sexta-feira, 10 de julho de 2015

Dar Alma à Vida XLVII


Dar Alma à Vida XLVII
 

Dar Alma à Vida é cuidar não só da higiene externa do corpo, mas também da higiene interna e, se para a higiene externa precisamos de água, também para a higiene interior precisamos de água para eliminar na digestão os detritos que são origem de muitas doenças e fazem perder para muitos a Alma que deve dar à Vida.

 
Dar Alma à Vida é respirar bem o ar da manhã antes do nascer do sol, na serra, na floresta, à beira mar, é fazer exercício ao ar livre para que o ar dos pulmões, o Espírito, o sopro do espírito, dê Espírito à Alma e à Vida.
 

Dar Alma à Vida é dar descanso ao cansaço e não é dormir demais.

Dar Alma à Vida é ser sóbrio no comer, no vestir, nos nossos bons actos diários para que tenham a força moral e sejam luz para os outros. Não sejam eles maus que matem a Alma, a Vida; não só a tua, mas a dos outros.

                                                                                                           Em Bari, Artur Coutinho

Dar Alma à Vida XLVI


Dar Alma à Vida XLVI

 

Dar Alma à Vida é dar ocupação sadia à nossa Vida, quer no aspecto espiritual, quer no material. É consagrar o tempo ao descanso e ao trabalho; o descanso revitaliza, recupera e o trabalho nunca é tempo perdido. É dar tempo à oração e ao convívio; a oração alimenta o Espírito e o convívio alimenta o equilíbrio corporal.

 
Dar Alma à Vida é dar tempo aos outros e a Deus. É fazer da Vida uma Vida para os outros com os olhos fitos no Alto.

Dar Alma à Vida é dar tempo ao silêncio que é sempre mais belo do que falar demais, sobretudo, quando se fala dos outros; ou se cochicha, criando mau ambiente entre as relações humanas com os outros com quem se convive ou com quem se trabalha. Muitas vezes o silêncio fala mais alto e melhor.

Dar Alma à Vida é fazer a boa acção de todos os dias, não uma, mas todas que elevam a Alma e incutem a fazer ainda mais e melhor em cada momento que passa.
 

Dar Alma à Vida é ajudar o semelhante e ser bom samaritano; não é levantar a carga e levá-la, mas ajudar a levantar para que o outro siga com ela.

Dar Alma à Vida é educar a criança, diz-se “de pequenino se torce o pepino”, e “se não se quiser castigar o homem” é educá-lo para ser Homem ou Mulher com Vida e com Alma, após o nascimento.

Dar Alma à Vida é criar uma teia à nossa volta, onde a vida seja urdida com Alma.
 


Dar Alma à Vida é fazer feliz o outro sem o conhecer, ou melhor, é envolver-me na humildade do Mistério de Deus uno e trino: Criador, Redentor e Animador.

Dar Alma à Vida é sentir-me enredado nesta rede de “Deus é Amor”, segundo S. João.

                                                                                                       Avião, Artur Coutinho

Dar Alma à Vida XLV


Dar Alma à Vida XLV


É não fazer aos outros o que não desejas para ti mesmo. É Amar a Deus e ao próximo como a ti mesmo. São duas sentenças que darão Alma à Vida e saúde ao corpo.

É ter sempre presente que Deus quer o melhor para nós e que tudo o que nos possa inevitavelmente acontecer em nada deva afectar a serenidade do que a Alma dá à Vida.
 
Dar Alma à Vida é imitar o relógio do sol que mostra as horas com alegria, com clareza e que estes ajudam a vencer a tristeza ou qualquer névoa que perturba a nós, ao nosso Espírito, a nossa Alma.

Dar Alma à Vida é abraçar o trabalho como se fosse uma oração a Deus “Ora et Labore”, de S. Bento.
 

Seja qual for o trabalho, nunca te esquecerás que Deus aí está. A nossa Alma manifestará sinais de Vida e não de morte.

