sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Misericórdia: uma turista grega salva a vida de um jovem sírio


Misericórdia: uma turista grega salva a vida de um jovem sírio

Depois de 13 horas lutando em alto-mar, ele foi salvo pela mulher de 42 anos: “Não sou uma heroína. Fiz somente o que os seres humanos fazem”

 


 


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Os migrantes e refugiados gritam por ajuda, e a resposta está no Evangelho da Misericórdia. Este é precisamente o convite do Papa Francisco para o 102ª Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, que será comemorado em 17 de janeiro de 2016.

Em meio ao cenário de dor que o mundo tem presenciado, amisericórdia aparece como uma flor no deserto – ou melhor, no Mediterrâneo, no testemunho concreto de uma turista grega que salva e consola um jovem sírio exausto depois de lutar durante 13 horas em alto-mar.

“Meu nome é Sandra Tsiligeridu, tenho 42 anos e não sou uma heroína. Fiz somente o que os seres humanos fazem. Todos teriam se comportado como eu, se estivessem no um lugar”, disse ao jornal italiano Repubblica.it.

A mulher salvou de uma morte certa o jovem Mohammed. A foto que deu a volta ao mundo representa uma Pietà moderna (a escultura de Michelangelo exposta na Basílica de São Pedro): uma mãe que abraça um filho ferido e o conforta em seu colo.

O fato ocorreu quando Sandra, que viajava em companhia de sua filha de 8 anos e seu esposo, no dia 27 de agosto à tarde, voltava de lancha de uma excursão perto da ilha Peserimos, na Grécia.

Ela contou que viu as mãos do jovem na superfície da água. “Percebi que era um homem em apuros e comecei a gritar. Então, nós nos aproximamos”. Ela não conseguia conter as lágrimas: “Eu não conseguia parar de chorar”. Ela só repetia: “Pobre homem… Pobre homem…”.

Assim que conseguiram colocá-lo na lancha, ainda tremendo, em estado de hipotermia, o jovem se apresentou: “Meu nome é Mohammed Besmar e venho da Síria”. Depois, ele perguntou à mulher: “Por que você está chorando?”. A resposta foi um silêncio e o abraço consolador.

Mohammed partiu da Síria com outras 40 pessoas. No meio da viagem, um dos remos do barco caiu no mar e ele foi recuperá-lo. No entanto, as ondas o afastaram da embarcação.

Depois do gesto simples de misericórdia da família Tsiligeridu, Mohammed não é mais um número nas estatísticas de mortes no Mediterrâneo. A foto deste encontro se tornou um símbolo da misericórdia que se esconde em gestos simples, mas vitais.

Todos nós podemos, dentro das nossas circunstâncias, ser o rosto misericordioso de Deus.

 

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Uma doença pouco compreendida


Uma doença pouco compreendida

Quando alguém tem dores, sente-as na cabeça, mas quando dói isto, amanhã aquilo e o médico não descobre por exames dos mais variados que possam existir, não podemos dizer que está louco e que precisa de ir ao psiquiatra porque é hipocondríaco.

É o diagnóstico errado e fácil de fazer, mas nada assertivo e correcto, sobretudo para quem sofre.

Eu passei por fases muito difíceis na minha vida e o “fingimento” era às vezes o melhor.

A situação agravou-se com um incêndio contra o qual ia perdendo a minha vida, fiz uma exaustão tal que a situação piorou ao ponto de não poder fingir muito.

Descoberto e diagnosticado como fibromiálgico por um médico especialista em doenças de dor, no Porto, confirmado por dois neurologistas alemães e um reumatológico espanhol não tive outro remédio senão assumir-me como tal e tratar-me pelo que hoje posso dizer algo mais.
 

 
 
Para os outros não é doença nenhuma porque de facto não se vê, mas, controlado, o fibromiálgico vai fazendo o que pode, aprende a dizer não a muitas coisas e estar onde deve estar, onde sente que deve estar com alegria e satisfação, foge do incómodo, não da verdade, mas da dor.

