terça-feira, 14 de outubro de 2014

Falar claro, pois claro!


Falar claro, pois claro!

 

Falar claro é uma condição geral de base. Assume-o o Papa Francisco na saudação que dirigiu aos padres sinodais, no passado dia 6 de outubro, durante a primeira congregação geral da III assembleia geral extraordinária do Sínodo dos Bispos.

Sim, é uma condição de base em toda a relação interpessoal e no discurso público. Porém, falar claro e frontal não é sinónimo de faltar ao respeito, ser insolente ou brincar com coisas sérias. Mas é o contrário de mentir, dizer meia verdade, deixar de dizer as coisas com receio de ser mal entendido, ferir o interlocutor, pensar que não vale a pena, ter medo de represálias vir a sofrer o desemprego, perder um cargo ou mostrar falso respeito ante quem julgamos respeitável.

Tanto se degradam as relações familiares, grupais, sociais e profissionais com a afronta como com a ocultação da verdade. Se a afronta continuada leva à dissolução, a ocultação só adia os problemas. E quanto maior for o levantamento destes, mais difícil se torna a sua resolução.

Ocultar a verdade das situações, deixar de oferecer uma opinião em tempo necessário e oportuno é tão pernicioso como o excesso e mesmo a afronta. Quantos chefes engordam balofamente dentro do seu casulo, se degradam na sua gestão e cavam a sua ruína com a plêiade de aduladores que pensam que fazem bem (ou zelam o seu bem) com a ocultação da realidade! Isto acontece na empresa, na sociedade, no grupo de amigos, na política, nos meios eclesiásticos. Tão demolidora se torna a adulação como a intriga ou a conspiração. As três atitudes são inspiradas pelo diabo (vd Gn 3,1-13; 4,8; Mt 4,1-10; Mc 1,12-13; Lc 4,1-13; Jo 18,5; Ap 12,4).

Mas para falar claro, é necessário dispor de autoridade moral, que resulta do trabalho dedicado, da competência e da paciência, bem como da magnanimidade. Por outro lado, nas sociedades e na Igreja, o falar claro acontecerá se for estimulada e praticada a colegialidade e a sinodalidade.

Num órgão colegial, os seus membros não têm a função de dizer acriticamente ámen a tudo. Antes, cada um deve oferecer o seu contributo franco e respeitoso, disciplinado e generoso – oral ou escrito – e mesmo, quando oportuno, o silêncio colaborante. A obediência terá lugar, in fine, para as decisões a que solidamente se chegou e após a sua promulgação ou figura análoga, bem como em situação em que a urgência implique a necessidade da não discussão. O colégio é a presença conjunta, física ou virtual e a conjugação de ideias, opiniões e esforços – da parte daqueles que são chamados à matéria ou à ação.

A sinodalidade implica a disposição de caminhar em conjunto na corrida para a meta, na procura da verdade (sínodos é palavra grega derivada do prefixo sin, com + odós, caminho). Tal implica que surja quem puxe pelos outros e quem sugira a espera de quem tem dificuldades; haja palavras de ordem e palavras de aceitação e aclamação; haja momentos de pausa para reflexão, retemperação de forças e avaliação da caminhada; e haja momentos de celebração como de discussão franca. A sinodalidade implica a sinaxe (no grego, sin, com + áxis, eixo), ou seja, a reunião ou a rotação em torno de um eixo, que pode ser um líder, um objetivo, um fim. Só que o objetivo pode ser mantido ou redefinido, o fim tem de persistir e o líder pode ser substituído. Porém, enquanto estiver ao serviço (o líder vê ao longe, indica o caminho, mas é um servidor que serve guiando), ele vai à frente, no meio ou na retaguarda consoante a necessidade dos caminhantes.

***

Porém, o Papa Francisco dá um exemplo da magnanimidade sinodal. A par dos eleitos pelo conselho pós-sinodal (o relator e o secretário geral), também ele eleito pelos participantes no último sínodo, competia ao Pontífice designar os presidentes delegados para as congregações gerais e para a coordenação dos trabalhos. No entanto, ele solicitou ao próprio Conselho pós-sinodal que propusesse alguns nomes, e nomeou aqueles que o Conselho lhe propôs.

Francisco aproveita o ensejo par afazer uma necessária distinção de cariz doutrinal. Enquanto refere que os padres sinodais são transmissores ou porta-vozes das Igrejas particulares, reunidas a nível de Igrejas locais mediante as Conferências Episcopais esclarece que “A Igreja universal e as Igrejas particulares são de instituição divina; as Igrejas locais assim entendidas são de instituição humana”. Sim, o Papa é o sucessor do apóstolo Pedro e os bispos são os sucessores dos demais apóstolos – isto é de instituição divina. O sacro colégio dos cardeais ou toda a organização central em Roma e diplomática com os olhos de poder em todo o mundo ou a organização dos bispos em torno dos arcebispos (ou patriarcas) metropolitas ou em conferências episcopais é instituição humana, sujeita às limitações e suscetível de correção ou reforma.

