quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O DIÁLOGO MAIS URGENTE


Comissão Nacional Justiça e Paz

Quinta do Cabeço, Porta D ● 1885-076 Moscavide ● Tel: 218 855 480 ● Fax: 218 855 475

E-mail: comissaonjp@gmail.com ● Site: www.ecclesia.pt/cnjp

 

O DIÁLOGO MAIS URGENTE

COMUNICADO DA COMISSÃO NACIONAL JUSTIÇA E PAZ A PROPÓSITO DO RECENTES ATAQUES TERRORISTAS DE PARIS E DA NIGÉRIA

1. Os recentes ataques terroristas de Paris e da Nigéria, com repercussões que se estendem até hoje, suscitam em muitos dúvidas sobre a viabilidade da convivência pacífica e harmoniosa entre pessoas de diferentes culturas e religiões nas sociedades europeias. Em especial, a presença de pessoas de fé islâmica é vista por muitos como uma ameaça. Há quem evoque a este respeito a conhecida (mas não comprovada) tese do choque de civilizações.

Num mundo globalizado e na era das comunicações sem barreiras, é, porém, por um lado, ilusório e, por outro lado, empobrecedor pensar em sociedades culturalmente uniformes e isoladas.

A Comissão Nacional Justiça e Paz pretende com esta nota realçar a sua convicção de que, neste contexto, pelo contrário, o diálogo entre diferentes culturas e religiões se torna ainda mais importante, benéfico e urgente. É ele que mais facilita o acolhimento dos muçulmanos nas sociedades europeias (norteado por uma cultura do encontro e da hospitalidade) e é ele, por isso, o mais potente antídoto contra o terrorismo de matriz fundamentalista.

2. A respeito do diálogo inter-religioso, afirma o Papa Francisco na exortação apostólica Evangelli Gaudium (n. 250): «Uma atitude na verdade e no amor deve caracterizar o diálogo com os crentes das religiões não cristãs (…)», é «uma condição necessária para a paz (..)»; com ele «aprendemos a aceitar os outros na sua maneira diferente de ser, de pensar e de se exprimir». E no recente discurso aos participantes num encontro promovido pelo Pontifício Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos: «…o antídoto mais eficaz contra qualquer forma de violência é a educação à descoberta e à aceitação da diferença como riqueza e fecundidade.»

3. Não podem confundir-se expressões marginais de fanatismo extremista, que instrumentaliza a religião islâmica em função de um projeto ideológico e político, com o sentir da maioria dos muçulmanos, nestes incluindo os que vivem em Portugal e os seus representantes. A estes também repugna o terrorismo, e, mais ainda, repugna a instrumentalização da sua fé para o justificar. Com estes podem os cristãos encontrar riquezas comuns (em torno dos princípios do amor a Deus e ao próximo) e criar laços de fraternidade.

A eles se refere a declaração Nostra Aetate (n. 5), do Concílio Vaticano II: «A Igreja olha (…) com estima para os Muçulmanos, que adoram o Deus único, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente (…)»; «Embora ao longo dos séculos não poucas discórdias e inimizades tenham surgido entre Cristãos e Muçulmanos, o sagrado Concílio exorta todos para que, esquecendo o passado, pratiquem sinceramente a mútua compreensão, defendam e promovam, em comum, a justiça social, os bens morais, a paz e a liberdade para todos os homens.»

O conflito de civilizações do passado não tem, pois, que reproduzir-se no futuro.

4. Para evitar o choque de culturas, a solução não reside em eliminar do espaço público todas as manifestações religiosas, relegando-as para a esfera estritamente privada. Nas religiões encontram muitas pessoas um sentido para as suas vidas, a força para enfrentar as dificuldades, o cimento da harmonia familiar e comunitária. Não pode pretender-se que os muçulmanos e outros crentes deixem de o ser, reneguem a sua fé, para poderem ser acolhidos nas sociedades europeias. Essa pretensão acabaria por favorecer o extremismo fundamentalista, que rejeita esse acolhimento. No seu discurso ao Parlamento Europeu, o Papa Francisco associou esse extremismo ao «grande vazio de ideais a que assistimos no chamado Ocidente» e citou uma afirmação do seu antecessor Bento XVI: «o que gera a violência não é a glorificação de Deus, mas o seu esquecimento». 5. A liberdade de expressão é um valor precioso das sociedades livres e democráticas. Mas tem limites, porque, como afirmou Bento XVI na sua viagem ao Líbano, «a liberdade humana é sempre uma liberdade compartilhada, que pode crescer apenas na partilha, na solidariedade, no viver juntos, com determinadas regras.»