Evitar os esforços que devo evitar para não alterar as tensões musculares, o cansaço inexaurível, dormir o tempo suficiente para restaurar todas as forças físicas para o dia seguinte dar tudo o que pode evitando os excessos.

O fibromiálgico passa por mentiroso porque parece e apresenta-se bem, mas sempre está em sofrimento, com mais ou menos intensidade, num local ou noutro, seja onde for e ninguém dá por isso. Olha-se e diz-se: é pessoa saudável. Nem acredita. É mentiroso.
 
Eu encontro-me nesta situação e conheci fibromiálgicos que se suicidaram porque não resistiram a viver com a fibromialgia por causa do desencontro, incompreensão, da intolerância, da falta de afecto, de diálogo, de irmão para irmão, na humanidade, vive-se muitas vezes numa cruz.

Às vezes, e sobretudo da parte feminina, pessoas mais afectadas, são abandonadas pelos maridos, ou estes procuram fora do casamento uma dupla relação, que normalmente afecta toda a vida de casal, do controle da doença da parte da mulher que passa a ser uma doente de psiquiatria.

 
Sou fibromiálgico e controlo-me muito bem com a medicação. Faço uma vida que, para mim é normal, mas para outros que me conheceram, não. Daí ser acusado do que não é verdade e sentir-me-ia mais feliz se tudo fosse ao contrário e eu pudesse voltar aos tempos em que esta doença não tinha tomado totalmente conta de mim.

Se a Fé é um dom, um doente de dores crónicas, sejam ou não fibromiálgicas, graças à Fé consegue vencer,  orientar-se e descobrir que em Deus encontra o suave jugo, o descanso, o alívio, o sentido da vida e o  linitivo suficiente para transmitir Alma à Vida.

Que ninguém desista porque há sempre um cireneu e este é para mim Jesus Cristo em quem sempre acreditei.

Não o mereço mas a minha Fé é Grande.

Neste ano da Divina Misericórdia mais um tempo para penitência e confiança na Bondade do Pai e as dores crónicas controladas, ou por controlar, serão lágrimas de Jesus que se derramam ainda hoje na Cruz.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Dar Alma à Vida LXVII


Dar Alma à Vida LXVII

  
Dar Alma à Vida é dar-lhe tempo para meditação, isto é, reflectir com consciência, compromisso e disponibilidade para mudar.

 
É dar à Vida a possibilidade de se assumir como um todo em si, um todo com os outros e um membro de um corpo a que S. Paulo lhe chama Corpo Místico de Cristo. Quem é cristão é capaz de entender isto.

Dar Alma à Vida é contar que todos somos flexíveis de mudar e quando se muda deve ser sempre para melhor seja no campo espiritual, seja no campo material.

 
É bom mudar todos os dias no campo espiritual, por isso, quem dá tempo de meditação à Vida, diariamente, vive e sente a felicidade à flor da pele. Não é capaz se reduzir ao negativismo, mas sempre vai em frente porque nunca se sente só.

Há quem acompanha, Alguém que o amo e que o ajuda a vencer as dificuldades do dia-a-dia.
 
 

Dar Alma à Vida é procurar colocar a Vida na mão do Absoluto e ir ao seu encontro sem desfalecimento, sejam quais forem as adversidades da Vida. É a meditação na Palavra de Deus descobre-se amor o verdadeiro Amor, a verdadeira Paz e Luz para caminhar.

Dar Alma à Vida é dar-lhe oportunidades para a partir da meditação, fazer as obras conscientes do que aceitou.

Dar Alma à Vida é fazer com que a Vida fique longe de tudo o que é insensato, maledicência, inveja, orgulho, vaidade, infâmia, ciúme, injustiça porque a Vida para ser Vida quer-se que seja Amor Consciente com Verdade, Justiça e Paz.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Dar Alma à Vida LXVI





Dar Alma à Vida LXVI

 

Dar Alma à Vida é dar-lhe a sobriedade no uso e na descoberta das coisas das novas tecnologias. É saber utilizá-las com responsabilidade para não ferir a natureza criada, mas para a melhorar e a desenvolver.

