domingo, 8 de fevereiro de 2015

RITUAIS DO CARNAVAL


RITUAIS DO CARNAVAL

PASSAGEM DO TEMPO INVERNAL PARA O TEMPO PRIMAVERIL

José Rodrigues Lima

 

A festa cíclica do Carnaval está presente no meio rural e urbano. Porém, é nas comunidades tradicionais que o encontramos mais genuíno, projectando-nos na ancestralidade, na memória colectiva e no inconsciente cultural.

O Entrudo é festa da abundância: “Ruge o pote e o prato”; “Haja vinho na caneca e porco na salgadeira”; “O Entrudo é comilão, se queres saber ao certo dá-me carne, vinho e pão”.

 

REGENERAR O MUNDO

No dizer de Roger Caillois, a festa pretende restaurar o caos primordial, reactualizar as cosmogonias, teatralizando e mimando os gestos dos deuses e antepassados, porque o tempo mítico da desordem é um tempo criador, e necessariamente será também renovador do cosmos envelhecido. “A festa é assim celebrada no espaço-tempo do mito e assume a função de regenerar o mundo”.

As teses referentes à origem do Carnaval podem-se sintetizar em quatro: vegetalista, celta, greco-romana e medievalista.

Existem indicadores que convidam a encarar o carnaval moderno como uma espécie de “eco moribundo” das festas antigas do tempo das Saturnais.

O grande antropólogo Caro Baroja, autor do livro “El Carnaval”, verdadeira bíblia deste ciclo festivo, escreveu que “quando o homem acreditou de uma forma ou de outra que a sua vida estava submetida a formas sobrenaturais surgiu o Carnaval”. O mesmo investigador afirma que “o Carnaval merece respeito”, estudo e análise, não só como fonte de grandes criações plásticas, sendo de mencionar Brueghel e Goya, mas também musicais, recordando Schuman, Berlioz e Paganini.

 

DEITAR FORA O INVERNO

Mircea Eliade mencionando um texto do século VIII, afirma que as populações alemãs “in mense Februario hibernum credi expellere”, que tem a seguinte tradução: “no mês de Fevereiro deve-se deitar fora o Inverno”.

De acordo com J. Heers, o Carnaval começou por ser uma procissão como tantas outras, uma dança de primavera que, quase de certeza, recuperou antigas memórias ligadas aos cultos pagãos de outrora, dos deuses campestres e das forças da natureza. Alguns autores não hesitam em evocar, com a maior naturalidade, a tradição das Bacanais, das festas da terra, do vinho e das florestas. Sublinham-no por interpretação etimológica ao fazer derivar directamente a palavra do latim do carro em forma de navio, “currus navalis”, que ilustrava as procissões.

O Carnaval como todas as festas profanas ou religiosas, sem dúvida de inspiração muito antiga ou de impregnação cristã, apresenta numerosos espectáculos públicos, reflexos espontâneos de uma civilização, referências preciosas para o conhecimento de uma cultura.

 

O IMBOLC CELTA

As teses referentes à origem do Carnaval podem ser sintetizadas em quatro: vegetalista, celta, greco-romana e medievalista.

A tese celta leva-nos a registar alguns dados. Assim, E. Powell sublinha que os celtas acreditavam em poderes mágicos que envolviam todos os aspectos da vida e do ambiente. O ano celta achava-se certamente, dividido em duas estações, quente e fria, sendo os períodos de transição marcados por quatro festas: Samain, Beltaine, Lugnasad e Imbolc.

No início da estação clara, Beltaine, celebrava-se a festa do deus Lug. Era a data das grandes assembleias druídicas, em que se faziam fogueiras cerimoniais.

No primeiro de Fevereiro tinha lugar a festa de purificação do fim do inverno, o IMBOLC. Antigamente explicavam-na como sendo o começo da lactação das ovelhas. A festividade foi substituída pela festa cristã de Santa Brígida, seguida pela Festa das Candeias, como explica E. Powell, H. Hubert e F. le Roux e J. Guyonvarc’h.

O investigador C. Gaignebet, autor do livro “Le Carnaval. Essais de mytologie populaire” (1974) sustenta: “há pois motivo para perguntar porque é que um conjunto de ritos indoeuropeus, as purificações no início de Fevereiro se conservam, por ventura inseridas nas festas celtas, especialmente no Imbolc”.

Sem pretendermos fazer doutrina não será que nos rituais do carnaval, e mesmo nas comemorações do enterro do Pai Velho, não se conjugam reminiscências ancestrais dos celtas? É de referir que no Lindoso há bastantes marcas culturais dos castrejos.