No entanto, mesmo esta dimensão humana de organização é importante. “Esta é a voz que transmitireis em sinodalidade. Trata-se de uma grande responsabilidade: anunciar as realidades e as problemáticas das Igrejas, para as ajudar a percorrer aquele caminho que é o Evangelho da família.” – reconhece o Papa.

Ora, sempre, mas sobretudo quando se fala em representação da coletividade, é importante falar claro. O Papa Francisco chega ao ponto de suplicar: “Que ninguém diga: ‘Isto não se pode dizer; pensará de mim assim ou assim...’. É necessário dizer tudo o que se sente com parrésia.

E aduz um exemplo pertinente, não valendo como desculpa o “Sumus coram Pontifice”:

Depois do último Consistório (fevereiro de 2014), no qual se falou sobre a família, um Cardeal escreveu-me dizendo: é uma lástima que alguns Purpurados não tiveram a coragem de dizer certas coisas por respeito ao Papa, talvez julgando que o Papa pensasse de outra maneira. Isto não está bem, isto não é sinodalidade, porque é necessário dizer tudo aquilo que, no Senhor, sentimos que devemos dizer: sem hesitações, sem medo. E, ao mesmo tempo, é preciso ouvir com humildade e aceitar de coração aberto aquilo que os irmãos dizem. A sinodalidade exerce-se com estas duas atitudes.

 

Que sirva de exemplo a todos aqueles que se autoproclamam democratas, mas de quem a prática da democracia anda tão afastada! Bateu-lhe dizendo: respondes assim ao Pontífice? (Jo 18,22).

***

Entretanto, antecipando a temática do sínodo que ia ser inaugurado na manhã do dia seguinte, o seu discurso da vigília de oração, no dia 4 de outubro, constitui uma realista e forte interpelação.

“É a hora em que de bom grado se regressa a casa para se reunir à mesma mesa na consistência dos afetos, do bem feito e recebido, dos encontros que abrasam o coração e o fazem crescer, vinho bom que antecipa, nos dias do homem, a festa sem ocaso”.

 

Porém, algumas sombras, quase indeléveis, impendem agora sobre o mundo dos homens:

“Mas é também a hora mais pesada para quem se vê cara a cara com a própria solidão, no crepúsculo amargo de sonhos e projetos desfeitos. Quantas pessoas arrastam os seus dias no beco sem saída da resignação, do abandono, se não mesmo do rancor! Em quantas casas falta o vinho da alegria e, consequentemente, o sabor – a própria sabedoria – da vida!”

 

O Papa não esquece os anseios de cada pessoa, mesmo no contexto de uma cultura individualista ou até egoísta, que, entregue a si, teima no isolamento e pode levar ao desânimo:

É significativo como permanece viva, em cada nascido de mulher - mesmo na cultura individualista que perverte e torna efémeros os laços – uma exigência essencial de estabilidade, duma porta aberta, de alguém com quem tecer e partilhar a narração da vida, duma história a que se pertença. A comunhão de vida assumida pelos esposos, a sua abertura ao dom da vida, a defesa recíproca, o encontro e a memória das gerações, o acompanhamento educativo, a transmissão da fé cristã aos filhos... Com tudo isto, a família continua a ser escola incomparável de humanidade, contribuição indispensável para uma sociedade justa e solidária (cf EG 66-68). E quanto mais profundas são as suas raízes, tanto mais é possível singrar e chegar longe na vida, sem se extraviar nem se sentir estrangeiro em terra alguma.

 

 

Perante esta situação humana, define as condições da abordagem sinodal:

Para individuar o que o Senhor pede hoje à sua Igreja, devemos prestar ouvidos às pulsações deste tempo e sentir o ‘odor’ dos homens de hoje, até ficar impregnados  das suas alegrias e esperanças, das suas tristezas e angústias (cf. GS 1). Então saberemos propor, com credibilidade, o evangelho, a boa nova sobre a família.

 

Fundamenta no Evangelho a opção sólida por este dinamismo termo e misericordioso:

Há, no Evangelho, uma força e ternura capazes de vencer aquilo que cria infelicidade e violência. Sim, no Evangelho, há a salvação que cumula as necessidades mais profundas do homem! Desta salvação, obra da misericórdia de Deus e sua graça, somos, como Igreja, sinal e instrumento, sacramento vivo e eficaz (EG 112). Se assim não fosse, o nosso edifício não passaria dum castelo de cartas, e os pastores reduzir-se-iam a clérigos de estado, em cujos lábios o povo procuraria em vão o frescor e o ‘perfume do Evangelho’ (Ibid. 39).

 

Assim, enuncia três dons fundamentais a solicitar ao Espírito Santo para este sínodo: a escuta, a disponibilidade e a atitude de manter o olhar fixo em Cristo.

Primeiro:

Pedimos, antes de mais nada, ao Espírito Santo, o dom da escuta: escuta de Deus, até ouvir com Ele o grito do povo; escuta do povo, até respirar nele a vontade a que Deus nos chama.

