha intenção é enfrentá-lo com a severidade que exige.
* * *
Lembro ao papa que, na nossa conversa anterior, ele me disse que Jesus era o
exemplo da doçura e da mansidão, mas, às vezes, pegava o bastão para derrubá-lo
nas costas dos velhacos que sujavam o Templo moralmente.
"Eu vejo você se lembra muito bem das minhas palavras. Eu citava as
passagens dos Evangelhos de Marcos e deMateus. Jesus amava
a todos, até mesmo os pecadores que ele queria redimir, dispensando o perdão e
a misericórdia, mas, quando usava o bastão, empunhava-o para expulsar o demônio
que tinha se apossado daquela alma."
As almas – isso também o senhor me disse no nosso encontro anterior – podem
se arrepender depois de uma vida de pecados, mesmo no último momento da sua
existência, e a misericórdia estará com elas.
"É verdade, essa é a nossa doutrina, e esse é o caminho que Cristo nos
indicou."
Mas pode ocorrer que alguns arrependimentos no último minuto de vida sejam
interessados. Talvez inconscientemente, mas interessados em se garantir um
possível além. Nesse caso, a misericórdia corre o risco de acabar em uma
armadilha.
"Nós não julgamos, mas o Senhor sabe e julga. A sua misericórdia é
infinita, mas nunca cairá em uma armadilha. Se o arrependimento não é
autêntico, a misericórdia não pode exercer o seu papel de redenção."
O senhor, Santo Padre, no entanto, lembrou várias vezes que Deus nos dotou
com o livre arbítrio. O senhor sabe bem que, se escolhermos o mal, a nossa
religião não exerce misericórdia para conosco. Mas há um ponto que eu gostaria
de destacar: a nossa consciência é livre e autônoma. Pode, em perfeita boa fé,
fazer o mal convencida, porém, de que, a partir desse mal, nascerá um bem. Qual
é, diante de casos desse tipo, que são muito frequentes, a atitude dos
cristãos?
"A consciência é livre. Se escolher o mal, porque está segura de que dele
derivará um bem do alto dos céus, essas intenções e as suas consequências serão
avaliadas. Nós não podemos dizer mais, porque não sabemos mais. A lei do Senhor
é o Senhor que estabelece, e não criaturas. Nós sabemos somente porque foi
Cristo que nos disse que o Pai conhece as criaturas que criou, e nada para ele
é misterioso. Além disso, o livro de Jó examina a fundo esse tema.
Recorda-se que falamos disso? Seria preciso examinar a fundo os livros sapienciais
da Bíblia e o Evangelho quando fala de Judas
Iscariotes. São temas de fundo da nossa teologia subjacente."
E também da cultura moderna que vocês querem compreender a fundo e com a
qual querem debater.
"É verdade, é um ponto capital do Vaticano II, e devemos enfrentá-lo o
mais rápido possível."
Santidade, ainda é preciso falar sobre o tema da máfia. O senhor tem tempo?
"Estamos aqui para isso."
* * *
"Não conheço a fundo o problema das máfias. Sei, infelizmente, o que elas
fazem, os crimes que são cometidos, os enormes lucros que as máfias
administram. Mas me escapa o modo de pensar dos mafiosos, os chefes, os
gregários. NaArgentina, como em todos os lugares, há os delinquentes, os
ladrões, os assassinos, mas não as máfias. É esse aspecto que eu gostaria
examinar, e vou fazer isso lendo os tantas livros que foram escritos a respeito
e os muitos testemunhos. Você é de origem calabresa, talvez possa me ajudar a
entender."
O pouco que posso dizer é isto: a máfia – seja calabresa, seja siciliana, seja
a camorra napolitana – não são acólitos desviados de delinquentes, mas são
organizações que têm leis próprias, códigos de comportamento próprios, cânones
próprios. Estados no Estado. Que não lhe pareça paradoxal se eu lhe disser que
elas têm uma ética própria. E que não lhe pareça anormal se eu acrescentar que
elas têm um Deus próprio. Existe um Deus mafioso.
"Entendo o que você está dizendo: é um fato que a maior parte das mulheres
ligadas à máfia por vínculos de parentesco, as esposas, as filhas, as irmãs,
frequentam assiduamente as igrejas das suas cidades, onde o prefeito e outras
autoridades locais muitas vezes são mafiosos. Essas mulheres pensam que Deus
perdoa os horríveis crimes dos seus parentes?"
Santidade, os mesmos parentes muitas vezes frequentam as igrejas, as missas,
os casamentos, os funerais. Não acredito que se confessem, mas muitas vezes
comungam e batizam os recém-nascidos. Esse é o fenômeno.
"O que você diz é claro, e, além disso, não faltam livros, pesquisas,
documentações. Devo acrescentar que alguns sacerdotes tendem a passar por cima
do fenômeno mafioso. Naturalmente, condenam os crimes individuais, honram as
vítimas, ajudam como podem as suas famílias, mas a denúncia pública e constante
das máfias é rara. O primeiro grande papa que a fez, justamente falando nestas
terras, foi Wojtyla. Devo dizer que o seu discurso foi aplaudido por uma
multidão imensa."
O senhor pensa que nessa multidão que aplaudia não havia mafiosos? Pelo que
eu saiba, havia muitos. O mafioso, repito, aplica um código próprio e uma ética
própria: os traidores devem ser mortos, os desobedientes devem ser punido, às
vezes o exemplo é dado com o homicídio de crianças ou de mulheres. Mas esses,
para o mafioso, não são pecados, são as suas leis. Deus não tem nada a ver,
muito menos os santos padroeiros. O senhor viu a procissão de Oppido Mamertina?
"Eram milhares os participantes. Depois, a estátua de Nossa Senhora
das Graças parou na frente da janela do boss que está sob
custódia em prisão perpétua. Justamente, tudo isso está mudando e vai mudar. A
nossa denúncia das máfias não será feita de vez em quando, mas será constante.
Pedofilia, máfia: a Igreja, o povo de Deus, os sacerdotes, as comunidades,
dentre outras tarefas, terão essas duas questões muito principais."
* * *
Passou uma hora, e eu me levanto. O papa me abraça e me deseja que eu melhore o
mais rápido possível. Mas eu lhe faço ainda mais uma pergunta:
O senhor, Santidade, está trabalhando assiduamente para integrar a
catolicidade com os ortodoxos, com os anglicanos...
Ele me interrompe continuando: "Com os valdenses, que eu considero como
religiosos de primeira ordem, com os pentecostais e, naturalmente, com os
nossos irmãos judeus".
Pois bem, muitos desses sacerdotes ou pastores são regularmente casados.
Quanto esse problema vai crescer com o tempo na Igreja de Roma?
"Talvez você não saiba que o celibato foi estabelecido no século
X, isto é, 900 anos depois da morte de nosso Senhor. A Igreja católica oriental
tem a faculdade, desde já, de que os seus presbíteros se casem. O problema
certamente existe, mas não é de grande entidade. É preciso tempo, mas as
soluções existem, e eu as encontrarei.
* * *
Já estamos fora do portão de Santa Marta. Abraçamo-nos de novo. Confesso
que me comovi. Francisco acariciou minha bochecha, e o carro partiu.
(IHU On-line)