Comissão Nacional Justiça e Paz

As vantagens de não se julgar infalível


Frei Bento Domingues, O. P., in Público 08FEV2015

As vantagens de não se julgar infalível (II)

Frei Bento Domingues, O. P.

1. Há vantagens em não se julgar infalível. A primeira de todas talvez seja esta: o mundo não começou comigo nem vai acabar quando eu morrer. Os que jogaram ou jogam na ficção da infalibilidade gostariam de parar o tempo que vai medindo todas as mudanças. A verdade, no entanto, nunca é uma posse definitiva, mas um horizonte irrenunciável que exige um trabalho nunca acabado. A busca da “teoria de tudo”, para explicar o universo, pode ser um grande motor de investigação, mas por enquanto ainda vive no campo dos sonhos fecundos.

Há pessoas e instituições que retardam, quanto podem, as mudanças. A chamada cultura tradicional procura assegurar a reprodução do passado no futuro. O método era o da iniciação das crianças nas teias do passado e acrescentar-lhes um feitiço, um tabu, que desgraçaria a vida de quem violasse essa herança. A cultura moderna coloca o acento na inovação do conhecer e do fazer: fazer acontecer o que nunca tinha acontecido e libertar o horizonte de preconceitos.

Se há pessoas e instituições apostadas em retardar as mudanças, existem outras que as aceleram. O dogma da infabilidade papal, no século XIX, pretendia parar o tempo, barrar o caminho a mudanças, sobretudo na Igreja, mesmo fora do âmbito restritíssimo da aplicação desse dogma. O importante era criar, nas pessoas e nos grupos, a ideia sub-reptícia de que tudo o que vinha de Roma trazia o carimbo da infalibilidade. Ressuscitava-se o adágio: Roma falou, assunto encerrado. Roma locuta, causa finita.

2. Este estilo serviu, maravilhosamente, para envenenar a questão dos ministérios ordenados das mulheres, nos anos 80-90 do século passado. Já no tempo de Paulo VI, a Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) tinha apresentado as razões para impedir a admissão das mulheres ao “sacerdócio ministerial” (15.10.76).

João Paulo II reitera os mesmos argumentos em 1988, mas perante a situação de debate aberto, enviou uma Carta Apostólica ao episcopado (1994), concluindo: Portanto, para que seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar os irmãos (cf. Lc 22,32), declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja.

De facto, Roma locuta, mas a questão não ficou nada arrumada. Em 1997, a CDF teve de responder se sim ou não esta declaração papal tinha carácter infalível. A resposta é “embrulhada” e vai dar lugar a novas interpretações. J. Ratzinger, no seu comentário, diz que não se trata de um acto nem de uma definição solene ex cathedra. Salienta, no entanto, que é definitiva e irreformável. Seja como for, a resposta da CDF não pode ter carácter de infalibilidade!

Com todas estas subtilezas, a ordenação sacerdotal, umas vezes ultra valorizada, outras vezes nem por isso, esquece-se que, no Novo Testamento, o vocabulário sacerdotal só se aplica a Cristo e ao conjunto dos cristãos, ao povo sacerdotal. O resto são ministérios, “ordenados” ou não, que vão variando com o tempo.

3. Não existem apenas pessoas e instituições para travar a inovação. Na onda do Papa Francisco, que já se tinha admirado e lamentado de ver tão poucas mulheres na Comissão Teológica Internacional, realizou-se, em Roma, entre 4 e 7 deste mês, a assembleia plenária do Pontifício Conselho da Cultura (PCC). No momento em que escrevo, não posso saber o que daí irá resultar.