Devemos referir que Mircea Eliade, mencionando um texto do século VIII, afirma que as populações alemãs “in mense Februario hibernum credi expellere”, que tem a seguinte tradução: “no mês de Fevereiro deve-se deitar fora o Inverno”.

 

CATARSE COLETIVA

O Carnaval é uma festa de todos, dos simples e dos pobres.

Uma boa oportunidade para os sisudos se extroverterem e para os grupos realizarem uma “catarse colectiva”, esquecendo o quotidiano que esmaga para reinar a alegria, com “rituais cósmicos, de inversão, ostentação e fertilidade”, reafirmando a identidade colectiva, conforme o antropólogo Joan Prat.

 

O ENTERRO DO PAI VELHO

As festividades carnavalescas no Lindoso, aldeia do concelho da Ponte da Barca, celebrizada pela sua história e respectiva barragem premiada, revestem-se de particularidades, que lhes concedem características do Carnaval da tradição portuguesa.

            Os octogenários, eles e elas, são pontos de referência obrigatória, para ajuizar se tudo está a ser preparado conforme a tradição. Existe uma sabedoria estratégica que passa pela escolha dos carros de tracção animal, do gado, pelo jogo das campainhas, pelos jugos, pelos enfeites, pelas cantigas, pelos tocadores de concertina, pelo horário dos cortejos, pelo trajecto definido, pelos bailes, pelas dádivas comestíveis durante os desfiles, pelos "barredouros", pelos disfarces, pela choradeira na queima do Pai Velho, pelo testamento onde constam as ofertas do falecido, pelas referências de índole social e pela ocultação da escultura simbólica, como autêntico "churinga" de povos australianos.

            As festividades do Enterro do Pai Velho, que "apesar de não ter festeiros, sempre tem festa", são consideradas as mais típicas da povoação, e podemos dizer, únicas no norte do país.

            Trata-se de uma vivência ancestral, que contribui expressivamente para a "coesão social da aldeia", e para revigorar a identidade colectiva de uma povoação histórica e tradicional, que mantém vivências comunitárias.

            O cortejo, para além de outros elementos, é constituído por carros adornados, "simbólicos e chiadouros", puxados pelo melhor gado da aldeia, belamente engalanado, sendo um deles o do "Pai Velho", e o outro o "Carro das Ervas".

            O largo junto do Castelo do Lindoso, mesmo ao lado do conjunto dos espigueiros e a eira comum, é o espaço privilegiado onde se desenrolam as importantes cerimónias anuais de transição, do ciclo do Inverno, frio e estéril, para o ciclo da Primavera, mais quente e fértil, e que fazem parte do "inconsciente colectivo".

            Se pretendermos estabelecer uma rota dos cerimoniais carnavalescos, para além do Enterro do Pai Velho, teríamos que participar, também, na Dança dos Carpinteiros, na freguesia de Gandra, e nas Mecadas de Verdoejo, do concelho de Valença.

            Esta trilogia constitui o Entrudo do Alto-Minho.

 

A FOGUEIRA SIMBÓLICA

O grande investigador e filósofo das religiões J.Frazer, na sua notável obra “ RAMA DOURADA”, dedica um capítulo aos festivais ígneos. Afirma que em quase toda a Europa “a crença que o fogo promove o crescimento dos meses, o bem-estar dos homens e dos animais, quer estimulando-os positivamente quer evitando os perigos e as calamidades”.

Refere que os celtas tinham festivais ígneos, queimando imagens cobertas de ervas, no meio das quais os druidas encerravam vítimas.

W.Mannhart  interpreta o costume de queimar as vítimas como uma cerimónia mágica com a intenção de assegurar a luz solar suficiente para as colheitas, levando-nos a concluir a importância agrária destes rituais.

È de sublinhar a grande festa “Beltaine, (fogo de Bel),no primeiro de Maio, em honra do Deus Lug, sob aparência da luz. Era a data das assembleias druidas, em que se faziam grandes fogueiras cerimoniais.

Parece-nos que a grande fogueira que no Lindoso queima o corpo empalhado do Pai Velho, os enfeites e as ervas, tem um fundo celta.

Aliás, é de acrescentar que inúmeros ritos de purificação pelo fogo, geralmente ritos de passagem, são característicos das comunidades agrárias, e simbolizam os incêndios dos campos que se adornam , depois, com um manto verde da natureza viva, de acordo com J.Chevalier.

