domingo, 21 de dezembro de 2014

Papa Francisco: nunca expulsar crianças que choram na igreja

Religião

Papa Francisco: nunca expulsar crianças que choram na igreja

O Papa visita uma paróquia de Roma e fala sobre a infância e o Natal

 
Pope Francis at audience kissing baby dressed as pope_ © ServizioFotograficoOR / CPP
O Papa Francisco afirmou que “o choro da criança é a voz de Deus”.

“As crianças choram, fazem barulho em todos os lugares. Mas nunca podemos expulsar as crianças que choram na igreja”, completou.

Falando de maneira improvisada, segundo o jornal romano “Il Messaggero”, o Papa recordou que, quando alguém se sente incomodado ao ver uma criança chorando na igreja e pede que ela seja retirada, está apagando a voz de Deus. Segundo Francisco, o choro das crianças “é a melhor pregação”.

Falando com a simplicidade de um pároco, o Papa recordou o que Jesus disse: “Deixai que as crianças venham a mim e não as impeçais, porque o Reino dos céus é daqueles que se assemelham a elas” (Mt 19, 14).

O contexto é significativo: o Papa visitou a paróquia de São José, na periferia de Roma, no dia 14 de dezembro.

Assim, o Bispo de Roma responde à tão comum situação de constrangimento dos pais nas missas de domingo, pois, se por um lado não querem perder a missa, por outro, não sabem com quem deixar seus filhos pequenos; muitos acabam deixando de ir à igreja para não receber olhares acusadores de outros fiéis.

O Papa Francisco recordou que o Natal é das crianças. E recordou aos adultos a alegria do significado profundo do nascimento de Jesus em um presépio.

O Natal não é só a ceia

A glória do Natal não se reduz a uma ceia pomposa, recordou o Papa durante a visita à paróquia.

Sem um texto preparado, acrescentou: “Mas, padre, nós fazemos uma grande ceia... Isso é ótimo, mas esta não é a verdadeira alegria cristã. A Igreja quer fazer entender o que é a verdadeira glória. Não podemos chegar ao dia 24 de dezembro dizendo que falta isso, falta aquilo... Esta não é a verdadeira glória cristã”.

O Papa se encontrou com crianças, jovens catequistas, ciganos e doentes. Nesta mesma visita, ele confessou 5 paroquianos. No final, celebrou a santa missa na paróquia romana sem apagar a voz de Deus: as crianças.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Dar Alma à Vida XXXII



          
Dar Alma à Vida
 
É ser Profeta de Deus por vocação e missão. É ser “ungido do Senhor” onde o Espírito de Deus move, tudo e em todos, impelindo para a missão.
 

Dar Alma à Vida é anunciar a Graça de Deus, a Liberdade Interior e Servir a palavra com Espírito de Missão; anunciar a “Boa Notícia”, a curar os corações feridos, a anunciar o perdão e a Graça de Deus.

Dar Alma à Vida é fazer com que os outros se sintam interpelados a restituir a liberdade e todos os bens  aos cativos.
  
 

Dar Alma à Vida é criar a esperança aos pobres de que podem ser ricos e que, pelo facto de serem desprezados na sua dignidade, nos bens e deixados à  sua miséria, humilhados na sua dignidade e direitos são os preferidos de Deus e, pelos quais, Deus tem especial ternura... porque está ao lado dos fracos.
 

Dar Alma à Vida é fazer que a Vida do Pobre se torne rica, generosa, humilde e com fé a sobreviver ainda que seja estendendo a mão para receber, ou abrindo o seu coração para dar.