Não é preciso destacar a importância do tema, As culturas femininas: igualdade e diferença. Alegra-me que o instrumento de trabalho tenha sido elaborado por um grupo de 12 mulheres italianas, de reconhecido prestígio no mundo da arte, da comunicação ou da universidade, como foram apresentadas.

O quarto ponto desse texto aborda o papel das mulheres na Igreja. Depois, volta-se para a crise que se vai afirmando a partir das mais jovens. Verifica que, no Ocidente, as mulheres entre 20 e 50 anos vão menos à missa, optam cada vez menos pelo matrimónio religioso, poucas seguem uma vocação religiosa e, em geral, mostram uma certa desconfiança pela capacidade formativa dos homens religiosos, diríamos, do clero.

Com efeito, eles afirmam-se a partir de um lugar, de uma posição e com uma autoridade que os leva a julgarem-se superiores às mulheres. Se assim não fosse, eles não estariam onde estão e elas não teriam de verificar que, na Igreja, há serviços, ministérios, de que as mulheres, por serem mulheres, estão excluídas.

Os homens da Igreja têm uma imagem da mulher que, no geral, já não corresponde à realidade. As mulheres já não passam a tarde a rezar o terço ou em devoções piedosas. Muitas são trabalhadoras, directoras ocupadas como os homens, ou até mais, pois, muitas vezes, recai especialmente sobre elas o cuidado da família. São mulheres que alcançaram, quase sempre com muito esforço, postos de responsabilidade e prestígio na sociedade e no mundo do trabalho, às quais não corresponde nenhum papel de decisão ou de responsabilidade na e para a comunidade eclesial.

Veremos o que a assembleia do PCC tem para nos dizer, de novo e sem infalibilidade nenhuma.

Público, 08.02.2015

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

UM OLHAR OUTRO


UM OLHAR OUTRO

Há momentos na nossa vida que ficam registados na memória, mesmo sem o querermos, porque se nos impõem. E quando, adiante, nos reportamos ao passado, eles são citados com naturalidade.

Como padre, falarei, no futuro, com naturalidade do que me «surpreendeu» no sábado passado: 22 pares de noivos, dos 29 que querem casar na nossa Paróquia, aceitaram o convite de passarem uma tarde com a Equipa de Pastoral Familiar.

Primando pela pontualidade e pelo àvontade, bem cedo «quebraram o gelo» dando origem a um diálogo próprio de adultos responsáveis. E os comentários foram saindo com naturalidade às questões propostas: porquê casar hoje e porquê casar na Igreja, num tempo e numa cultura de desafeição pelo mundo religioso.

Surpreendidos porque «não foi uma tarde chata» e «até pasou depressa», aqueles noivos surpreenderam-me positivamente.

Tenho de reconhecer que, também eu, às vezes, me deixo influenciar pelas vozes dominantes numa cultura de massas, superficial e irresponsável. Quase todos de mais de trinta anos, bem maduros na idade biológica, revelaram-se também maduros no modo como se preparam para o casamento e como sonham o «grande dia». Na questão «casar-se ou juntar-se», os que já vivem juntos - poucos no grupo, ao contrário do que se pensa – afirmam «falta-nos qualquer coisa» ou «há muito que para nós está decidido: viver juntos só após o casamento». Registei a frase: «quando, no futuro, olharmos para trás, a data das nossas memórias será a do casamento, não a do dia em que nos «juntámos».

A destacar também que «casamento que vale é o da Igreja». E não só por ser «mais bonito». Mas porque «somos católicos e assim nos ensinaram os nossos pais», mas porque «nunca esteve nos nossos planos que não fosse na Igreja».

Cada vez mais se nota que os pedidos de casamento que nos chegam vêm já mais ou menos bem elaborados: sabem o que querem e porque o querem e até como o querem. Dou graças a Deus por isso e por poder dizer que, raramente, me aparece algum caso de recusa da preparação proposta.