O fogo é, acima de tudo, o motor de regeneração e simboliza a acção fecundante.

O Padre António Vieira salienta nos “ Sermões” que “o maior”, o mais nobre e o mais nobre escondido tesouro do universo é o quarto elemento, o fogo.

É crença popular que o fogo e fumo têm a virtude de purificar os campos e os animais, e livrar os homens da influência dos maus espíritos.

 

  

Solicitar Assistência Espiritual nos Hospitais:


Solicitar Assistência Espiritual nos Hospitais:

é um exercício da cidadania crente

As doenças não são castigos de Deus por causa do pecado, nem existem porque

Deus as tolera ou permite. Fazem parte da condição humana e revelam que o

nosso corpo é frágil e vulnerável, que somos mortais. Dão conta do nosso dever de

cuidar do corpo e da saúde, própria e dos outros, de cuidar da natureza.

As doenças e sofrimento severos, porém, não atingem apenas o corpo, mas ferem
 

também a alma e é aí que reside o problema do sofrimento. A pessoa sente-se abalada

por fortes vendavais de emoções negativas; sente posto em causa o desejo de vida

plena; experimenta a irrupção de fortes sentimentos de culpa até aí ignorados; e

vê-se confrontada e magoada com interrogações sobre a vida e seu sentido, sobre a

bondade de Deus e a sua existência, perguntas para as quais não vê resposta. À dor física junta-se a dor psíquica, existencial e espiritual.

Para a dor física e psíquica há medicinas ou terapias. E para a dor existencial e espiritual, a que terapêuticas recorrer?

A assistência espiritual e religiosa nos Hospitais torna-se, portanto, uma emergência para muitos doentes. É vivida como uma particular fonte de conforto, bem-estar, paz, saúde. A tradição da Igreja e a experiência dos profissionais assim o afirmam e a literatura científica recente comprova-o. Na verdade, a vida espiritual fomenta a reconciliação consigo, com os

outros e com Deus, abre para o sentido da vida e impulsiona a procura de Deus, respostas que vão de encontro às necessidades do doente, de encontro às suas interrogações.

Por isso quem nega ou impede a assistência espiritual e religiosa é insensível, violento, antidemocrático, insensato e desumano. O Decreto-lei 253/2009, que a regula nos Hospitais do Serviço Nacional de Saúde, reconhece-a não só como «uma necessidade essencial, com efeitos relevantes na relação com o sofrimento e a doença », particularmente no sofrimento severo, mas também como um «fator de qualidade» ao nível dos cuidados prestados.

Dizer que a assistência espiritual e religiosa  nos hospitais é um bem para o conforto

do doente já era um motivo mais que No próximo dia 13 de fevereiro, sexta-feira,

realiza-se a primeira conferência dedicada ao tema Olhares sobre…Economia e

contará com os seguintes oradores: Ex-ministro Miguel Cadilhe ,Ex-secretário da UGT, João Proença, Silva Peneda, presidente do CES.

O debate sobre este tema contará com a moderação de Graça Franco, diretora editorial

da Rádio Renascença. Mediante inscrição em www.gti.pt, poderá  de forma gratuita, assistir presencialmente ou online (www.novaagora.pt), a cada uma das 4 conferências.

Solicitar Assistência Espiritual nos Hospitais: um exercício da cidadania crente suficiente para a sua existência, mas ela é sobretudo um direito do doente, reconhece o Decreto-lei. Deve, por isso, existir nos Hospitais e funcionar de forma organizada e regular, sem impedimentos, a fim

de satisfazer as necessidades espirituais e religiosas dos utentes que a solicitem de forma adequada e atempada, segundo a sua vontade e de acordo com a liberdade de consciência, religião e culto. Todos os doentes, seja qual for a sua religião, têm direito a cuidados espirituais e religiosos, segundo a sua vontade; a serem assistidos a qualquer hora, sem prejuízo dos cuidados de saúde e do bem-estar dos outros doentes; a verem respeitadas as suas convicções

e a não serem incomodados ou pressionados por quem quer que seja para assistência

que não desejam; a ter literatura e objetos religiosos consigo, e a verem respeitadas

as suas convicções; a serem informados sobre a assistência espiritual e religiosa e a participarem em atos de culto.