Dar Alma à Vida é não destruir o nosso corpo com alimentações abusivas em gorduras, em proteínas e a natureza nos oferece muita mais quantidade de alimentos para o corpo que o queremos são.

 
 O homem é escravo de costumes e tradições no prazer de comer, sobretudo, o que lhe faz mais mal e a resistência às mudanças é grande, mas é com a força da Alma que se vive o Espírito. Este é mais forte que a morte e, por isso, quem dá Alma à Vida vive mais tempo.                                                                                                       
                                                                       No Subiático- Artur Coutinho

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Vivências da Dor


Vivências da Dor

 

Quem sofre, sofre e mais nada. Mais dor, menos dor, cada um sofre as suas, ou a dos outros…mas um doente, normalmente, não gosta de visitas demoradas porque cansam, mas, com tempo comedido, é sempre acto de alívio, de conforto e esperança.

 
 
Como as pessoas que, por si, são negativas não se deve insistir demasiado. O pior que acontece a um doente é alguém que venha filosofar ou insistir demasiado na esperança porque não acredita nele, como aquele que pensa ainda em termos antigos: (É a tal história: está doente, está em pecado e enquanto não tiver acreditado e se confessar não sai “o mal” dele. “Deus não está com ele”. Está a sofrer os males que já fez na terra, agora que os pague. “O que cá se faz, cá se paga”, dizem ainda. Esquecem-se que os nossos juízos são sempre precipitados e não têm em conta os critérios de Deus.

Claro que o pecado, a desobediência deliberada consentida tirou-nos do paraíso…

 
Segundo a doutrina Buda a vida é uma dor e quanto mais se foge da dor, mais imperfeito é. Para chegar ao nirvana é preciso que ame a dor e o sofrimento como um dom para atingir a perfeição.

O nosso Deus, Deus de Amor, não quer que sejamos masoquistas, nem sadistas  e não nos impõe sofrimento. Ele sofre connosco e ninguém está sozinho quando tem dor.

Se alguém se queixa, tem sempre uma razão, ainda que seja uma dor psicológica, mas, que tem razão para se queixar, tem.

Normalmente as dores orgânicas distinguem-se com mais facilidade: hoje é de um pé, amanhã é de uma nádega, depois é duma perna ou dum braço; agora dói o peito ou as costas, o abdómen de noite ou de dia, doem os olhos e o que mais possam pensar. É do estômago, é de algo que não se sabe.

No caso dos fibromiálgicos até muitos os vêem como maníacos que precisam de psiquiatria.

A dor nunca está no local, mas na cabeça. Não é o pé que dói, é o pé que não está bem e transmite o seu mal aos neurónios.

Curando os neurónios, não se cura a dor, mas o sofrimento e o mal lá está no pé, por exemplo.

É preciso tratar do pé e não da cabeça. A cabeça é apenas o reflexo das transmissões pelos neurónios ao centro nevrálgico localizado no cérebro.

Conviver com a dor é sempre fácil quando se convive com fé e confiança n’Aquele que sofreu por nós, sem cometer pecado. A nossa dor nunca será igual à d’Ele.
 
 
Nós merecemos, mas o Mestre não fez mal algum e nós não somos mais que o Mestre.

A dor acaba por nos lembrar que, assim como temos deitar sentido à nossa Alma, há que cuidar do corpo. A Alma dá sempre Vida ao corpo quando ela quer ser grande ao modo de Jesus Cristo, e não ao modo de qualquer coisa porque muitos se dividem por Deus e pelo Diabo, pelo Bem e pelo Mal, e, neste caso, não se observa o conformismo porque no meio não é provado que esteja a virtude. Deus é radical. Ama e só Ama. Nós não podemos estremecer entre o sim e “o sopas”. Ou é sim ou “sopas”. Sim ou não e não há meio-termo, pois aí está toda a razão da nossa vida. Como o amor conjugal, não pode ser um amor assim, assim… Descobrir essa razão é precisamente descobrir o sentido da nossa Vida com Alma, viver com Alma porque a Vida é dom de Deus.