E aceitam bem que se lhes proponha uma celebração cuidada e bem preparada, desde a ornamentação, que deve evitar exageros, até ao grupo coral que vai animar, de preferência um coro litúrgico que faça a assembleia participar em vez de um trio que vai «dar o seu show» ou grupo interessado em vedetismos e cachet.

Estamos diante de uma nova geração «cansada» dos «enlatados» e que pensa com seriedade o seu futuro? Mesmo mais exigente, verdadeira e empenhada na celebração da fé? Em equipa partilhamos com alegria estas «relevâncias» do encontro.

                                                               P. Abílio Cardoso

domingo, 8 de fevereiro de 2015

RITUAIS DO CARNAVAL


RITUAIS DO CARNAVAL

PASSAGEM DO TEMPO INVERNAL PARA O TEMPO PRIMAVERIL

José Rodrigues Lima

 

A festa cíclica do Carnaval está presente no meio rural e urbano. Porém, é nas comunidades tradicionais que o encontramos mais genuíno, projectando-nos na ancestralidade, na memória colectiva e no inconsciente cultural.

O Entrudo é festa da abundância: “Ruge o pote e o prato”; “Haja vinho na caneca e porco na salgadeira”; “O Entrudo é comilão, se queres saber ao certo dá-me carne, vinho e pão”.

 

REGENERAR O MUNDO

No dizer de Roger Caillois, a festa pretende restaurar o caos primordial, reactualizar as cosmogonias, teatralizando e mimando os gestos dos deuses e antepassados, porque o tempo mítico da desordem é um tempo criador, e necessariamente será também renovador do cosmos envelhecido. “A festa é assim celebrada no espaço-tempo do mito e assume a função de regenerar o mundo”.

As teses referentes à origem do Carnaval podem-se sintetizar em quatro: vegetalista, celta, greco-romana e medievalista.

Existem indicadores que convidam a encarar o carnaval moderno como uma espécie de “eco moribundo” das festas antigas do tempo das Saturnais.

O grande antropólogo Caro Baroja, autor do livro “El Carnaval”, verdadeira bíblia deste ciclo festivo, escreveu que “quando o homem acreditou de uma forma ou de outra que a sua vida estava submetida a formas sobrenaturais surgiu o Carnaval”. O mesmo investigador afirma que “o Carnaval merece respeito”, estudo e análise, não só como fonte de grandes criações plásticas, sendo de mencionar Brueghel e Goya, mas também musicais, recordando Schuman, Berlioz e Paganini.

 

DEITAR FORA O INVERNO

Mircea Eliade mencionando um texto do século VIII, afirma que as populações alemãs “in mense Februario hibernum credi expellere”, que tem a seguinte tradução: “no mês de Fevereiro deve-se deitar fora o Inverno”.

De acordo com J. Heers, o Carnaval começou por ser uma procissão como tantas outras, uma dança de primavera que, quase de certeza, recuperou antigas memórias ligadas aos cultos pagãos de outrora, dos deuses campestres e das forças da natureza. Alguns autores não hesitam em evocar, com a maior naturalidade, a tradição das Bacanais, das festas da terra, do vinho e das florestas. Sublinham-no por interpretação etimológica ao fazer derivar directamente a palavra do latim do carro em forma de navio, “currus navalis”, que ilustrava as procissões.

O Carnaval como todas as festas profanas ou religiosas, sem dúvida de inspiração muito antiga ou de impregnação cristã, apresenta numerosos espectáculos públicos, reflexos espontâneos de uma civilização, referências preciosas para o conhecimento de uma cultura.

 

O IMBOLC CELTA

As teses referentes à origem do Carnaval podem ser sintetizadas em quatro: vegetalista, celta, greco-romana e medievalista.

A tese celta leva-nos a registar alguns dados. Assim, E. Powell sublinha que os celtas acreditavam em poderes mágicos que envolviam todos os aspectos da vida e do ambiente. O ano celta achava-se certamente, dividido em duas estações, quente e fria, sendo os períodos de transição marcados por quatro festas: Samain, Beltaine, Lugnasad e Imbolc.