Dar Alma à Vida é anunciar que um tempo novo há-de chegar em que os pobres brilharão que as estrelas do céu e os poderosos ofuscados pela sua sombra, à vezes, com os poderes que foram roubados aos mais carentes de bens que as novas sementes farão germinar e as suas joias e vão trazer uma nova felicidade, resultado desta acção salvadora de Deus da mulher e do homem, fruto mais belo da sua criação.
                                                        

(Cf. o livro dos Num, Lev, Ex. e Deut.). P. Coutinho
 

Kristina Pimenova e o valor da infância

Kristina Pimenova e o valor da infância

“Crianças adultas” para uso e consumo


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Kristina Pimenova K.Pimenova / Facebook
Kristina Pimenova é modelo fotográfica. Já foi capa da Vogue e emprestou seu roto angelical a estilistas do calibre de Armani, Roberto Cavalli e Dolce & Gabbana. Tudo aparentemente normal, se não fosse pelo fato de Kristina ter apenas 9 anos e trabalhar desde os 3.
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Dois milhões de seguidores

Sobra dizer que a menina modelo faz muito sucesso nas redes sociais: sua página no Facebook tem mais de 2 milhões de seguidores e sua conta no Instagram, 315 mil; todos os dias aparecem fotos novas suas, profissionais ou “roubadas” de momentos da sua vida cotidiana.

Críticas e preocupações

Dada a sua exposição social e midiática, seu caso não passou inadvertido: apesar de o seu perfil no Facebook declarar que a menina não posta as fotos de maneira autônoma e que os conteúdos são cuidadosamente filtrados e administrados pelos seus familiares, há muitas críticas.

Alguns questionam as atitudes que a menina modelo deveria assumir frente aos objetivos fotográficos: olhares intensos e poses sutilmente provocantes.

Há quem se pergunte se tudo isso não terá lhe tirado a alegrai da infância. Outros, no entanto, argumentam que os comentários sexistas postados em algumas de suas fotos correm o risco de criar traumas na menina, a longo prazo.

Sem esquecer os que enfrentam o tema da pedopornografia online: a exposição excessiva de Kristina não corre o risco de alimentar pulsões, muitas vezes obscuras, que se movem na internet?

Tranquilidade dos pais

Os pais da menina não parecem preocupados: “Kristie começou sua carreira aos 3 anos de idade – explica sua mãe, Glikeriya no Facebook; aonde quer que íamos, as pessoas me diziam que ela era adorável e me sugeriam que ela fosse modelo. Decidi tentar e ela achou divertido, sobretudo as passarelas e os espetáculos de moda. Desde então, para ela, é uma diversão, e adora cada minuto do que faz”.

Valor da infância

O tema das “crianças adultas” é muito atual, e a associação de espectadores AIART oferece uma interessante reflexão a respeito disso, em um comentário conclusivo da última edição de “Deixo-lhe uma canção”:

“Se o desafio é entre canções e não entre cantores, resta o triste espetáculo de ‘crianças travestidas de cantores’, comprometidas em grotescas imitações dos adultos.

Se os valores típicos da infância são a ingenuidade e a espontaneidade, como conciliá-los com o desafio de viver como famosos, sob os holofotes, observados por todos, criticados e julgados, expressando certas atitudes, posturas e modulações de voz, com uma maquiagem que não pertence à sua idade?

A diferença entre as crianças e os adultos se dissolve no mar da homologação no mundo adulto, com suas emoções e tensões amorosas; e para uso e consumo disso, buscam audiências com uma total ausência deste aspecto lúdico e relaxado tão característico do mundo das crianças.

Assistimos a uma crescente tendência à “adultização” da infância, equivalente quase à regressão às formas exibidas da juventude, incentivadas e recriadas artificialmente pelos cinquentões e sessentões. Estamos em um período histórico no qual se foge da idade.”

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Medura ---MEDIDA --- LINGUAREJAR


 LINGUAREJAR


Medura – Não existe, mas deve ter a ver com medida em português arcaico. Esta palavra é usada ainda na zona de Viana.

 
Ouvi ontem a pessoa de uma aldeia da Ribeira Lima dizer que “medura pequena” de 10 sacos de azeitona e cada saco pesa cerca de 30Kgs.

Assim dez sacos de “medura pequena” azeitona pequena ou meia seca corresponde a cerca de 300Kgs e que dá cerca de 20 litros já maquiado, isto é, limpos sem pagamento para o azeiteiro, o dono do lagar do azeite onde é transformada a azeitona em azeite.
 