A dor, se superável, faz parte a Vida. Não há Vida sem dor nem, dor sem Vida; os mortos já não sentem nada, mas aí já não tem, aí a Alma que, pela serenidade com que sofreu goza eternamente com o prazer da Vida com Deus, ou então, sofre porque, na posse da verdade, lhe falta a felicidade da Presença que devia ser do seu Criador…

Conviver com a Dor leva-nos a tirar a conclusão de que quando damos ou recebemos somos alertados para a responsabilidade de nossas vivências, valores, sentimentos, condutas… Somos levados a estar atentos mais ao nosso corpo, às nossas emoções e à voz interior e a saber compreender e tolerar o outro.

 
 
 
 
 
Custa menos o sofrimento quando vemos os outros como algo valioso… e estamos a integrar, elaborar, dirigir, aproveitar e usar o serviço do nosso bem-estar e discernimento, não do que somos e dos que são… e os que são. A oposição é sofrimento, segundo Arnaud Desjardins, porque ficamos revoltados quando rejeitamos. Carrega-nos mais essa cruz da revolta. Enquanto o assentimento é felicidade, conduz-nos à felicidade e recuperamos, aproximamos, pois o corpo é o santuário da Alma e nele se tem de viver com sintonia e equilíbrio que são manifestos nos olhos. É por isso que se diz que estes são os espelhos da alma.
 
 

A Alma gregária, ao dar Vida não pode existir e mata, nem pode deixar-se vencer por paixões.
 
Aqui não quero apenas me referir a uma dor em particular, mas nas suas mais variadas formas. Sejam quais forem, a resistência a elas como uma oposição, ainda aumenta a carga da mesma, isto é, maior o sofrimento, maior é a dor.
 

 
 
Quando lhe damos assentimento porque nela descobrimos algo de novo até somos capazes de nos sentir felizes. Mais facilmente nos preparamos para debelá-la e recuperar a saúde, porque nos fizemos mais próximos. Convivemos e dialogamos amorosamente. Fizemos que, no nosso corpo, houvesse um melhor equilíbrio e sintonia daquilo que lhe dá vida, que é a Alma; ainda que seja precária, ela é sempre com sentido elevado, positivo e vivido ao mais alto nível.

Fazer uma convivência sadia entre o Corpo e a Alma é saber compreender e viver a Dor; eis a forma mais simples de viver a Vida com Alma.







segunda-feira, 29 de junho de 2015

Violência


Violência

Manuel de Oliveira Martins
 
Todos os dias somos confrontados nos meios de comunicação com notícias de violência desmedida e injustificada, com origem, muitas vezes, em razões fúteis, que degeneram em agressão e/ou em morte.

Este surto de violência tem vindo a aumentar nos últimos tempos, é preocupante e merece das autoridades uma atenção redobrada e um inquérito às causas que estão na sua origem.

Sempre ouvi dizer que se deve ex-terminar o mal pela raiz, expressão com a qual concordo plenamente. Não se deve negligenciar os princípios básicos que regem a sociedade, sob pena de se perder o controlo dessa mesma sociedade.

A educação está na base de tudo o que se é na vida. Nela reside a essência da sociedade que construímos. A educação não suporta negligência e tolerância, antes pelo contrário, exige disciplina e rigor, que é muito diferente de prepotência e brutalidade.

É no «berço» que se criam e perpetuam para a vida os bons hábitos, que a escola deve complementar, e corrigir nos casos desviantes de conduta atípica motivados pela falta de carinho, atenção e amor, que não foram ministrados no «berço».

Os casos de violência que têm vindo a lume revelam que a sociedade está enferma e precisa urgentemente de ser tratada dos males que padece.

A polícia, entidade do Estado de direito, tem como missão principal garantir a segurança de pessoas e bens.