No início da estação clara, Beltaine, celebrava-se a festa do deus Lug. Era a data das grandes assembleias druídicas, em que se faziam fogueiras cerimoniais.

No primeiro de Fevereiro tinha lugar a festa de purificação do fim do inverno, o IMBOLC. Antigamente explicavam-na como sendo o começo da lactação das ovelhas. A festividade foi substituída pela festa cristã de Santa Brígida, seguida pela Festa das Candeias, como explica E. Powell, H. Hubert e F. le Roux e J. Guyonvarc’h.

O investigador C. Gaignebet, autor do livro “Le Carnaval. Essais de mytologie populaire” (1974) sustenta: “há pois motivo para perguntar porque é que um conjunto de ritos indoeuropeus, as purificações no início de Fevereiro se conservam, por ventura inseridas nas festas celtas, especialmente no Imbolc”.

Sem pretendermos fazer doutrina não será que nos rituais do carnaval, e mesmo nas comemorações do enterro do Pai Velho, não se conjugam reminiscências ancestrais dos celtas? É de referir que no Lindoso há bastantes marcas culturais dos castrejos.

Devemos referir que Mircea Eliade, mencionando um texto do século VIII, afirma que as populações alemãs “in mense Februario hibernum credi expellere”, que tem a seguinte tradução: “no mês de Fevereiro deve-se deitar fora o Inverno”.

 

CATARSE COLETIVA

O Carnaval é uma festa de todos, dos simples e dos pobres.

Uma boa oportunidade para os sisudos se extroverterem e para os grupos realizarem uma “catarse colectiva”, esquecendo o quotidiano que esmaga para reinar a alegria, com “rituais cósmicos, de inversão, ostentação e fertilidade”, reafirmando a identidade colectiva, conforme o antropólogo Joan Prat.

 

O ENTERRO DO PAI VELHO

As festividades carnavalescas no Lindoso, aldeia do concelho da Ponte da Barca, celebrizada pela sua história e respectiva barragem premiada, revestem-se de particularidades, que lhes concedem características do Carnaval da tradição portuguesa.

            Os octogenários, eles e elas, são pontos de referência obrigatória, para ajuizar se tudo está a ser preparado conforme a tradição. Existe uma sabedoria estratégica que passa pela escolha dos carros de tracção animal, do gado, pelo jogo das campainhas, pelos jugos, pelos enfeites, pelas cantigas, pelos tocadores de concertina, pelo horário dos cortejos, pelo trajecto definido, pelos bailes, pelas dádivas comestíveis durante os desfiles, pelos "barredouros", pelos disfarces, pela choradeira na queima do Pai Velho, pelo testamento onde constam as ofertas do falecido, pelas referências de índole social e pela ocultação da escultura simbólica, como autêntico "churinga" de povos australianos.

            As festividades do Enterro do Pai Velho, que "apesar de não ter festeiros, sempre tem festa", são consideradas as mais típicas da povoação, e podemos dizer, únicas no norte do país.

            Trata-se de uma vivência ancestral, que contribui expressivamente para a "coesão social da aldeia", e para revigorar a identidade colectiva de uma povoação histórica e tradicional, que mantém vivências comunitárias.

            O cortejo, para além de outros elementos, é constituído por carros adornados, "simbólicos e chiadouros", puxados pelo melhor gado da aldeia, belamente engalanado, sendo um deles o do "Pai Velho", e o outro o "Carro das Ervas".

            O largo junto do Castelo do Lindoso, mesmo ao lado do conjunto dos espigueiros e a eira comum, é o espaço privilegiado onde se desenrolam as importantes cerimónias anuais de transição, do ciclo do Inverno, frio e estéril, para o ciclo da Primavera, mais quente e fértil, e que fazem parte do "inconsciente colectivo".

            Se pretendermos estabelecer uma rota dos cerimoniais carnavalescos, para além do Enterro do Pai Velho, teríamos que participar, também, na Dança dos Carpinteiros, na freguesia de Gandra, e nas Mecadas de Verdoejo, do concelho de Valença.

            Esta trilogia constitui o Entrudo do Alto-Minho.