 
Tudo depende da azeitona pequena e seca, ou grande e seca, ou então, azeitona bojuda, isto é, com mais corpo e não seca.
 

Assim cada  medura pode dar mais ou menos azeite.

No mesmo dia também tive conhecimento por um amigo que o ex-comandante do Porto de Viana, Alberto da Conceição Gomes, ao chegar a Viana e ao descobrir palavras da vida do mar muito diferentes que nunca ouvira fez um apanhado e publicou “Gírias, palavras que no mar se entendem” publicada pelas Edições Culturais do Mar.

Conheci nesta altura o “langona” uma palavra para significar um homem molengas, de não muita confiança em que não se dá grande importância: “é um langona”, isto é, não vale muito, pouco interessa, mas faz número

Ao dar-me esta nota o meu amigo também ligado ao mar me informou que langona também, noutros sítios, chamam a outra coisa biológica bem diferente

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Condecorado aos 105 anos o homem que salvou 669 crianças – e não sabia delas


 




Nicholas Winton recebe a condecoração das mãos de Milos Zeman, o presidente da República Checa.
Sir Nicholas Winton no Castelo de Praga em 2007

Nicholas Winton, o inglês que salvou mais de 600 crianças dos nazis no início da Segunda Guerra Mundial, foi condecorado na República Checa com a mais alta honraria do país – a Ordem do Leão Branco.

Winton, de 105 anos, tinha apenas 29 quando eclodiu a Guerra em 1939.

De visita à Checoslováquia com um amigo, Winton conseguiu arranjar oito comboios e transportar 669 crianças – a maioria delas judias – para fora do país .

As crianças foram conduzidas para Inglaterra e para a Suécia, onde ficaram livres da acção dos nazis.

76 anos depois, o britânico participou esta terça-feira numa cerimónia, no Castelo de Praga, onde recebeu a Ordem do Leão Branco, das mãos de Milos Zeman, o presidente da República Checa.

No seu discurso, Winton agradeceu aos britânicos que aceitaram receber as crianças em sua casa.

“Quero agradecer a todos os que arranjaram espaço nas suas casas para acolher as crianças”, disse Winton, “e fico muito contente por algumas delas ainda estarem aqui para me agradecer.”

BBC


Nicholas Winton recebe a condecoração das mãos de Milos Zeman, o presidente da República Checa.

Schindler britânico

A missão notável do homem muitas vezes chamado de “Schindler britânico” só se tornou conhecida nos anos 80.


 


Mas tudo começou em 1938, após a ocupação nazi da região dos Sudetos. Depois de visitar os campos de refugiados de Praga, Winton decidiu ajudar as crianças a obter residência em Inglaterra – e fazer com que lá chegassem.

Winton, na altura um corretor da bolsa em Londres, vinha de uma família judia alemã, pelo que estava bem consciente da urgência da situação.

“Eu sabia o que estava a acontecer na Alemanha. Estava consciente do problema, mais do que muita gente e, com certeza, mais do que os políticos”, contou Winton à BBC.

Winton conseguiu encher 8 comboios com crianças judias e fazê-las sair da Checoslováquia, pouco antes de a Guerra eclodir.

Mas um 9º comboio, ainda mais cheio – com 250 crianças – não conseguiu cruzar a fronteira antes do conflito tomar conta do país. Nenhuma das crianças sobreviveu.

Winton não contou a ninguém o que tinha feito, e o seu gesto ficou desconhecido durante 50 anos – até que nos anos 80 a sua mulher Grete descobriu um velho livro com os nomes e as fotos de todas as crianças.

E um dia, sem que soubesse, as crianças estavam sentadas ao seu lado

Desde que a sua história se tornou conhecida, Winton recebeu várias homenagens: do governo checo,  da rainha de Inglaterra, do antigo presidente americano George W. Bush.

Mas a mais comovente homenagem que Winton recebeu veio dos que um dia salvou da morte certa.