Não querendo fazer julgamentos prévios ao oficial de polícia que foi protagonista dos inqualificáveis incidentes ocorridos no dia 17 de maio, no final do jogo entre o Guimarães e o Benfica (penúltimo jogo da 1- Liga de futebol) que terminou com um empate a zero, nem tão-pouco classificar a instituição de Polícia por este ato tresloucado de um dos seus agentes, não posso deixar de mais uma vez apelar ao legislador para rever as regras de admissão e progressão dos agentes de autoridade, submetendo-os a exames psicotécnicos imprescindíveis para o exercício da profissão que envolve o contacto com seres humanos possuidores dos mais díspares caracteres e personalidades.

Os órgãos de comunicação social, céleres em dar a notícia em primeira mão para captar audiências, também precisam de aprender e ponderar, quando e como, devem dar a notícia para evitar o despoletar de situações como as que se viveram no Marquês de Pombal. E preciso ter consciência do acendimento do rastilho, para evitar situações desagradáveis como aquelas que se viveram na noite dos festejos do título na zona do Marquês de Pombal, que podiam ter sido muito mais graves.

Outro caso que se prende com a violência e que merece também muita atenção da parte do legislador, é o caso do sargento com baixa psiquiátrica, que possuía um arsenal de 30 armas, das quais 29 estavam legalizadas; a única que não estava foi a que originou o crime que vitimou o gerente da pastelaria de Benfica. Um militar perfeitamente identificado e com cadastro, com baixa psiquiátrica, não pode andar à solta nem ter acesso a uma arma, muito menos a 30.

Somos aquilo que criamos, para o bem ou para o mal. Não basta ter pão, é preciso ter educação, ferramenta primordial em toda a estrutura do ser humano enquanto membro de uma sociedade sadia e culturalmente evoluída.


A aurora do Lima – 18 de Junho de 2015

O primeiro filho


O primeiro filho
Sidónio Ferreira Crespo

 A parturiente, que fora internada no hospital da cidade onde vivia, acabou de deixar a sala de partos, após o nascimento de uma criança robusta e perfeita, que passou a alegrar todo aquele ambiente maternal. Mas a jovem mãe não conseguiu recompôr-se, naquele momento, o mais sublime de toda a sua vida, o de ver nascer o filho amado, desejado e esperado. Como reforço de apoio foi acompanhada pelo homem mais especial do mundo, que naquela altura era o seu entendimento, e que tinha escolhido para dividir tudo, inclusive, ou principalmente, aquela ocasião enorme, gigantesca, incontida, no palpitar de todas estas emoções.

Meio perdida, aliás, neste instante completamente, regressa ao quarto da maternidade, deixando o seu que há pouco tempo era parte do seu corpo, agora, aos cuidados médicos e de enfermagem, para o obrigar a respirar e a experimentar os seus primeiros momentos secos. A anestesia injectada através da milagrosa agulha, vai deixando a epidural de fazer efeito e a lucidez absoluta começa, então, a aparecer, a pouco e pouco.

Eis que chega, depois, a criança recém nascida. Rostinho redondo, toda flácida, rosada, num sossego que quase sufoca das ondas do amor que levanta dentro da gente. A chata da enfermeira pergunta se urinou e, quando finalmente, ouve a resposta afirmativa, acrescenta — e defecou? —. Bolas! Não são horas de falar nessas coisas, mas nos cuidados, futuros, do bebé.

É hora, também, de regularizar outras situações relacionadas com a higiene da mulher e daquele que há pouco era nascituro. — Venha tomar um banho. — Convida a danada da enfermeira.

A pessoa, enquanto tenta calcular todas as possibilidades de fuga viáveis, responde, automaticamente, após o parto, as sensações vividas são as mais estranhas. Parece que tudo está solto por dentro do corpo, sem caber, sem poder segurar-se. Pensar que, no primeiro passo a dar se iria tropeçar, de certeza, através da mente, no útero ou na bexiga, tudo vencido pela gravidade, toma-se um prodígio. O pensamento gravita no espaço físico que nos envolve, dando a impressão que não deve ser muito diferente do que andar no planeta lua.