 

A FOGUEIRA SIMBÓLICA

O grande investigador e filósofo das religiões J.Frazer, na sua notável obra “ RAMA DOURADA”, dedica um capítulo aos festivais ígneos. Afirma que em quase toda a Europa “a crença que o fogo promove o crescimento dos meses, o bem-estar dos homens e dos animais, quer estimulando-os positivamente quer evitando os perigos e as calamidades”.

Refere que os celtas tinham festivais ígneos, queimando imagens cobertas de ervas, no meio das quais os druidas encerravam vítimas.

W.Mannhart  interpreta o costume de queimar as vítimas como uma cerimónia mágica com a intenção de assegurar a luz solar suficiente para as colheitas, levando-nos a concluir a importância agrária destes rituais.

È de sublinhar a grande festa “Beltaine, (fogo de Bel),no primeiro de Maio, em honra do Deus Lug, sob aparência da luz. Era a data das assembleias druidas, em que se faziam grandes fogueiras cerimoniais.

Parece-nos que a grande fogueira que no Lindoso queima o corpo empalhado do Pai Velho, os enfeites e as ervas, tem um fundo celta.

Aliás, é de acrescentar que inúmeros ritos de purificação pelo fogo, geralmente ritos de passagem, são característicos das comunidades agrárias, e simbolizam os incêndios dos campos que se adornam , depois, com um manto verde da natureza viva, de acordo com J.Chevalier.

O fogo é, acima de tudo, o motor de regeneração e simboliza a acção fecundante.

O Padre António Vieira salienta nos “ Sermões” que “o maior”, o mais nobre e o mais nobre escondido tesouro do universo é o quarto elemento, o fogo.

É crença popular que o fogo e fumo têm a virtude de purificar os campos e os animais, e livrar os homens da influência dos maus espíritos.

 

  

Solicitar Assistência Espiritual nos Hospitais:


Solicitar Assistência Espiritual nos Hospitais:

é um exercício da cidadania crente

As doenças não são castigos de Deus por causa do pecado, nem existem porque

Deus as tolera ou permite. Fazem parte da condição humana e revelam que o

nosso corpo é frágil e vulnerável, que somos mortais. Dão conta do nosso dever de

cuidar do corpo e da saúde, própria e dos outros, de cuidar da natureza.

As doenças e sofrimento severos, porém, não atingem apenas o corpo, mas ferem
 

também a alma e é aí que reside o problema do sofrimento. A pessoa sente-se abalada

por fortes vendavais de emoções negativas; sente posto em causa o desejo de vida

plena; experimenta a irrupção de fortes sentimentos de culpa até aí ignorados; e

vê-se confrontada e magoada com interrogações sobre a vida e seu sentido, sobre a

bondade de Deus e a sua existência, perguntas para as quais não vê resposta. À dor física junta-se a dor psíquica, existencial e espiritual.

Para a dor física e psíquica há medicinas ou terapias. E para a dor existencial e espiritual, a que terapêuticas recorrer?

A assistência espiritual e religiosa nos Hospitais torna-se, portanto, uma emergência para muitos doentes. É vivida como uma particular fonte de conforto, bem-estar, paz, saúde. A tradição da Igreja e a experiência dos profissionais assim o afirmam e a literatura científica recente comprova-o. Na verdade, a vida espiritual fomenta a reconciliação consigo, com os

outros e com Deus, abre para o sentido da vida e impulsiona a procura de Deus, respostas que vão de encontro às necessidades do doente, de encontro às suas interrogações.

Por isso quem nega ou impede a assistência espiritual e religiosa é insensível, violento, antidemocrático, insensato e desumano. O Decreto-lei 253/2009, que a regula nos Hospitais do Serviço Nacional de Saúde, reconhece-a não só como «uma necessidade essencial, com efeitos relevantes na relação com o sofrimento e a doença », particularmente no sofrimento severo, mas também como um «fator de qualidade» ao nível dos cuidados prestados.