 

Segundo:

Suplicamos a disponibilidade para um confronto sincero, aberto e fraterno, que nos leve a ocupar-nos, com responsabilidade pastoral, das interrogações que esta mudança epocal traz consigo. Deixemos que inundem o nosso coração, sem nunca perdermos a paz, mas com a serena confiança de que o Senhor não deixará, a seu tempo, de reconduzir à unidade. Porventura não nos fala a história da Igreja – como sabemos – de tantas situações análogas que os nossos pais souberam superar com obstinada paciência e criatividade?

 

Terceiro:

Se verdadeiramente pretendemos verificar o nosso passo no terreno dos desafios contemporâneos, a condição decisiva é manter o olhar fixo em Jesus Cristo, deter-se na contemplação e adoração do seu rosto. Se assumirmos o seu modo de pensar, viver e relacionar-se, não teremos dificuldade em traduzir o trabalho sinodal em indicações e percursos para a pastoral da pessoa e da família. Na verdade, todas as vezes que voltamos à fonte da experiência cristã, abrem-se estradas novas e possibilidades inimagináveis. Assim no-lo deixa intuir a indicação evangélica: ‘Fazei o que Ele vos disser’ (Jo 2,5). São palavras que contêm o testamento espiritual de Maria, ‘amiga sempre solícita para que não falte o vinho na nossa vida’ (EG 286).

 

E sintetiza, sob a égide de S. Francisco, o renovador da Igreja, a missão dos padres sinodais:

As três coisas – a nossa escuta e o nosso confronto sobre a família, amada com o olhar de Cristo – tornar-se-ão uma ocasião providencial para renovar, a exemplo de S. Francisco, a Igreja e a sociedade. Com a alegria do Evangelho, reencontraremos o passo duma Igreja reconciliada e misericordiosa, pobre e amiga dos pobres; uma Igreja capaz de ‘vencer, pela paciência e pela caridade, as suas aflições e dificuldades tanto internas como externas’ (LG 8).

 

É o escol da Igreja a refletir, circundado por uma enorme retaguarda de oração e de esperança, na busca, em aliança com o Espírito, da lucidez necessária para responder aos desafios de hoje.

2014.10.10

– Louro de Carvalho

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Dar Alma à Vida XXV


Dar Alma à Vida XXV

 

A vida aparece após a concepção. O zigoto é já uma “persona”, isto é, uma personalidade que tem só direitos a que os pais devem respeitar e a viver com alegria.

É o primeiro berço da vida de qualquer ser humano. Este é o berço de Deus e que Deus há-de dar-lhe com a colaboração dos pais. É uma Alma tão grande que vai para além do amor dos pais se desenvolve e  se pode aproxima do infinito amor de Deus.

Dar Alma à Vida é praticar a Caridade, é agir com a Bondade e a Misericórdia de Deus, é Amar, tolerar, respeitar e saber esperar, como uma mãe e o pai esperam o fruto do Amor.

Dar Alma à Vida é deixar-se iluminar pela Luz de Deus e segui-Lo como uma ovelha segue o seu pastor.

É transmitir o alimento necessário para que a Vida seja uma vida abundante. Esta abundância lhe dará Alma grande para Amar como Jesus mandou. Amar até ao fim e à medida do Seu Amor, medida exemplificada pela própria atitude de Jesus. Amar até ao fim.

  

Dia 13 de outubro – dia do peregrino


Dia 13 de outubro – dia do peregrino

 

É a primeira vez que se celebra o dia do peregrino, em consonância com a respetiva resolução da Assembleia da República, cujo teor, envolvência e alcance já tive ocasião de comentar. É natural que, muito embora não tenha sido, presumo-o, esta a intenção dos senhores deputados, o Santuário de Fátima dê relevo à efeméride e sinta a natural satisfação por ver também os seus inúmeros frequentadores munidos de um dia de especial referência.

Não sei mesmo se, quando o Parlamento se envolveu na matéria, não estava mesmo a assumir um quinhão significativo das funções do Estado. É certo que o Estado moderno ganha em democracia quando assume a sério as linhas da aconfessionalidade e da laicidade. No entanto, apraz-me a necessária clarificação. Essas linhas de sã democracia não podem significar guerra declarada ou surda às Igrejas ou às religiões, mas o estabelecimento da separação e autonomia entre o Estado e as Igrejas ou grupos religiosos, ou seja, o Estado não tem uma religião, mas a sociedade pode ter uma ou mais religiões (não tem, pois, de ela ser laica ou aconfessional). Por conseguinte, se o Estado está ao serviço da sociedade e da sua boa organização, não pode ignorar a sociedade com os seus legítimos anseios e justas aspirações. E, em matérias de interesse comum, o Estado deve suscitar e estar aberto à cooperação, sem a impor ou sem se intrometer. E, se quisermos adotar a dinâmica da laicidade positiva, o Estado deve, numa linha de igualdade de oportunidades e segundo critérios de representatividade e trabalho cooperativo, possibilitar que a sociedade civil desenvolva, em privado e na praça pública, os seus projetos, mesmo os de índole religiosa, incluindo a educação e o ensino, o acompanhamento da saúde e dos sistemas de ação social e da ação cultural. É a liberdade de pensamento, de expressão, de reunião, de associação e de manifestação.