Em conclusão, a hospitalização não constitui um impedimento à prática religiosa (nem isso faria sentido), mas o doente crente deve manifestar-se sem medo ou vergonha. Deve pedir a

assistência  espiritual e religiosa aos enfermeiros ou outros profissionais e se encontrar

alguma obstrução indevida deve reclamar. Solicitar a assistência é um bem não apenas para si próprio, mas também a afirmação de um ato consciente e livre na defesa dos seus direitos e na defesa da cidadania crente no presente e no futuro.

Solicitar a assistência não é só um direito legal, é também um mandato do Senhor e por isso um dever do cristão doente, diz S. Tiago (cf Tg 5, 14), para que se realiza nele o mistério de comunhão no amor de Deus, fonte de vida e de saúde.

Por último: se a vida espiritual é fonte de bem-estar e conforto e se, como dá conta a

literatura, previne a saúde e influencia a recuperação, tornando-a mais rápida, se tem

um efeito placebo isso não significará que tem influência positiva nos custos de saúde?

Então porquê a má vontade e os obstáculos? Que interesses estão por detrás?

P. Fernando Sampaio, In Ecclesia, n.º 101, 05.02.2015

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Dar Alma à Vida XXXVIII


Dar Alma à Vida XXXVIII
 
 
 
 
 
da XXXVIII

Dar Alma à Vida é saber escutar com vontade de se deixar penetrar pela palavra do profeta que fala em nome de Deus.

Saber discernir entre o que é a vontade de Deus e o que é a vontade do mundo.

Saber distinguir o que é palavra do homem e palavra de Deus.

 
 
Dar Alma à Vida dizia o Beato Paulo VI que é o homem que sabe escutar com melhor boa vontade as testemunhas, e os que os mestres. Há mestres e mestres; há os que falam com autoridade e os que não têm autoridade nenhuma.

Dar Alma à Vida é dar exemplo, isto é, fazer e depois dizer, pois era o que fazia o nosso Mestre Jesus. É por isso que Lhe reconheciam autoridade. Aquilo que diz é verdade… tem valor, e dar Alma à Vida é dar testemunho com a Vida.

Dar Alma à Vida é aliviar a cruz dos outros, ser cireneu e abertos a uma nova esperança, fazer bem de olhos fechados, ou, sem saber a quem, porque o outro pode ser o Mestre dos mestres.
 
 

Dar Alma à Vida é saber ser forte sem ter, mas porque é rico em saber ser.

Dar Alma à Vida não é prisão às tradições dos nossos antepassados, mas respeitá-las e abrir-se constantemente à criatividade e disponibilidade para servir a Deus no momento presente.

Dar Alma à Vida é estar atento à voz do Profeta que, de verdade, fala aquilo que lhe foi ordenado. O que lhe sai da boca, são palavras de Deus.

Dar Alma à Vida é estar feliz porque se sabe discernir entre as palavras de Deus e as que não são de Deus; que sabe escutar para as viver e dar testemunho com obras e não só com palavras aquilo em que acredita.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O que o sofrimento pode me oferecer de bom?


O que o sofrimento pode me oferecer de bom?

Deus não nos oferece o sofrimento como castigo, e sim como caminho
Padre Carlos Padilla
 
                                                                                                                                                                          © Agustín Ruiz / Flickr / CC
 
Ninguém quer sofrer. Isso vai contra nossa natureza, que busca a felicidade, a paz, o descanso, a alegria. Não há nada mais contrário ao nosso querer. Sofrer nos parece desnecessário, duro demais.

É nessas horas, quando nos faltam forças, que Deus nos sustenta. Isso vale especialmente quando Deus nos leva à escola do sofrimento. Para Paulo, é natural que nós, em nossa qualidade de membros de Cristo, sejamos associados à sua Paixão, e que o padecimento não só signifique colapso de forças humanas, senão também surgimento de forças divinas e abundante fecundidade da nossa vida e das nossas obras.

A escola do sofrimento. Deus o permite em nossa vida. Deus nos ama e, em seu amor, tolera que soframos.

O coração se rebela contra todo sofrimento. Não queremos padecer, não queremos sofrer a perda nem a dor. Queremos uma vida plena. Uma pessoa rezava assim a Jesus em sua dor:

"Conheço muito bem as perdas. Desde pequena tive de sofrê-las. As mais abruptas, as que me deixaram sem ar. Deus saberá explicar-me tudo no final do caminho. O tempo fará o resto, acalmará um pouco a ausência, curará um pedaço do meu coração ferido.

Enquanto isso, Tu me guias por este mundo com a tua luz, Senhor, que, da estrela mais brilhante, do mar mais profundo e dos cumes mais altos, me mostra que só se chega a Ti pela tua cruz."