Espalhadas por vários países, as 669 crianças salvas por Winton cresceram, sem ter notícias do seu benfeitor. Tornaram-se escritores, engenheiros, biólogos…

Em 1988, um programa da BBC encheu um auditório para fazer uma homenagem a Winton.

A apresentadora começa por lhe dizer que a mulher sentada ao seu lado era uma das crianças que ele tinha salvo.

O que Winton não sabia é que no auditório, completamente cheio, estavam as crianças sobreviventes.

A apresentadora pede então a todos os presentes a quem Winton tivesse salvo a vida, que se levantassem.

O agradecimento vem em forma de aplausos demorados, lágrimas, e uma palavra apenas: obrigado.

 

 

 

 

 

 

O terço da divina misericórdia e a conversão da minha avó

O terço da divina misericórdia e a conversão da minha avó

A idosa ganhava a vida lendo cartas, temendo a morte e era incapaz de rezar: sua neta Violetta decidiu agir


tarot © Bea Requejo
Violetta é uma jovem alemã de 20 anos que tinha um carinho especial pela sua avó. Além do amor natural, ela tinha uma razão a mais para gostar da avó: “Ela sempre foi boa conosco, defendia a mim e aos meus irmãos do nosso pai, que batia em nós”, recorda a jovem. Era algo além da proteção física, porque ela também os alimentava.
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Como? “Ao longo de quase toda a sua vida, ela se dedicou a ler cartas para ganhar dinheiro. O benefício que tirava disso era que assim podia nos sustentar”, conta a moça.

Violetta é católica, assim como sua avó (pelo menos formalmente), mas a idosa, aos 88 anos e ainda gozando de boa saúde, não ia à Igreja: “Não me lembro de tê-la visto rezar ou ir à missa”.

Uma “fada boa” incapaz de rezar

Isso torturava sua neta, que tinha boa formação cristã. “Infelizmente, ela parecia ser uma 'fada boa', então muita gente a procurava para que ela adivinhasse seu futuro. Quando eu era pequena, achava que tudo isso era normal, não era consciente de que ler cartas é pecado e poderia trazer muitas desgraças”, conta Violetta.

Quando a senhora começou a ter os problemas de saúde próprios da sua idade, mudou-se para a Polônia para morar com sua filha, mas isso não mudou sua aversão à religião, aparentemente incompreensível.

Ela não via sentido na oração nem na missa. “Até quando meu avô morreu, no ano passado, ela nem foi à missa dele.” Às vezes, ela reconhecia que havia “algo” que a assustava e que tinha medo da morte, mas era incapaz de rezar. “Minha mãe queria chamar um padre para confessá-la, mas, como ela não queria saber nada disso, esta opção não existia.”

“Eu mesma me lembrava sempre da minha avó em minhas orações e pedia a Jesus que tivesse misericórdia dela, que lhe desse a graça de poder confessar-se e receber seu perdão antes de morrer", explica Violetta.

Para casos especiais: terço da divina misericórdia

Vendo que nada mudava, no final do mês de agosto, a jovem decidiu rezar o terço da divina misericórdia durante o mês de setembro.

No dia 22 de setembro, recebeu um telefonema: a idosa havia sido levada de ambulância ao hospital, devido a um infarto, e estava internada: “Eu fiquei horrorizada, imaginando que minha avó poderia não ter tempo de se reconciliar com o Senhor, mas logo depois ficamos sabendo que ela havia melhorado de saúde”.

Violetta intensificou sua oração do terço da divina misericórdia, pedindo a Jesus que sua avó não morresse naquele estado: “Eu suplicava e chorava... Pedia a Jesus que lhe mostrasse sua misericórdia e que visse as coisas boas que ela tinha feito por nós”.

E o milagre aconteceu. Foi precisamente a idosa que contou o ocorrido: “Um padre passou pelo meu quarto e eu o chamei. Ele esteve comigo duas vezes. Eu me confessei, comunguei e beijei a mão do padre. Agora eu já posso morrer”.