 
É fazer com que o trabalho de cada dia seja uma oração de prática diária como uma boa acção à maneira escuta.

É fazer com que a nossa liberdade não prejudique em nada a liberdade dos outros porque, prejudicando-a, criamos infelicidade à nossa volta.

A música criada por Bach enriqueceu o passado e ajudou a abrilhantar a música do futuro até hoje.
 

 
Esta elevação da Alma far-se-á sentir até nas ofensas dos outros, como poderia dizer Descartes.

Dar Alma à Vida é saber viver para os outros como o Mestre nos ensinou, como lembra o mandamento de Deus, por isso, viver para os outros não é só um dever, mas uma felicidade mútua.

 
Deus ama-nos e sabe o que precisamos, saibamos ser espelho dessa luz de Deus que é fonte de Felicidade.

Assim aconteceu com homens das ciências através dos séculos… Cientistas de todas as nações acreditam em Deus, muitos cristãos e católicos, civis e clérigos… A quem poderíamos chamar pelo nome a alguns mais conhecidos…

Dar Alma à Vida é dar uma resposta de Esperança na infinitude da Vida

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A mulher deve ser submissa ao seu marido?

Religião

A mulher deve ser submissa ao seu marido?

Como a Igreja interpreta a frase de São Paulo: "Que as mulheres também se submetam, em tudo, a seus maridos"?

Como a Igreja interpreta a frase de São Paulo: "Que as mulheres também se submetam, em tudo, a seus maridos"?

 
Site do Pe. Paulo Ricardo
25.08.2015
Young thinking couple looking at each otherDean Drobot
Em sua Carta aos Efésios, São Paulo escreve "que as mulheres também se submetam, em tudo, a seus maridos" (Ef 5, 24). A frase, tirada de seu contexto, é usada por grupos feministas para "provar" que a religião cristã oprime o sexo feminino.

Olhando para os fatos históricos, porém, a verdade é que nenhuma religião deu tanta dignidade à mulher como o Cristianismo. Enquanto todas as demais a tratavam como um objeto ou uma propriedade do sexo masculino, a Igreja deu-lhe o papel de protagonista na família e na vida em sociedade, chegando a apresentar várias delas como doutoras da Igreja e mestras da vida espiritual – é o caso, por exemplo, de Santa Hildegarda de Bingen, Santa Catarina de Siena e Santa Teresinha do Menino Jesus.

Ora, se é assim, talvez a sentença do Apóstolo deva ser interpretada de forma diferente da que é feita comumente. São João Paulo II, em sua Carta Apostólica Mulieris Dignitatem, ensina que "todas as razões a favor da 'submissão' da mulher ao homem no matrimônio devem ser interpretadas no sentido de uma 'submissão recíproca' de ambos 'no temor de Cristo'." [1].

De fato, exorta São Paulo, no mesmo trecho das Escrituras: "Sede submissos uns aos outros, no temor de Cristo" (Ef 5, 21). A submissão, portanto, é mútua, não por haver dois ditadores em uma "luta de classes", mas por causa da relação entre Cristo e a Igreja, da qual o Matrimônio cristão é um sacramentum, um sinal (cf. Ef 5, 25. 29. 32).

Assim, pois, ambos os conselhos do Apóstolo – tanto o que exorta à submissão da mulher quanto o que chama ao amor por parte do homem (cf. Ef 5, 25) – não devem ser entendidos em uma única direção. Afinal, não são apenas os maridos quem devem amar as suas esposas, como estas devem amar aqueles; não são, também, apenas as esposas quem devem se submeter aos seus cônjuges, como estes devem fazer do mesmo modo. A Igreja não quer "oprimir" as mulheres, mas fazer com que os casais se submetam reciprocamente, a partir do amor de Cristo.