Depois, os detentores de cargos públicos, sem incorrerem na tentação das misturas ilícitas, hão de estar livres para a expressão e prática da sua religião, se a tiverem.

No entanto, gosto de fazer uma referência às funções do Estado. É consensual que ao Estado competem fundamentalmente as atribuições no âmbito da defesa nacional (através das indústrias, serviços e comércio de defesa; das forças armadas; das academias militares e escolas práticas), da segurança pública, da administração do território. Compete-lhe, em suma, a organização política e administrativa da sociedade que ocupa o seu território. Para tanto, o Estado tem de definir os órgãos do poder soberano (legislativo, executivo/administrativo e judiciário), bem como os demais órgãos do poder político-administrativo, vulgo, os das autarquias (pessoas coletivas territoriais que visam o bem-estar das populações: as regiões, os municípios, as áreas metropolitanas e comunidades municipais e as freguesias). Quanto ao mais, parece que as sociedades não se dão bem com um Estado liberal (mero árbitro) ou com um estado totalitário (que chame a si todas as funções sociais, financeiras, económicas e logísticas). A sociedade nem pode andar entregue à lei do mais forte nem pode ser proibida de respirar.

Nestes termos, parece que, para lá das funções acima delineadas, cabem ao Estado os papéis de teleologia social (definir os grandes desígnios nacionais e as grandes metas, os principais conceitos estratégicos) de supervisão e regulação (nas áreas vitais da sociedade) e de promoção das atividades a que a sociedade civil não é capaz de prover (um papel de subsidiariedade). Depois, o Estado deve fazer aquilo a que se compromete constitucionalmente: no caso português, a saúde (um sistema nacional de saúde público, universal e tendencialmente gratuito), uma escola pública de qualidade, que assegure a educação e o ensino a todos, um regime de segurança social aceitável, que proteja todo o cidadão em situação de cessação definitiva ou temporária do trabalho e na velhice. E, se por necessidade ou contrato social, age como se fosse entidade privada, terá de cumprir todos os compromissos como os outros empregadores a nível salarial, impostos e segurança social, em termos de mutualidade e regime contributivo.

Para o bom desempenho das suas funções e para o bem-estar de todos, o Estado tem de criar meios de salvaguarda das liberdades, direitos fundamentais e garantias de todos os cidadãos, a nível pessoal, social, económico, cultural e político.

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O curioso é que o dia do peregrino vem ao encontro das funções do Estado numa linha de complementaridade. Eu explico-me. O Estado a se não cria médicos, advogados, gestores, enfermeiros, empresários, trabalhadores, famílias, turistas, emigrantes, refugiados, estudantes, professores, doentes, técnicos de contas, engenheiros, arquitetos, motoristas, economistas, comerciantes, sacerdotes, peregrinos… Quando muito cria alguns profissionais dos apontados nas suas escolas e academias, que têm de ser de qualidade. Não digo obviamente o mesmo sobre diplomatas, magistrados, militares e polícias, que estão umbilicalmente adstritos às funções de soberania. Não obstante, cabe ao Estado o papel de reconhecimento da existência das pessoas e grupos referenciados, como a de muitos outros. Assim, por exemplo, registam-se nascimentos, casamentos e óbitos; registam-se sociedades, associações e firmas; estabelecem-se dias do estudante, do professor, do trabalhador, do emigrante, do doente, do refugiado, do não fumador… Então, porque é que o Estado não há de reconhecer que existem peregrinos e até promover a criação de um dia a eles dedicado?

Depois, como faz com outras efemérides e reconhecimentos de situações, deixe as atividades e ações por conta da sociedade civil. No caso do peregrino, os grupos civis que o tratem como tal, como ele merece ou precisa. E as Igrejas, que os tratem de forma religiosa, se tal lhes aprouver.

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Sobre o sentido típico da peregrinação ao local mais conhecido de Portugal e um dos de maior referência mundial, também se afigura dizer algo de português e cristão. Está a decorrer (12 e 13 de outubro) a última peregrinação aniversária internacional do ano de 2014 ao Santuário de Fátima. É presidida por D. Filipe Neri Ferrão, arcebispo de Goa e Damão, da Índia. O tema da peregrinação é “Arrependei-vos, porque Deus está perto” (cf. Mt 3,2).

O bispo de Leiria-Fátima saudou a presença daquele dignitário católico, que acompanha na Índia comunidades que, apesar de já não serem colónias portuguesas, desde 1961, ainda hoje mantêm “relações afetivas” com Portugal.

Até ao dia 1 de outubro, estavam anunciados, junto do Serviço de Peregrinos do Santuário de Fátima, 100 grupos organizados de peregrinos, vindos de 20 países, como participantes nas celebrações da manhã do dia 13 de outubro: Rosário, na Capelinha das Aparições, às 9 horas, seguido, às 10 horas, de Procissão, Eucaristia com Bênção dos Doentes e Consagração a Nossa Senhora, e Procissão do Adeus, no Recinto de Oração. Em número mais expressivo, com o maior número de grupos inscritos, está a Itália (25 grupos), a Polónia (9), a Espanha (8), a Alemanha (7) e a França (7). Com o maior número de peregrinos está um grupo português, o “Grupo da Imaculada”, com 300 peregrinos.