O padre deu à avó de Violetta uma pequena imagem de Jesus Misericordioso, com a seguinte nota: “No dia 22 de setembro, ela se confessou e recebeu a Sagrada Comunhão”. Este era o dia do aniversário de Violetta.

“Jesus, eu te agradeço de todo coração!”, conclui a jovem.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Poderá um rico salvar-se?


Poderá um rico salvar-se?

 

A questão levanta-se a partir do texto de Mateus sobre o jovem rico a quem o Mestre lançara o desafio de que, se queria ser perfeito, que fosse, vendesse tudo o que possuía, desse o dinheiro aos pobres – ganharia um tesouro nos Céus – que voltasse e que O seguisse (cf Mt 19,16-26; Mc 10,17-27; Lc 18,18-27).

Perante a retirada do jovem contristado, que possuía muitos bens, Jesus exclama perante os discípulos: “Em verdade vos digo que dificilmente um rico entrará no reino dos Céus. Repito-vos: é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos Céus” (Mt 19,23-24; Mc 10,23; Lc 18,22). À estupefação dos discípulos e à sua interrogação sobre quem poderia salvar-se, Cristo assegura: “Aos homens é impossível, mas a Deus tudo é possível” (Mt 19,26; Mc 10,27; Lc 18,27).

Por outro lado, Lucas 6, 20.24-25 enuncia as bem-aventuranças de modo diferente de Mateus. Enquanto este põe na boca do Mestre a primeira bem-aventurança como “bem-aventurados os pobres em espírito, por que deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3), Lucas escreveu, “felizes sois vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus” (Lc 6,20). E, na perícopa das imprecações, o evangelista transcreve dos lábios de Cristo “Mas ai de vós, os ricos, porque já recebestes a vossa consolação! Ai de vós, os que estais agora fartos, porque haveis de ter fome!” (6, 24-25).

Também, quando envia em missão os discípulos, impõe-lhes o despojamento dos bens, como que se eles fossem um peso supérfluo e um estorvo e porque também receberam tudo de graça. Leia-se, a propósito, em Mateus: “Recebestes de graça, dai de graça. Não possuais ouro nem prata nem cobre, em vossos cintos; nem alforge, para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem cajado; pois o trabalhador merece o seu sustento.” (Mt 10,8-9). Mas tal despojamento implica que eles, na sua pobreza, hajam alguns direitos, já que o salário do trabalhador é um direito e um reconhecimento do mérito.

Marcos confirma a imposição de os discípulos nada levarem consigo, a não ser um cajado (cremos que seja como arrimo na caminhada e não para bater em alguém). E o Mestre recomenda que, em qualquer casa em que entrassem, permanecessem nela até partirem daquela terra (cf Mc 6,8.10). É também o reconhecimento de que ao apostolado há de corresponder a recompensa mínima para possibilitar a sobrevivência do apóstolo e a do trabalho apostólico.

Por seu turno, Lucas (cf. Lc 10,1-11) reitera a imposição do despojamento já referenciado, recomendando a não perda de tempo com saudação a quem quer que seja pelo caminho, porque era preciso que fossem a todas as cidades e lugares aonde o Mestre havia de ir. Mais: alertou-os para os perigos da missão – “envio-vos como cordeiros para o meio de lobos” (Lc 10,3) – e sugere-lhes a reivindicação do sustento: Ficai nessa casa, comendo e bebendo do que lá houver, pois o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa. Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei do que vos for servido…” (Lc 10,7-8).

É certo que o abandono da riqueza, no caso do jovem rico, entende-se como condição de vontade de perfeição (se queres ser perfeito…), já que o jovem começou por interpelar o Mestre sobre o que era preciso para alcançar a vida eterna (supostamente, a salvação) e Ele indicou a observância dos mandamentos – o que o jovem confessou vir a cumprir tudo isso desde há muito tempo (cf Mt 19,20; Mc 10,20; Lc 18,21). Já no caso da missão dos discípulos, o despojamento poderia entender-se como condição de disponibilidade para o trabalho apostólico, colocação de parte do que fosse supérfluo ou estorvante e como estatuto de quem prepara a ida do Messias (“enviou-os a todas as cidade e lugares aonde Ele devia ir” – Lc 10,1) e segue de perto o Senhor (“Olha que nós deixámos tudo e seguimos-Te”, disse Pedro – Mt 19,27). Porém, quer as bem-aventuranças de Lucas quer as imprecações ou invectivas como as referidas, apontam o perigo das riquezas para todos relativamente à Salvação. E quando o Rabi se lamenta de como é difícil um rico salvar-se (cf Mt 19,23), parece estar a abarcar o universo de todos e não apenas os que almejam a perfeição.