O caminho do sofrimento é o caminho da cruz. Não acho que Deus nos mande as cruzes. Mas a cruz vem ao nosso encontro sempre, porque somos limitados, porque o tempo desgasta tudo, porque a natureza nos fere.

Então chega a dor e o sofrimento. E Jesus está aí, na minha cruz. Muitas vezes não encontraremos o sentido. Na verdade, isso nem sempre será necessário. Só pedimos a Jesus que não solte nossa mão, que não nos deixe sozinhos na vida, sem sua companhia, sem sua força e estímulo. É disso que precisamos.

Falando da sua doença, a Dra. África Sendino comentou: "Se Deus me desse a oportunidade de voltar no tempo e me oferecesse a possibilidade de escolher entre as duas opções possíveis – saúde ou doença –, eu não poderia dizer 'não' ao que me aconteceu.

Porque Deus não nos oferece a doença como castigo, mas como caminho. Porque neste caminho estou aprendendo intensas lições.

Compreendo que a Providência divina não é uma simples abordagem, mas uma realidade cotidiana que me aguarda no rosto dos meus amigos. E presencio, como um espetáculo grandioso, até onde pode chegar a bondade dos que me cercam."

Na dor, não somente nos encontramos com o rosto amigável e próximo de Deus, com sua mão que nos sustenta, mas também com o rosto de todos os que cuidam de nós, que velam por nós, que nos acompanham.

Por isso, queremos pedir a Deus essa liberdade interior diante da vida. Entregamos a Deus nossos medos confusos diante do futuro, o temor que nos invade ao pensar em tudo o que pode nos acontecer. Entregamos a Deus.

Trata-se de viver inscritos no coração de Jesus. Lá, pouco importa o que possa acontecer. Quando Ele segura nossa mão, todo medo desaparece.

 

 
 
 
 
 



 


 


 

O sacerdote católico que salvou a vida de 1.000 muçulmanos


O sacerdote católico que salvou a vida de 1.000 muçulmanos


Entrevista exclusiva com o padre Kinvi, herói da paz na África

O padre Bernard Kinvi tem 32 anos de idade, é natural de Togo e dirige uma missão na República Centro-Africana. Sozinho, no início de 2014, o pe. Bernard salvou a vida de mais de 1.000 muçulmanos que fugiam de milícias violentas, reunindo-os e abrigando-os na igreja local. Ele próprio correu um grande risco ao tomar esta atitude.

Cristãos e muçulmanos vinham coexistindo em paz na República Centro-Africana até que, no final de 2012, uma força rebelde de maioria muçulmana, chamada Seleka, tomou o controle de um número relevante de cidades do país. Avançando rumo ao sul, os milicianos chegaram à capital, Bangui, onde o presidente François Bozizé tentou um acordo com os rebeldes, mas a paz não perdurou. Em março de 2014, a Seleka já dominava Bangui.

Quando a violência atingiu Bossemptélé, cidade localizada a cerca de 186 km ao noroeste de Bangui, alguns combatentes da Seleka, feridos, procuraram atendimento no hospital de missão do pe. Bernard Kinvi. "Eu tive de proibir que eles viessem ao hospital com armas", contou ao jornal “The Irish Times” o próprio pe. Bernard, que é membro da ordem camiliana. "As pessoas estavam aterrorizadas com eles e decidiram reagir. Foi então que elas criaram o anti-Balaka", uma força de resistência ao avanço da milícia Seleka.

Por causa do trabalho humanitário do pe. Bernard, a organização “Human Rights Watch”, de defesa dos direitos humanos, o homenageou no ano passado com a entrega do prêmio Alison Des Forges.

Aleteia entrevistou o padre Bernard Kinvi.

Pe. Bernard, o senhor pode descrever as relações que existiam na comunidade local de Bossemptélé antes do início deste conflito?

Antes do início da crise político-militar, a população de Bossemptélé vivia em coesão pacífica entre cristãos, muçulmanos e animistas. A vida de todos era complementar. Os muçulmanos trabalhavam principalmente no comércio. Os Fulani eram criadores de gado e a maioria dos cristãos e animistas trabalhavam na agricultura. E eram eles que produziam os alimentos (mandioca, milho e amendoim) para os muçulmanos e para os Fulani. Todo mundo precisava do vizinho para viver melhor. Naturalmente, havia problemas, mas não eram excessivos.

De acordo com a sua experiência, o que alimentou o conflito na República Centro-Africana?