O bispo de Leiria-Fátima, Dom António Augusto dos Santos Marto, sublinhou a especial “relevância” da peregrinação aniversária internacional de 13 de outubro deste ano marcada por várias iniciativas com destaque para o Sínodo dos Bispos sobre a Família (de 5 a 19) e a beatificação do Papa Paulo VI, a 19 de outubro na Praça de São Pedro durante a concelebração eucarística de encerramento do Sínodo, presidida pelo Papa Francisco. O prelado fatimita conta que os peregrinos adiram em força ao apelo de Francisco no tocante à oração pelo bom êxito do Sínodo, até porque “Fátima nunca pode estar desligada dos grandes acontecimentos da Igreja”, bem como das grandes intenções dos Sumos Pontífices.

Quanto à beatificação de Paulo VI, que ficou ligado a Fátima por ter oferecido ao Santuário a “Rosa de Ouro”, no termo da 3.ª sessão do Concílio Vaticano II, a 21 de novembro de 1964, D. António Marto destaca o significado que aquela cerimónia terá para o Santuário, recordando que Paulo VI foi “o primeiro Papa a visitar Fátima”, a 13 de maio de 1967, no cinquentenário das aparições. E fê-lo, recordo-me, prescindindo de todo o aparato político que lhe era devido como Chefe de Estado do Vaticano. Esse fora prestado ao seu legado a latere, o cardeal Dom José da Costa Nunes, então patriarca emérito das Índias Orientais.

Quanto a Paulo VI, que preferiu ser hóspede do Bispo de Leiria, veio de Roma, no próprio dia 13 de maio de 1967, num “caravela” da Força Aérea Portuguesa, sobrevoou o recinto de Fátima, que o saudou com uma multitude de lenços brancos, aterrou na Base Aérea de Monte Real onde foi recebido pelo Presidente da República, que proferiu um pequeno discurso de boas vindas, fez o percurso para Fátima em automóvel, com paragem em Leiria onde lhe foram entregues as chaves da cidade. Presidiu às celebrações na Cova da Iria e teve vários encontros com grupos significativos a nível religioso e diplomático, tendo regressado a Monte Real a e a Roma à tardinha pelos mesmos meios de locomoção. Afirmou-se como peregrino de Nossa Senhora, a quem rezou em prol da unidade da Igreja e da paz no mundo.

Por seu turno, o reitor do Santuário, Padre Carlos Cabecinhas, declarou que “a notícia da beatificação do Papa Paulo VI é motivo de grande contentamento para toda a Igreja, pois Paulo VI vem enriquecer o número daqueles cristãos que viveram de forma exemplar o seu seguimento de Cristo”. E especificou que “Paulo VI foi o grande artífice da continuação dos trabalhos do Concílio Vaticano II e o grande obreiro da aplicação da obra conciliar à vida da Igreja”. O padre Cabecinhas acentua, ainda, que “é de todos conhecida a grande devoção mariana deste Papa, mas também as muitas vezes, no seu magistério pontifício, em que se referiu a Fátima ou se dirigiu aos devotos de Nossa Senhora de Fátima”.

Efetivamente, além da homilia que proferiu em Fátima, fez publicar, no próprio dia 13 de maio de 1967, a exortação apostólica “Signum Magnum”, consagrada ao culto da Virgem Maria, Mãe da Igreja e Modelo de todas as virtudes. Demais, publicou ainda duas exortações apostólicas de teor mariano – a “Recurrens Mensis October”, a 7 de outubro de 1969, sobre a recitação do Rosário; e a “Marialis Cultus”, a 2 de fevereiro de 1974, para a reta ordenação e desenvolvimento do culto à Bem-aventurada Virgem Maria. Mas também publicou duas encíclicas sobre a devoção mariana: a “Mense Maio”, de 29 de Abril de 1965, a propor a devoção mariana, em especial a recitação do rosário pelo êxito do Concílio Vaticano II e pela Paz no mundo; e a Christi Matri, de15 de setembro 1966, sobre os especiais testemunhos de piedade a tributar à Bem-aventurada Virgem Maria.

Porém, o bispo de Leiria-Fátima não deixa de lembrar que a beatificação de Paulo VI tem ainda a coincidência de acontecer num momento em que a Cova da Iria está empenhada na preparação do centenário das aparições de Nossa Senhora, em 2017. E destaca, em paralelo com estes eventos, três efemérides que dão outra envolvência à peregrinação aniversária de outubro: “a comemoração do centenário da Primeira Grande Guerra, os 75 anos da Segunda Grande Guerra e os 25 anos da queda do muro de Berlim – acontecimentos históricos a que está associada a mensagem de Fátima”.

Como se vê, tanta coisa para que o 13 de outubro marque a memória dos cristãos e também dos portugueses em geral. O peregrino tem muito por onde peregrinar espiritualmente.