Mateus, que assume por inteiro as palavras do Senhor, abre, no âmbito das bem-aventuranças, um caminho, “Felizes os pobres em espírito” (ou os que o são no seu íntimo). Alguns veem na palavra assumida por Mateus a condenação da riqueza como restrita à riqueza em espírito – a avareza, a onzena (usura), o espezinhamento do pobre e a exploração aliadas à abundância de bens. Talvez se deva antes, em qualquer dos evangelhos sinóticos, entrever a consagração da pobreza como atitude, que pode passar pela disponibilidade do supérfluo (o que é muito pouco), levar à partilha, sobretudo com quem não tem, de modo que ninguém tenha necessidade (o que é muito bom), e chegar ao despojamento total em favor os pobres, exigido pela vida de perfeição, de seguimento do Senhor e de trabalho apostólico (excelente), contudo com abertura a receber a justa recompensa da parte dos destinatários da evangelização ou de quem for com eles solidário.  

***

Todavia, a Sagrada Escritura assinala às riquezas o seu caráter efémero e de perigo.

O caráter efémero das riquezas vem apontado no Antigo Testamento, logo no salmo 39 (38). Falando do homem, o salmista exclama: “Ele passa como simples sombra! E em vão se agita: amontoa riquezas e não sabe para quem ficam.” (Sl 39,7). A riqueza é tão fugaz como o próprio homem. Ainda que o gira, aumente e domine, enquanto vivo, não consegue garantir a subsistência do seu património, se o alienar ou se o deixar em herança ou em testamento.

O livro do Eclesiastes também se lhe refere, embora de forma indireta:

Ilusão das ilusões: tudo é ilu­­são” (Ecl 1,2). “A vista não se sacia com o que vê, nem o ouvido se contenta com o que ouve” (Ecl 1,9).

Aquele que ama o dinheiro nunca se saciará do dinheiro, e aquele que ama a ri­que­za, a riqueza não virá ao seu en­con­tro. (…) Onde abundam os bens, abundam os que os devoram. E que vantagem tem o dono dos bens além de vê-los com os seus olhos? (…) A abundância do rico não o deixa dormir descansado. Vi outra dolorosa miséria de­bai­xo do Sol: a riqueza entesourada para des­graça do seu dono. Perdem-se essas riquezas num mau negócio, e se tiver um filho, este fica sem nada nas mãos. (Ecl 5,9-13).

 

O avaro detentor do dinheiro é insaciável e sujeita-se a que lhe devorem toda a riqueza. Não terá um sono descansado e a riqueza entesourada pode ser a desgraça do dono: pode perdê-la em mau negócio e o herdeiro pode ficar sem nada. Assim, de que valerá viver amontoando sem ponderar outros valores e outros horizontes?

Por sua vez, o Novo Testamento, sobretudo nas cartas – 1.ª aos Coríntios, 1.ª a Timóteo e na de Tiago – assegura a índole passageira das riquezas, tal como a do tempo:  

“O tempo é breve. Doravante (…) os que compram (vivam) como se não comprassem, os que usam deste mundo, como se não o usufruíssem plenamente. Porque este mundo de aparências está a terminar. (1Co 7,29-31). Nada trouxemos ao mundo e nada dele levaremos. Os que querem enriquecer caem na tentação, na armadilha e em múltiplos desejos insensatos e nocivos que precipitam os homens na ruína e perdição, porque a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro. Arrastados por ele, muitos se desviaram da fé e se enredaram em muitas aflições.” (1Tm 6,7.9-10). “Com efeito, ao despontar o Sol com ardor, a erva seca e a sua flor cai, perdendo toda a beleza; assim murchará também o rico em seus empreendimentos” (Tg 1,11).