Acima de tudo, eu acredito sinceramente que a corrupção e o mau governo é que são a causa deste conflito. Além disso, a maioria das pessoas vive sem eletricidade, sem acesso a água potável, a cuidados de saúde e à educação, enquanto outros vivem na opulência, saqueando ouro, diamantes, madeira, que deveriam ser para todos. Os abusos sem fim e a corrupção provocaram desespero e raiva. E essa raiva acumulada gerou uma espiral de violência e de vingança, que, infelizmente, persiste até hoje.

Qual é a situação atual do conflito na República Centro-Africana?

O lado oeste do país está vivendo aquela “calma tensa”. As milícias anti-Balakas ainda estão bem armadas, mais do que no início da guerra, inclusive. Mas a violência diminuiu significativamente. Já na região leste do país, em especial na área de Bambari, a violência ainda é muito comum porque os Selekas e os anti-Balakas continuam presentes. É muito difícil eles viverem juntos.

Como a sua equipe consegue lidar com os dois grupos em conflito sem tomar partido?

No auge do conflito, eu reuni o pessoal do hospital e disse a todos eles: "Nós somos um hospital católico. Aqui nós tratamos todos de forma igual, seja seu amigo, seja seu inimigo. Ele matou o seu irmão ou estuprou a sua irmã? Pois bem, se ele cruzou a porta de entrada do hospital porque está doente ou ferido, você vai cuidar dele. Se você concorda, pode ficar. Se não concorda, você tem a escolha de não trabalhar mais no hospital". Logo depois eu passei a palavra para cada um dos membros da minha equipe e ouvi cada um deles responder: "Eu vou ficar para cuidar de todos, sem exceção". Foi um momento muito emocionante. E eles não disseram só palavras da boca para fora. Eles foram fiéis ao seu compromisso.

Cada vez que nós somos ameaçados de morte por um ou por outro dos grupos de rebeldes porque cuidamos dos inimigos deles, eu sempre assumo a liderança, negocio com eles e mostro que o hospital é um lugar público, para todos.

Além disso, e em primeiro lugar, eu sinto a presença constante de nosso Senhor, que sempre me inspira a fazer boas obras e a dizer palavras boas no momento certo.

Qual é a sua avaliação sobre o papel das forças de paz da ONU, como a União Africana e as forças francesas, no auge do conflito?

Eu acho que as forças francesas, a União Africana e as forças de paz da ONU evitaram o pior, mas não conseguiram parar o conflito. Eu, pessoalmente, acho que são forças de dissuasão para a população civil.

Como o senhor avalia o comportamento geral da comunidade local, as pessoas comuns, em relação aos irmãos e irmãs muçulmanos?

As atitudes são diferentes. Eu conheci muitas pessoas que odeiam os muçulmanos, especialmente a linhagem pura. Mas também conheci muita gente que se opõe à matança de muçulmanos. Essa gente já os escondeu na própria casa ou no campo, e nós pedimos ajuda para encontrá-los e levá-los para o nosso hospital. Eu até conheci vários anti-Balakas que protegeram civis muçulmanos e me ajudaram a recuperá-los. Hoje, toda a população de Bossemptélé é unânime em achar que a saída dos muçulmanos reduziu consideravelmente a economia da população. Eles têm mais gente para vender os produtos rurais.

Existem planos para garantir que este conflito não volte a se inflamar? Que planos seriam?

Nós não temos um projeto nacional. Mas, em nossa pequena cidade de Bossemptélé, temos um pequeno "Comitê Comunitário de Coesão Social", que é liderado pelo padre camiliano Patrick Brice Naïnangue, pároco de Santa Teresa de Bossemptélé. Esse comitê é responsável pelo diálogo com o público para repensar as causas profundas desta crise, para interagir com os líderes das aldeias, com os líderes religiosos e com os anti-Balakas (...) a fim de construir as bases da reconciliação, da justiça e da paz.

Nós sabemos, também, que muitas das milícias são formadas por agricultores e pecuaristas. Tentamos proporcionar treinamento técnico e distribuir sementes para a época do plantio. Premiamos as melhores produções de cada safra para promover a competitividade. Tudo isso nos permite construir a força de trabalho e impulsionar o mercado de trabalho. E isso leva alguns deles a desistir das armas.

Também priorizamos a educação e, se possível, a educação por meio da mídia, em especial da rádio. Esperamos que esses recursos, junto com as nossas muitas orações pela paz, nos permitam cuidar das feridas da guerra e restaurar a paz.