2014.10.12

Louro de Carvalho

domingo, 12 de outubro de 2014

AGENTES PASTORAIS ASSASSINADOS EM 2013


Texto: Agência Fides
 
 
“homens e mulheres sacrificaram a vida para permanecer fiéis a Jesus Cristo, ”
 
“homens e mulheres sacrificaram a vida para permanecer fiéis a Jesus Cristo, ”
Informações apuradas pela Agência Fides indicam que em 2013 foram mortos no mundo 22 agentes pas­torais, quase o dobro em relação ao ano precedente, quando se registra­ram 13 mortes. Na noite entre 31 de dezembro de 2013 e 1.° de janeiro de 2014, foi assassinado pe. Eric Freed, pároco em Eureka, na Califórnia: a polícia está investigando para escla­recer as causas do homicídio.
Em 2013, morreram de modo vio­lento 19 sacerdotes, 1 religiosa, 2 lei­gos. Dividindo este número por con­tinentes, na América foram mortos 15 sacerdotes (7 na Colômbia, 4 no México, 1 no Brasil, 1 na Venezuela;
1 no Panamá e 1 no Haiti); na África foram mortos 1 sacerdote na Tan­zânia, 1 religiosa em Madagascar, 1 leiga na Nigéria; na Ásia foram assas­sinados 1 sacerdote na índia e 1 na Síria; 1 leigo nas Filipinas. Na Europa, 1 sacerdote foi morto na Itália.
Em 2013, foi aberto o processo de beatificação das seis missionárias italianas das Irmãs Pobrezinhas de Bergamo, mortas no Congo em 1995 depois de contrair o vírus ebola. Por sua vez, concluiu-se a fase diocesana do processo de beatificação de Luisa Mistrali Guidotti, integrante da Asso­ciação Feminina Médico Missioná­ria, assassinada em 1979 na então Rodésia enquanto acompanhava ao hospital uma gestante. Enfim, abriu- -se o caminho para a beatificação do padre Mario Vergara, missionário do Pontifício Instituto das Missões no Exterior (PIME), e do catequista leigo Isidoro Ngei Ko Lat, mortos em ódio à fé em Mianmar, em 1950. No dia 25 de abril, foi celebrada a beati­ficação de pe. Pino Puglisi.
É ainda preocupante a situação de numerosos outros agentes pasto­rais seqüestrados ou desapareci­dos, como os três sacerdotes con- goleses Agostinianos da Assunção, seqüestrados no Kivu do Norte, na República Democrática do Congo em outubro de 2012, e de um sacer­dote colombiano desaparecido há meses. Enquanto isso, o tremendo conflito que está manchando de san­gue há três anos a Síria não poupa os cristãos: há tempos não se têm notícias do jesuíta italiano pe. Paolo DalTOglio, dos dois Bispos metropo- litas de Aleppo - o greco-ortodoxo Boulos al-Yazigi e o sírio-ortodoxo Mar Gregorios Yohanna Ibrahim, das irmãs ortodoxas do mosteiro de Santa Tecla. E justamente nas últi­mas horas, foi libertado pe. Geor- ges Vandenbeusch, sacerdote “Fidei Donum” francês seqüestrado em 13 de novembro em sua paróquia de Nguetchewe, em Camarões.
Como destacou o Santo Padre Fran­cisco, «em dois mil anos, uma imensa fileira de homens e mulheres sacrifi­caram a vida para permanecer fiéis a Jesus Cristo e a seu Evangelho» (Angelus de 23 de junho de 2013).
«Pensamos em muitos irmãos e irmãs cristãos que sofrem persegui­ções por causa de sua fé. São muitos. Talvez mais do que nos primeiros séculos. Jesus está com eles. E tam­bém nos unimos a eles com a nossa oração e o nosso afeto. São nossos irmãos e irmãs que em várias partes do mundo sofrem por serem fiéis a Jesus Cristo” (Papa Francesco, Ange­lus de 17 de novembro de 2013). •
Texto escrito ao abrigo do A.O.L.P. de 1990

 

Formação Missionária (V)