Dizer que a assistência espiritual e religiosa  nos hospitais é um bem para o conforto

do doente já era um motivo mais que No próximo dia 13 de fevereiro, sexta-feira,

realiza-se a primeira conferência dedicada ao tema Olhares sobre…Economia e

contará com os seguintes oradores: Ex-ministro Miguel Cadilhe ,Ex-secretário da UGT, João Proença, Silva Peneda, presidente do CES.

O debate sobre este tema contará com a moderação de Graça Franco, diretora editorial

da Rádio Renascença. Mediante inscrição em www.gti.pt, poderá  de forma gratuita, assistir presencialmente ou online (www.novaagora.pt), a cada uma das 4 conferências.

Solicitar Assistência Espiritual nos Hospitais: um exercício da cidadania crente suficiente para a sua existência, mas ela é sobretudo um direito do doente, reconhece o Decreto-lei. Deve, por isso, existir nos Hospitais e funcionar de forma organizada e regular, sem impedimentos, a fim

de satisfazer as necessidades espirituais e religiosas dos utentes que a solicitem de forma adequada e atempada, segundo a sua vontade e de acordo com a liberdade de consciência, religião e culto. Todos os doentes, seja qual for a sua religião, têm direito a cuidados espirituais e religiosos, segundo a sua vontade; a serem assistidos a qualquer hora, sem prejuízo dos cuidados de saúde e do bem-estar dos outros doentes; a verem respeitadas as suas convicções

e a não serem incomodados ou pressionados por quem quer que seja para assistência

que não desejam; a ter literatura e objetos religiosos consigo, e a verem respeitadas

as suas convicções; a serem informados sobre a assistência espiritual e religiosa e a participarem em atos de culto.

Em conclusão, a hospitalização não constitui um impedimento à prática religiosa (nem isso faria sentido), mas o doente crente deve manifestar-se sem medo ou vergonha. Deve pedir a

assistência  espiritual e religiosa aos enfermeiros ou outros profissionais e se encontrar

alguma obstrução indevida deve reclamar. Solicitar a assistência é um bem não apenas para si próprio, mas também a afirmação de um ato consciente e livre na defesa dos seus direitos e na defesa da cidadania crente no presente e no futuro.

Solicitar a assistência não é só um direito legal, é também um mandato do Senhor e por isso um dever do cristão doente, diz S. Tiago (cf Tg 5, 14), para que se realiza nele o mistério de comunhão no amor de Deus, fonte de vida e de saúde.

Por último: se a vida espiritual é fonte de bem-estar e conforto e se, como dá conta a

literatura, previne a saúde e influencia a recuperação, tornando-a mais rápida, se tem

um efeito placebo isso não significará que tem influência positiva nos custos de saúde?

Então porquê a má vontade e os obstáculos? Que interesses estão por detrás?

P. Fernando Sampaio, In Ecclesia, n.º 101, 05.02.2015

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Dar Alma à Vida XXXVIII


Dar Alma à Vida XXXVIII
 
 
 
 
 
da XXXVIII

Dar Alma à Vida é saber escutar com vontade de se deixar penetrar pela palavra do profeta que fala em nome de Deus.

Saber discernir entre o que é a vontade de Deus e o que é a vontade do mundo.

Saber distinguir o que é palavra do homem e palavra de Deus.

 
 
Dar Alma à Vida dizia o Beato Paulo VI que é o homem que sabe escutar com melhor boa vontade as testemunhas, e os que os mestres. Há mestres e mestres; há os que falam com autoridade e os que não têm autoridade nenhuma.

Dar Alma à Vida é dar exemplo, isto é, fazer e depois dizer, pois era o que fazia o nosso Mestre Jesus. É por isso que Lhe reconheciam autoridade. Aquilo que diz é verdade… tem valor, e dar Alma à Vida é dar testemunho com a Vida.

Dar Alma à Vida é aliviar a cruz dos outros, ser cireneu e abertos a uma nova esperança, fazer bem de olhos fechados, ou, sem saber a quem, porque o outro pode ser o Mestre dos mestres.
 
 

Dar Alma à Vida é saber ser forte sem ter, mas porque é rico em saber ser.