Alguns relatos da mídia dizem que os cristãos guardam ressentimento em relação aos muçulmanos. O senhor tem ideia de que ressentimentos seriam esses?

Eu não diria que os cristãos tenham ressentimentos contra os muçulmanos. Eu prefiro falar do ressentimento dos não-muçulmanos (tanto cristãos quanto animistas) em relação aos muçulmanos. Isto se deve principalmente ao fato de que a maior parte da milícia Seleka era muçulmana. Além disso, também se deve à cumplicidade de alguns muçulmanos com a milícia nos casos muito graves de abusos que eles cometiam contra os civis não-muçulmanos.

Como o senhor acomodou esses dois grupos conflitivos dentro da missão sem que a própria missão entrasse em conflito?

A primeira milícia que surgiu entre nós foi a Seleka. No dia 17 janeiro de 2014, eles fugiram da cidade depois de roubar motocicletas e um carro do hospital. Em 18 de janeiro, os anti-Balakas implantaram o seu próprio reinado, depois de enfrentar a resistência dos extremistas muçulmanos. Mais de 100 pessoas foram mortas; na maioria, eram civis. Foi assim que o conflito começou na nossa região. Nós recebemos os feridos e eu tentei me esconder e me proteger. Mas eu sabia que era o exército celestial que nos protegia.

Como o senhor conseguiu sustentar as pessoas que se refugiaram na missão, em termos de alimentação, tratamento e proteção?

Antes da guerra, eu armazenei um estoque de arroz e medicamentos. Com essas provisões, conseguimos alimentar e cuidar dos nossos refugiados até a chegada dos Médicos sem Fronteiras e do Programa World Food. As freiras carmelitas também esvaziaram as reservas alimentares que elas tinham, para ajudar os estudantes na escola primária que elas dirigem.

Como o senhor se sente com o recebimento do prêmio da Human Rights Watch?

Eu dou graças a Deus, que quis fazer com que o mundo conhecesse a obra dele através do nosso modesto compromisso. Eu me vejo chamado pelo Senhor, que ainda me convida, e sempre vai me convidar, a defender os direitos humanos sem levar em consideração as feridas do meu próprio corpo. É muito bonito amar e dar a vida pelos amigos.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O que acontece na missa?


O que acontece na missa?
O sentido e as partes da grande celebração católica explicados de maneira simples



A missa é a grande celebração da Igreja porque nos reúne para escutar a Palavra de Deus, recordar a Ceia em que Cristo nos deixou seu Corpo e seu Sangue, e renovar seu sacrifício na cruz. Cada momento da missa é muito importante e especial, como você verá a seguir:

Ao iniciar

Nós nos reunimos e saudamos sob o olhar de Deus Pai, Filho e Espírito Santo, porque Ele estará presente em tudo o que vai acontecer dentro da missa.

Ato penitencial e Glória

Dizemos “Senhor, tende piedade de nós” pedindo a Deus que perdoe nossos erros, nossas falhas para com os outros e conosco mesmos, pelo pecado. E como o seu amor é tão grande e nos perdoa, nós lhe cantamos “Glória”, louvando seu poder e a paz que nos dá.

Leitura da Palavra

Deus nos fala e, por isso, escutaremos leituras bíblicas, de profetas ou apóstolos, nas quais Ele busca salvar seu povo ou quer nos ensinar a ser melhores. Cantamos um salmo, que é um louvor poético a Deus, e também ouvimos Jesus Cristo no santo Evangelho.

Homilia

O sacerdote que está presidindo nossa missa e que estudou a Palavra de Deus fará uma homilia, ou seja, uma reflexão para explicar-nos o que Deus quer nos dizer nas leituras. Ele nos motivará e nos dará os conselhos necessários para melhorar nossos passos.

Ofertório

Nós oferecemos a Deus nosso trabalho diário no pão e no vinho que chegam ao altar. Ao dar um pouco do nosso dinheiro ou alguma oferenda na missa, damos parte do nosso esforço diário a Deus e Ele o recebe junto com as nossas orações.

Consagração

Sob as mãos do sacerdote e com a oração de todos, o Espírito de Deus desce e permite que o pão e o vinho se transformem no Corpo e no Sangue de Jesus Cristo. O padre eleva um e outro e, de joelhos, nós adoramos Jesus com os anjos e santos que não vemos nesse momento, mas que estão lá, dizendo junto conosco: “Meu Senhor e meu Deus”.