O que não se poderia imaginar revelou-se, então, quando a enfermeira pediu para ser tirada a bata do hospital. Nos momentos seguintes, as cenas vividas deveriam estar censuradas para menores e, principalmente, para puérperas. A barriga, a barriguinha, da qual tanto se cuida virou uma... uma coisa completamente diferente do que era antes. Lamenta-se! Mas num jeito bastante ameno aceita-se, face ao prazer de ser mãe.

A enfermeira aconselha a usar cinta, a fim de dar início ao esforço, para arrumação interna, do organismo da pessoa. Nada está perdido. Tudo se conjuga. Vem a caminho a troca de fralda, o bálsamo, as gotas para as dores intestinais, a compensação do momento, a certeza de que tudo está no lugar adequado, na hora exacta, na conjugação com a mãe, o pai, restante família e aquela bênçãozinha toda acautelada. Meu Deus! Tudo gira em volta daquela criança e nem se dá conta de que tudo isso é o primeiro dia, ou na verdade, as primeiras horas, orientado pela enfermeira que dá, sempre, uma mãozinha.

Há mulheres e mulheres! Aquelas que não querem ter filhos por opção própria. Aquelas que queriam ter filhos, mas a medicina ainda não debelara as causas impeditivas. Aquelas que gostavam, porventura, de ter filhos, mas por variadas razões, tanto próprias, como conjunturais, ladeiam o problema do parto. E há as que a ocasião materna é tudo para elas. Criar um ser, dentro delas, preso por um cordão umbilical, durante cerca de nove meses e sentir, com o tempo, essa nova pessoa a criar forma e a dar sinais de vivacidade, torna-se fenomenal, além de se transformar num dos maiores dons da natureza. 0 Projecto procriar, à primeira vista, é muito assustador. Surge a responsabilidade, na vida, de ter que administrar, pela primeira vez, algo que não pode, jamais, dar errado. Não se pode acabar, cancelar, adiar, deixar para o outro dia, protelar, prorrogar, delegar, fugir, a correr, para o meio da rua... É necessário encarar!

O primeiro dia em casa, após a maternidade, torna-se uma loucura. Falta a prática, sobra a manga da camisa para uns bracinhos tão miudinhos, sem falar nos intermináveis choros e nos "cocós” em jacto. E o banho? Loucura colocar na banheira uma coisinha de tão pequena dimensão e friorenta. Muitas fraldas. As cólicas prosseguem. Depois, tudo se acalma. A rotina torna-se agradável...

Uma vez em casa, por norma, tudo fica a cargo da mãe, que atende o bebé, além do não menos trabalhoso puerpério. Nesse período, segundo dizem os peritos do foro da obstetrícia, tecnicamente compreendido entre os doze meses que separam o parto da vida normal, as primeiras semanas são maçadoras. O peito incha, dói, seca, dói de novo, depois racha, a cinta aperta, a barriga cai toda a vez que se vai tomar banho, mas o marido e os pais, dos dois lados, agora avós, tentam controlar todas estas crises que afectam o normal funcionamento familiar. Se os réditos, porventura, não escasseiam, pensa-se consultar o cirurgião plástico, a fim de reparar todas aquelas sequelas, através do silencioso bisturi, sem tão-pouco esquecer as estrias corporais, que só com cremes e massagens ficam apenas disfarçadas. E ninguém dorme dentro de casa... porque o redentor pequerrucho acorda, a cada instante, na sequência dos eventuais ataques de choro.

O tempo passa... As feridas cicatrizam, a barriga volta ao normal, pelo menos ao que se pode considerar normal, dali para a frente, e os hormónios estabilizam. Nota-se o desdobrar das unhinhas das crianças, as fraldas vão sujando menos, o umbigo cai, os sonos equilibram-se e tudo, então, se vai ajustando. Chegará o dia em que a mãe e o pai conseguem acertar, novamente, a metarmofose do viver.