Dar Alma à Vida não é prisão às tradições dos nossos antepassados, mas respeitá-las e abrir-se constantemente à criatividade e disponibilidade para servir a Deus no momento presente.

Dar Alma à Vida é estar atento à voz do Profeta que, de verdade, fala aquilo que lhe foi ordenado. O que lhe sai da boca, são palavras de Deus.

Dar Alma à Vida é estar feliz porque se sabe discernir entre as palavras de Deus e as que não são de Deus; que sabe escutar para as viver e dar testemunho com obras e não só com palavras aquilo em que acredita.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O que o sofrimento pode me oferecer de bom?


O que o sofrimento pode me oferecer de bom?

Deus não nos oferece o sofrimento como castigo, e sim como caminho
Padre Carlos Padilla
 
                                                                                                                                                                          © Agustín Ruiz / Flickr / CC
 
Ninguém quer sofrer. Isso vai contra nossa natureza, que busca a felicidade, a paz, o descanso, a alegria. Não há nada mais contrário ao nosso querer. Sofrer nos parece desnecessário, duro demais.

É nessas horas, quando nos faltam forças, que Deus nos sustenta. Isso vale especialmente quando Deus nos leva à escola do sofrimento. Para Paulo, é natural que nós, em nossa qualidade de membros de Cristo, sejamos associados à sua Paixão, e que o padecimento não só signifique colapso de forças humanas, senão também surgimento de forças divinas e abundante fecundidade da nossa vida e das nossas obras.

A escola do sofrimento. Deus o permite em nossa vida. Deus nos ama e, em seu amor, tolera que soframos.

O coração se rebela contra todo sofrimento. Não queremos padecer, não queremos sofrer a perda nem a dor. Queremos uma vida plena. Uma pessoa rezava assim a Jesus em sua dor:

"Conheço muito bem as perdas. Desde pequena tive de sofrê-las. As mais abruptas, as que me deixaram sem ar. Deus saberá explicar-me tudo no final do caminho. O tempo fará o resto, acalmará um pouco a ausência, curará um pedaço do meu coração ferido.

Enquanto isso, Tu me guias por este mundo com a tua luz, Senhor, que, da estrela mais brilhante, do mar mais profundo e dos cumes mais altos, me mostra que só se chega a Ti pela tua cruz."

O caminho do sofrimento é o caminho da cruz. Não acho que Deus nos mande as cruzes. Mas a cruz vem ao nosso encontro sempre, porque somos limitados, porque o tempo desgasta tudo, porque a natureza nos fere.

Então chega a dor e o sofrimento. E Jesus está aí, na minha cruz. Muitas vezes não encontraremos o sentido. Na verdade, isso nem sempre será necessário. Só pedimos a Jesus que não solte nossa mão, que não nos deixe sozinhos na vida, sem sua companhia, sem sua força e estímulo. É disso que precisamos.

Falando da sua doença, a Dra. África Sendino comentou: "Se Deus me desse a oportunidade de voltar no tempo e me oferecesse a possibilidade de escolher entre as duas opções possíveis – saúde ou doença –, eu não poderia dizer 'não' ao que me aconteceu.

Porque Deus não nos oferece a doença como castigo, mas como caminho. Porque neste caminho estou aprendendo intensas lições.

Compreendo que a Providência divina não é uma simples abordagem, mas uma realidade cotidiana que me aguarda no rosto dos meus amigos. E presencio, como um espetáculo grandioso, até onde pode chegar a bondade dos que me cercam."

Na dor, não somente nos encontramos com o rosto amigável e próximo de Deus, com sua mão que nos sustenta, mas também com o rosto de todos os que cuidam de nós, que velam por nós, que nos acompanham.

Por isso, queremos pedir a Deus essa liberdade interior diante da vida. Entregamos a Deus nossos medos confusos diante do futuro, o temor que nos invade ao pensar em tudo o que pode nos acontecer. Entregamos a Deus.

Trata-se de viver inscritos no coração de Jesus. Lá, pouco importa o que possa acontecer. Quando Ele segura nossa mão, todo medo desaparece.