Comunhão

Assim como Jesus nos ensinou e unidos como irmãos, rezamos a Deus, dizendo “Pai nosso”; depois nos desejamos “a paz do Senhor”, como Jesus nos pediu. E, ao encontrar-nos todos nessa alegria e disposição, vamos receber a Eucaristia na comunhão.

Ao terminar a missa, o padre nos diz: “Ide em paz”, porque vamos embora com Deus em nossos corações, para continuar nossa missão no mundo. Com Ele ao nosso lado, irão também seus santos e seus anjos, para que alcancemos a felicidade a cada dia.

(Publicado originalmente em Desde la Fe)

sources: Desde la Fe
 
 

 

 


http://www.aleteia.org/image/pt/article/o-que-acontece-na-missa-5817096650883072/sourceicon/0


Desde la Fe

27.01.2015

 

 

Papa Francisco: a fé è dom do Espírito Santo transmitido sobretudo pelas mulheres


Papa Francisco \ Missa em Santa Marta

Papa Francisco: a fé è dom do Espírito Santo transmitido sobretudo pelas mulheres

Papa Francisco em Santa Marta - OSS_ROM

26/01/2015 12:51

 

Paulo recorda a Timóteo que a sua fé provém do Espírito Santo, ‘por meio da sua mãe e da sua avó’. “São as mães, as avós – afirma o Papa – que transmitem a fé, e acrescenta: “Uma coisa é transmitir a fé e outra é ensinar as coisas da fé. A fé é um dom, não se pode estudar. Estudam-se as coisas da fé, sim, para entendê-la melhor, mas nunca se chegará à fé com o estudo. Ela é um dom do Espírito Santo, é um presente que vai além de qualquer preparação”. E é um presente que passa através do “lindo trabalho das mães e das avós, o belo trabalho destas mulheres” nas famílias. “Pode ser também que uma doméstica, uma tia, transmitam a fé”:

Jesus veio através de uma mulher

“Vem-me à mente esta questão: por que são principalmente as mulheres a transmitir a fé? Simplesmente porque quem nos trouxe Jesus foi uma mulher: foi o caminho escolhido por Jesus. Ele quis ter uma mãe: o dom da fé também passa pelas mulheres, como Jesus passou por Maria”.

“E devemos pensar hoje – sublinha o Papa – se as mulheres têm a consciência do dever de transmitir a fé”. Paulo convida Timóteo a guardar a fé, evitando “os vazios mexericos pagãos, as bisbilhotices mundanas”. “Todos nós – alerta – recebemos o dom da fé. Devemos guardá-lo para que ele pelo menos não se dilua, para que continue a ser forte com o poder do Espírito Santo”. E a fé é guardada  quando reacende este dom de Deus.

A fé 'água de rosas'

“Se nós não temos esse cuidado, a cada dia, de reavivar este presente de Deus que é a fé, a fé se enfraquece, se dilui, acaba por ser uma cultura: ‘Sim, mas, sim, sim, eu sou um cristão, sim...’, uma cultura, somente. Ou a gnose, um conhecimento: ‘Sim, eu conheço bem todas as coisas da fé, eu conheço bem o catecismo’. Mas como vives a tua fé? E esta é a importância de reavivar a cada dia este dom, este presente: de torná-lo vivo”.

Contrastam “esta fé viva” - diz São Paulo - duas coisas: “o espírito de timidez e a vergonha”:

“Deus não nos deu um espírito de timidez. O espírito de timidez vai contra o dom da fé, não deixa que cresça que vá para frente, que seja grande. E a vergonha é aquele pecado: ‘Sim, eu tenho fé, mas eu a cubro, que não se veja muito... '. É um pouco daqui, um pouco de lá: é a fé, como dizem os nossos antepassados, água de rosas. Porque eu tenho vergonha de vivê-la fortemente. Não. Esta não é a fé: nem timidez, nem vergonha. Mas o que é? É um espírito de força, de caridade e de prudência. Esta é a fé”.

Fé inegociável

O espírito de prudência - explica o Papa Francisco - é “saber que nós não podemos fazer tudo o que queremos”, significa buscar “as estradas, o caminho, as maneiras” para levar avante a fé, mas com prudência.

“Peçamos ao Senhor a graça - conclui o Papa – de ter uma fé sincera, uma fé que não é negociável, segundo as oportunidades que surgem. Uma fé que a cada dia procuro reavivá-la, ou pelo menos peço ao Espírito Santo que a revive e assim dê um grande fruto”. (CM-SP)