 

Uma certeza nos deixa o Novo Testamento: nada levaremos connosco. Porém, a ganância leva à concupiscência, à ruína, à perdição, ao sofrimento e ao desvio da fé. Por outro lado, a riqueza murcha como a erva e a flor. Por isso, é conveniente que não nos agarremos a ela.

Em relação à periculosidade, conexa com a efemeridade, já está dito que as riquezas podem levar o homem ao desvio da fé e à ruína. No entanto, os textos bíblicos abundam, como se verá a seguir:

“Mais vale o pouco com o temor do Senhor que um grande tesouro com a inquietação. Mais vale um prato de legumes com amizade do que um vitelo gordo com ódio.” (Pr 15,16-17). Fazem-se festins para haver ale­­­­gria; o vinho alegra a vida, e o di­nheiro serve para tudo.” (Ecl 10,19). “Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.” (Mt 6,24). “Aquele que recebeu a semente entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza sufocam a palavra que, por isso, não produz fruto.” (Mt 13,22). “Quão difícil é entrarem no Reino de Deus os que têm riquezas.” (Mc 10,23). “Deus, porém, disse-lhe (ao homem que acumulou riquezas e queria construir celeiros ainda maiores): ‘Insensato! Nesta mesma noite, vai ser reclamada a tua vida; e o que acumulaste para quem será?’ Assim acontecerá ao que amontoa para si, e não é rico em relação a Deus.” (Lc 12, 20-21).  Arrastados por ele (dinheiro), muitos se desviaram da fé e se enredaram em muitas aflições.” (1Tm 6,10).

 

Para lá do que foi refletido antes sobre a riqueza e o rico nos evangelhos sinóticos, aqui ressalta a insensatez de quem põe a sua confiança nas riquezas e nas suas consequências, distraindo-se da vida eterna e do caminho da fé que a ela conduz, começando por não fazer caso da Palavra de Deus. E os textos apontam o caminho: ser rico aos olhos de Deus. Demais quem não se lembra da parábola do rico avarento e do pobre Lázaro (cf Lc 18,19-31)? O rico não se apercebeu a tempo de que do lado de lá já não havia hipótese de retoma do caminho da felicidade eterna!

***

Perante o exposto, são de ter em conta algumas mensagens, sobretudo no quadro dos parâmetros neotestamentários. A título de exemplo, citamos uma passagem das epístolas católicas e outra das cartas pastorais de Paulo, sem esquecer que era rico Lázaro, o amigo que Jesus ressuscitou (Jo 11,1-44). Porém, ele e as irmãs puseram toda a riqueza ao serviço da causa de Cristo.

Assim, o apóstolo João deixa uma forte interpelação:    

“Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão com necessidade, se lhe fechar o seu coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele? Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade.” (1Jo 3,17-18).

 

E Paulo deixa as seguintes recomendações e conselhos aos ricos:

“Aos ricos deste mundo recomenda que não sejam orgulhosos, nem ponham a sua esperança na riqueza incerta, mas em Deus que nos dá tudo com abundância para nosso usufruto; que pratiquem o bem, se enriqueçam de boas obras, sejam generosos, capazes de partilhar. Deste modo, acumularão um bom tesouro para o futuro, a fim de conquistarem a verdadeira vida.” (1Tm 6,17-19).

 

Ora, tal interpelação e tais recomendações podem fazer o caminho para a pobreza em espírito de que fala Mateus, que pode muito bem consistir nos exemplos expressos no Livro dos Atos dos Apóstolos e nas cartas de Paulo.

 Nos atos:

“… possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um (At 2,44-45). Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum. Entre eles não havia ninguém necessitado, pois todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no aos pés dos Apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um conforme a necessidade que tivesse. (At 4,32.34-35).