É uma delícia presenciar o rebento a crescer... Observar os primeiros sorrisos, a ida às vacinas, as iniciais tentativas de segurar as coisas, o jeito que vai tomando, que cada dia se torna mais apaixonante. Mas, quando se está no auge do idílio, acaba-se a licença de maternidade. Que aborrecimento! Um novo cordão de vida se parte. Uma ruptura mais doída, é verdade, mas tudo terá de ser adaptado, atenta a lei natural que rege as coisas.

É nos doze primeiros meses de vida que a criança alcança a sua maior taxa de crescimento. O normal é dobrar de tamanho e de peso. Sem falar, tão-pouco, no que tem de aprender a sentar-se, a andar, a expressar as vontades, a comer, a brincar, a rir e a falar. Vieram os primeiros passos, as primeiras quedas e, logo em seguida, um tombo enorme, que se espera ser o único, mas que nunca bate certo. Para maior complicação surge, ainda, a esquisita comichão numa boca tão pequenina, devido ao nascimento dos primeiros dentes.

Engraçado! Como o bebé se desenvolve rápido. Aliás, de repente. Não é que se pariu hoje e nem se sente o tempo passar, até se perceber que virou a um sujeitinho voluntarioso e falante. Tudo acontece aos saltos! Num dia mal se sustentam sentados e passado pouco tempo estão engatinhando. Os primeiros anos de vida são um mundo cheio de descobertas, para o bebé, e surpresas, para os pais.

A gente fica parva cada vez que uma nova habilidade é adquirida, por mais que se tenha vivido tudo, ali, sempre de perto. Aparece o abraço mais apertado e querido do mundo, quando ele, ou ela, numa alegria cintilante, mostrando uma carinha cheia de felicidade, afirma, de forma peremptória, sem reservas íntimas, mais ainda com a voz oscilante, que ama os pais.

Nota: Este conto, por vontade do autor, não segue as normas do novo acordo ortográfico.

A aurora do Lima – 18 de Junho de 2015

Até as prostitutas vos precederão no Reino de Deus


Até as prostitutas vos precederão no Reino de Deus

Manuel José Ribeiro

Última crónica tinha como título "As mulheres e as religiões" e, sobre esse tema, relatava as pesquisas que tive de fazer para provar a seriedade do seu conteúdo. O título da presente crónica também não é invenção minha. Fui buscá-lo a uma sentença de Jesus Cristo, a que retirei a palavra "publicano” e acrescentei, para dar mais força expressiva, a palavra "até". Quem quiser ter uma noção das circunstâncias dessa frase poderá consultar o Evangelho de Mateus no capítulo 21, 23-32. A sentença textual de Jesus é esta: "Em verdade vos digo: os publicanos e as prostitutas preceder-vos-ão no Reino de Deus". Se tivermos em conta a quem Jesus dirigiu estas palavras fortes, poderemos concluir muita coisa. Estas palavras foram dirigidas aos Príncipes dos Sacerdotes, à poderosa e interesseira classe sacerdotal do Templo de Jerusalém, quando encontraram Jesus a ensinar e, de imediato, aqueles lhe perguntaram com que direito Jesus ensinava e quem lhe tinha dado a autoridade para isso! Se da palavra prostituta (ou meretriz ou puta] ninguém tem dúvidas quanto ao seu significado e à baixíssima posição social que "a mais antiga profissão do mundo" sempre ocupou, resta-me acrescentar que os publicanos eram odiados (isso mesmo, odiados) pelo povo de Israel, pois eles, além de cobradores de impostos para os Reis e para os Imperadores Romanos, também retiravam largas somas de dinheiro para si próprios. Umas e outros, já se vê, eram fortemente desconsiderados.