Texto: Frei Álvaro Silva, OFivi
     
O Amor é o princípio 0  fim da nossa Missão
 
Construção do Reino de Deus
A missão franciscana é para o mundo, mas ao mesmo tempo ela acontece no coração de todos os seguidores de Francisco de Assis, como podemos ver numa leitura atenta da Paráfrase do Pai Nosso, onde nos é sugerida uma ‘acção contemplativa e uma con­templação activa’ (PN 2-3).
A missão para Francisco não é expan­são territorial ou reconquista de Jerusa­lém, mas construção do Reino de Deus no coração de cada homem. A nossa missão consiste em levar todos os povos a Deus e Deus a todos os povos. O amor é o princípio e o fim da nossa missão.
Testemunho até ao martírio
A vida exemplar do missionário é já ela um conteúdo da missão, ciya primeira forma é o testemunho de vida ou a «proclamação silenciosa do Reino de Deus» (Cf. CCGG 89,1).
O franciscano missionário não é cha­mado em primeiro lugar a proselitismo, mas a viver o mistério de Cristo e a testemunhá-lo aos homens com a própria vida A simples presença, o testemu­nho de vida, sem nenhuma imposição é o que a sensibilidade contemporânea prefere.
O «missionário-testemunho», como São Francisco pensou na IR 16, não é aquele que demonstra com argumentos a verdade do Reino de Deus. É o que a mostra com a vida, tomando visível na sua vida a Vida d Aquele que o envia A vocação do missionário franciscano é de atrair os homens a Deus, mais do que convencê-los da existência de Deus.
O que atraía as multidões não era o saber e a eloquência de Francisco de Assis, recorda Tomás de Celano na Vida Primeira; mas quem o via e ouvia dava-se conta de que estava diante de um homem cheio de Deus (Cfr. lC 36 e 82).
A nossa história recente está mar­cada pelo luminoso testemunho dos mártires. Só no século XX tivemos 86 mártires missionários franciscanos, a maior parte foram vítimas do regime comunista na China Continua a ser importante para nós a espiritualidade do martírio.
Escreveu João Paulo II no n.° 7 da Aforo Millennio Ineunte: a memória dos mártires «é uma herança que não se deve perder, e que se há-de transmitir para um perene dever de gratuidade e um renovado propósito de imitação».
O primeiro anúncio do Evangelho
Um outro conteúdo da missão fran­ciscana é a PALAVRA «quando for do agrado do Senhor anunciem a Palavra de Deus» (IR 16,8). É o que nos recorda o Papa João Paulo II no n.° 44 da Redemptmis Missio: «O anúncio tem a prioridade permanente, na missão: a Igreja não pode esquivar-se ao mandato explícito de Cristo, não pode privar os homens da “Boa Nova” de que Deus os ama e salva» E também o Papa Paulo VI na Evangelii Nuntiandi recordava no n.° 25: «Dar testemunho de que no seu Filho ele amou o mundo; de que no seu Verbo Encarnado ele deu o ser a todas as coisas e chamou os homens para a vida eterna». O primeiro anún­cio é sempre necessário e em qualquer parte.
Francisco de Assis dirigia-se ao povo com breves e simples palavras, con­vidando à penitência, à conversão, à reconciliação, à paz e ao amor de Deus.
Plantatio et Aedificatio da Igreja e do Carisma franciscano, como dom do Espírito à própria Igreja
Este é outro objectivo da nossa Ordem. A edificação da Igreja onde ainda não existem estruturas ordinariamente estabelecidas, como: prelaturas apos­tólicas, prefeituras apostólicas, vigariatos apostólicos que possam susten­tar a Igreja Local Mesmo que pobre, pequena, insuficiente ou em formação de uma comunidade em crescimento. Como nos recordava o Concilio Vati­cano D no n.° 2 Decreto Ad Gentes, e como João Paulo II, também dizia no n.° 48 da RM: «A missão ad gentes tem este objectivo: fundar comunidades cristãs, desenvolver Igrejas até à sua completa maturação».
O Espírito Santo deu os carismas à Igreja, entre os quais se encontra o carisma franciscano. Assim devemos contribuir para a fundação ou cresci­mento da Igreja Local, oferecendo o carisma de São Francisco de Assis a essas jovens Igrejas, o oferecendo o carisma de S. Francisco de Assis a essas jovens igrejas.


 

Figuras Missionárias

Figuras Missionárias, por António Castro,OFM
 
"Aqui conquistou muitas simpatias, pelo trato simples, afável e que caraterizava a sua pessoa,”



Embora mais ou menos já esperada, a notícia buliu cá no meu íntimo quando, na manhã do dia 9 de setem­bro, chegou a comunicação de que há poucas horas, na Enfermaria Pro­vincial do Seminário da Luz, em Lis­boa, falecera este irmão franciscano, o Frei Antônio Couto, que cativava qualquer pessoa que dele se abei- rasse.

Nascera a 3 de junho de 1924 na fre­guesia de Carvoeira, não longe de Torres Vedras. Desde bem cedo se deixou enamorar pela maneira de ser e estar dos filhos de S. Francisco, que viviam no Convento de Varatojo, onde viria a passar bastantes anos da sua vida de franciscano, embora a maior parte fosse em países de mis­são, em atitude de partilha de fé, ao serviço dos mais necessitados.

Após o Noviciado no Convento de Varatojo, e a profissão de votos tem­porários no dia 15 de agosto de 1952 e de votos solenes em 1956, não demorou muito que não rumasse para outras bandas, como missioná­rio. Assim, em 1957 encontramo-lo já em Moçambique, onde ficou bem vin­cada a sua ação na Missão da Barada durante os 17 anos em que lá per­maneceu. Quem com ele conviveu deixou escrito a seu respeito: “Com persistência e competência, prestou os mais variados serviços: agrícolas, administrativos e pastorais. Foi pre­cioso colaborador dos superiores que passaram pela missão, pela sua inteli­gência, conhecimento dos homens e das coisas, sentido da vida fraterna e dedicação ao bem da missão”.