 

Nas cartas de Paulo, as igrejas, geralmente, recebiam o dinheiro de contribuições voluntárias dos membros e o apóstolo Paulo ensinava que os cristãos deveriam dar voluntariamente e com alegria:

Quanto à coleta para os santos, fazei vós também como ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte, em casa, conforme a sua prosperidade, e vá juntando, para que não se as façam coletas só quando eu for.” (1Co 16;1-2). "Cada um contribua segundo o que tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria." (2Co 9,7).

 

***

Entretanto, a leitura do romance histórico de Bodie e Brock Thoene, Take this Cup – traduzido para Português por Dina Antunes, sob o título A Última Ceia de Jesus (eu preferia a transliteração do título original para “Toma este cálice”), editado pelo Clube do Autor – dá-nos mais uma pista para ultrapassar a dificuldade de o rico se salvar e garantir que “a Deus tudo é possível”.

O protagonista do romance e narrador autodiegético, Nemi ou Neemias, o copeiro-mor que havia de entregar a taça de José do Egito ao Messias, em Jerusalém, refere que Jesus, perante os discípulos, comentou com tristeza a recusa do jovem a quem Ele desafiara a segui-Lo, dizendo que era mais fácil passar pelo fundo de uma agulha uma “corda” grossa (klav-la, em hebraico) que um rico entrar no reino dos Céus. Só que alguns escutaram pela referida palavra hebraica a parónima gam-la, que significa camelo.

Embora as palavras que significam “corda” e “camelo” tenham sons semelhantes, segundo Nemi, Jesus terá mesmo pronunciado a palavra que significa corda. É verdade que algumas edições da Bíblia, em Português, traduziam aquela palavra por “calabre”, a tal corda grossa de navio. Não podemos esquecer que, na Terra de Jesus, além dos pastores, abundavam os pescadores, os agricultores e também os viandantes. Mas não sei se os discípulos, que estavam habituados com barcos e unidades de rebanho, eram peritos a lidar com camelos.

Ora Nemi, mocinho pastor e filho de uma fiandeira, conta que, quando era mais pequeno, vira muitas vezes a mãe tecer a corda para colocar (klav-la) um badalo dependurado em volta do pescoço dum carneiro. A corda começava a ganhar forma a partir de um simples fio por entre os dedos da mãe de Nemi. Então, se da corda feita, por mais grossa que fosse, se retirasse toda a fibra em excesso, restaria apenas um fio. Diz ele que “o coração de uma corda consiste num único fio”. Afinal, seria difícil, mas possível passar esse fio central pelo buraco da agulha. E a comparação aduzida por Jesus fazia todo o sentido (cf op cit pgs 289-290).

Então, com Nemi, podemos afirmar que o Mestre estava a colocar ante os olhos dos que O ouviam um caminho difícil, mas possível. Se o homem, como dizem alguns dos textos citados acima e a experiência de vida o atesta, nasce nu e sem nada, e nada leva quando partir desta vida, importa que reduza ao máximo a corda grossa dos bens, em favor de quem não tem e/ou ao serviço das grandes causas e apure o fio de fé, levantado em esperança aos Céus, para atravessar sem qualquer receio os portões da eternidade, confiado na misericórdia e nos atos.

Mas não vale aliar o capitalismo desenfreado (de pessoa singular, de grupo económico e/ou financeiro ou do Estado) à pobreza em espírito de que fala o Senhor em Mateus. Isso é o que em linguagem desportiva se chama “batota” e, em termos relacionais, será a fraude.

Em termos da pós-modernidade, o caminho é o da rendibilização dos recursos, da cooperação formativa, da promoção da justiça distributiva e social (mas acorrer voluntariosamente às situações de emergência que não possam esperar), da atitude permanente de solidariedade. E, se a este caminho insuflarmos a caridade como dom de Deus em postura de doação pelo semelhante, estaremos no rumo certo. Difícil? Mas possível e em igualdade de oportunidades!

2014.12.14

Louro de Carvalho