Portanto, se para Jesus até as mulheres mais desacreditadas socialmente — as meretrizes — eram mais dignas do que a classe sacerdotal do seu tempo (intelectualmente autoconvencida, soberba, poderosa, ciosa dos seus privilégios, gananciosa), qual seria a consideração de Jesus Cristo pelo comum das mulheres, das esposas e mães, que eram maltratadas quer pela Lei de Moisés e, claro, pelo poder patriarcal e machista dos homens do seu tempo? Obviamente: Jesus tinha pelas mulheres a mais elevada consideração!

E, de imediato, ocorre-me a pergunta (a mim e, muito provavelmente, aos leitores que me seguem). E tem justificação plausível o tratamento discriminatório (no mínimo) que a "classe sacerdotal" do cristianismo, a partir das imperiais cidades de Roma e Constantinopla, deu às piedosas mulheres cristãs? Nenhuma justificação. Jesus foi uma pessoa fora do comum, de elevadíssima inteligência e, realmente, de uma infinita bondade. Mas não deixou códigos alguns e muito menos manuais de doutrina ou de comportamentos de qualquer espécie, designadamente sobre matéria sexual, e fez tudo para banir os preconceitos do seu tempo. O único mandamento foi o do Amor (amai-vos os aos outros como eu vos amei) e a única oração foi a do "Pai-nosso que estais no Céu". No dia em que escrevo esta crónica (o Domingo do Corpo de Deus), é indubitável a posição de Jesus em relação a toda a humanidade e, claro, às mulheres. Trata-se do episódio da Última Ceia (instituição da Eucaristia), nas vésperas das celebrações pascais judias:" Isto é o meu corpo, o sangue da Aliança, que é derramado por toldos" (Marcos, 14, 22-24)

Os próprios evangelhos canónicos (aqueles que são usados e autorizados pelas Igrejas Cristãs) narram vários episódios e transcrevem muitas palavras de Jesus que desmentem categoricamente esse comportamento discriminatório em relação às mulheres, tratamento esse que foi norma e prática da hierarquia religiosa (masculina) até aos nossos tempos. Se a esses episódios dos evangelhos canónicos juntarmos outros que vêm referidos nos chamados evangelhos apócrifos (secretos, escondidos), torna-se claríssimo que, nessa matéria, a doutrina (o dever ser) das Igrejas Cristãs (de uma parte delas, designadamente o Catolicismo) não é coerente com os ensinamentos de Jesus. Mas salvo melhor opinião.

Julga-se que é o momento de mudar algo (ou muito) sobre o papel das Mulheres na orgânica da Igreja. Há que pôr fim à demonização da mulher e trazê-la para o seio da comunidade cristã sem horrendos preconceitos e ultrapassadíssimas cautelas. O clero masculino (todo ele) só teria vantagens nessa aproximação natural, às claras. Os crentes católicos esperam que o Papa Francisco, depois do Sínodo dos Bispos sobre a Família, se vai concentrar no arejamento da orgânica clerical, exclusivamente machista ainda nos tempos actuais, e, portanto, parcialmente representativa da Humanidade: "O sangue da aliança foi derramado por TODOS", ensinou Jesus.

(NOTA: a maior parte das edições dos Evangelhos, que consultei sobre o episódio da Última Ceia, refere, para minha surpresa (embora não total, mas, mesmo assim, perturbadora), as expressões "sangue derramado por muitos homens" (Mateus), ou "derramado por muitos" (Marcos), ou "sangue derramado por vós" (só os discípulos?), em Lucas. Em que ficamos? Num tempo em que as informações correm mais velozes e todo o mundo tem acesso às mesmas, torna-se imperioso que alguém explique estas estranhíssimas incongruências).

(Bibliografia base: os Evangelhos e o livro "Jesus e as Mulheres”, de Françoise Gange, Editora Vozes, de Petrópolis, Brasil)

(manuelribeirojor@gmail.com)

A aurora do Lima – 18 de Junho de 2015