Regressado à terra lusa em 1974, decorridos 2 anos vemo-lo já a cal­correar outros caminhos, agora rumo ao Oriente, para a Terra Santa. Por lá andou, peregrino por vários santuá­rios, a todos acolhendo com afabili­dade, enriquecido com a experiência que pouco a pouco vai tendo dos locais onde é colocado. Vários pere­grinos, idos de Portugal e de outros países durante esses 16 anos de per­manência na Terra de Jesus, tiveram o privilégio de por lá o encontrarem e também eles se enriquecerem com tudo o que do Fr. Couto foram rece­bendo. E foram vários os santuários onde o nosso Frei Couto marcou presença: além de Errfermeiro-mor na Enfermaria da Custódia da Terra Santa em Jerusalém, foi passando por Getsémani, Nazaré, Tabor, Betfagé...

Regressado a Portugal em 1992, é em Varatojo que então se começa a sentir a sua presença, com o ofício de por­teiro. Aqui conquistou muitas simpa­tias, pelo trato simples, afável e aco­lhedor que caraterizava a sua pessoa E com os seus sábios conselhos, como verdadeiro “diretor espiritual”, mui­tos qjudou a refletir talvez em passos mal andados. Sempre o encontráva­mos ocupado, quanto mais não fosse a encadear terços com as contas que trouxera da Terra Santa, trabalho que continuou na Enfermaria Provincial quando, por motivos de saúde, se viu forçado a deixar o “seu” Varatojo em 2008. Na Enfermaria Provincial o visi­tei diversas vezes, nos últimos tempos pensando já no “encontro” com a Irmã Morte, que mansamente o veio visitar.

No dia do funeral, na paróquia onde nascera, teve a seu lado todos os irmãos franciscanos disponíveis da Fraternidade de Varatojo e não só. Significativo também o testemunho do P. José Manuel da Silva, torreense de origem, ao lembrar nessa hora da despedida o que de outros ouvira quando, antes de ingressar na Ordem Franciscana, à noitinha, o Fr. Couto tinha o costume de tocar o sino lá na sua aldeia, reunindo outras pessoas e com elas louvar Maria com a recitação do terço. O P José Manuel trouxe ainda o testemunho do Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, que, não podendo comparecer devido a compromissos inadiáveis já assumidos, quis desta foima assinalar a sua presença. •

Texto escrito ao abrigo do A.O.LP. de 1990

sábado, 11 de outubro de 2014

Melhor do que dizer o que é a Igreja para nós será perguntar à Igreja sobre o que ela? diz de si mesma.


1. Quando a palavra Igreja chega aos nossos lábios, é provável que três coisas lhe estejam associadas na nossa mente: lu­gares, figuras e estruturas.

São referências que povoam o imaginário e se entranham no discurso.

2.    Para muitos, a Igreja é, antes de mais, o local de culto.

Neste sentido, Igreja serão sobretudo as igrejas.

3.    A Igreja é igualmente compreendida como os seus membros.

Mas quem são os membros da Igreja? O conjunto dos fiéis ou algu­mas das suas figuras?

4.    Ainda há quem pense que dizer Igreja é dizer hierarquia. Ainda há quem julgue que a Igreja são os padres e os bispos.

Afinal, ainda não se percebeu que na Igreja não se entra pelo sacra­mento da Ordem, mas pelo sacramento do Baptismo.

5.    Não espanta, pois, que a Igreja tenda a ser vista não como ela é, mas como nós a vemos.

Assim, quando se diz Igreja, pensa-se especialmente no sistema ecle­siástico. O qual, com frequência, surge mais como embaraço do que como apoio. Mais como sombra do que como facho de luz.

6.    A estrutura tem importância na Igreja, mas não constitui o mais importante da Igreja.

Por conseguinte, melhor do que dizer o que é a Igreja para nós será perguntar à Igreja sobre o que ela diz de si mesma.

7.    Foi o que fizeram os cardeais Montini e Suennens no Concilio Va­ticano II: «Igreja, que dizes de ti mesma?»

Na sua gênese, a Igreja não está polarizada no sistema eclesiástico, mas em Deus e no Povo: no Deus do Povo e no Povo de Deus.

8.    Acontece que quando se fala de Igreja, muitos não pensam no Povo nem em Deus.

Não falta até quem alegue que a Igreja está distante do Povo e nem sequer está próxima de Deus.

9.    Só que isso não é aquilo que a Igreja é. Quando muito, será aqui­lo em que a Igreja se pode tornar.

A Igreja é muito mais que o sistema eclesiástico. A Igreja é a propos­ta de Deus ao Povo. E há-de ser a resposta do Povo a Deus.

10.    Não encolhamos a Igreja. Não nos encolhamos em Igreja. Abra- mo-nos em Igreja a Deus. E abramos a Igreja ao Povo.

Mais oração e mais missão, eis do que precisamos. Enfim, deixemos que a Igreja seja Igreja!

P. Melhor do que dizer o que é a Igreja para nós será perguntar à Igreja sobre o que ela diz de si mesma.
in DM de um teólogo