De fato, que mulher pode temer ser submissa a um marido que, por causa dela, derrama o seu sangue, a exemplo de Cristo, que "amou a Igreja e se entregou por ela"? E que homem pode rejeitar ser submisso a uma esposa que o ama do mesmo modo?

Eis, portanto, o modo como devem viver os casais em santo Matrimônio: abrindo a porta de casa como se abre a porta do sacrário, amando o outro como se ama o Cristo. Nisso não há nenhuma opressão, mas tão somente o amoroso projeto de Deus para o gênero humano.

Referências:

Papa João Paulo II, Carta Apostólica Mulieris Dignitatem, 15 de agosto de 1988, n. 24

O que fazer diante das birras dos filhos?

O que fazer diante das birras dos filhos?


Guia para pais desesperados

Guia para pais desesperados

 Little girl screaming © Ollyy / ShutterstockLittle girl screaming © Ollyy / Shutterstock
Esses episódios de birra ,nos quais as crianças parecem não ter consolo, fazem que os pais se angustiem, acabem esgotados e sem saber o que fazer. Muitas vezes, o desconcerto os leva a optar por táticas desaconselháveis que podem transformar a raiva da criança em algo crônico.

O tema das birras é uma consulta frequente no que diz respeito a crianças de 2 a 4 anos; por isso, tem importância especial dentro da psicologia infantil.

Apesar do estresse que esse comportamento pode gerar nos adultos, é preciso destacar que faz parte de uma etapa maravilhosa, repleta de descobertas e aprendizagem. Por isso, os pais têm necessidade de instruir-se para aproveitar bem esta fase.

Por que as crianças fazem birra?

As birras são episódios de raiva e descontrole nos quais a criança pode jogar-se no chão, bater nos objetos ou jogá-los, gritar, chorar, inclusive machucar a si mesma ou o adulto que a acompanha.

Este comportamento surge por volta dos 2 anos de idade e, se os pais souberem lidar com ele, desaparecerá dentro do processo natural de desenvolvimento do pequeno – em geral se torna menos frequente até os 3 anos.

Analisar as birras é analisar a criança de 2 anos, com suas particularidades: nesta fase, a criança quer ter o controle de tudo, deseja mais independência do que suas habilidades e segurança permitem, e desconhece suas limitações. Quer tomar decisões, mas não sabe como agir direito e não tolera restrições.

Ao não saber expressar seus sentimentos verbalmente, exterioriza sua raiva ou frustração com o choro e a birra. Tal comportamento não é perigoso, e pode até ser útil à criança, mas os pais precisam saber lidar com ele.

Os principais fatores que desencadeiam as birras são:

- Desejo de independência

- Inconformidade diante de uma norma ou negativa

- Vontade de chamar a atenção

Guia para pais desesperados

Sendo este o comportamento típico da fase dos 2 anos, é importante aplicar uma série de estratégias que ajudam a controlar a situação. Se os pais souberem lidar com isso com naturalidade, os filhos ganharão doses importantes de autocontrole e atitude proativa diante da frustração.

Algumas recomendações:

- Não dar atenção à criança quando está fazendo birra. Não tentar acalmá-la. Não gritar nem bater nela. Mantenha a calma, demonstrando que quem tem o controle é você, o adulto.

Alguns especialistas recomendam isolar a criança enquanto faz birra, deixando-a em um lugar no qual não corra perigo, por um tempo curto (de 2 a 5 minutos), até que se tranquilize.

- Conservar regras, limites, normas, horários, ainda que não sejam do total agrado das crianças.

- Em hipótese alguma ceder aos caprichos das crianças. É preciso permanecer firme, ainda que o choro esteja esgotando sua paciência. Se você não fizer isso, estará ensinando seu filho a fazer birras para conseguir o que quer.

- Quando as birras acontecem em lugares públicos, com mais razão os pais devem demonstrar sua autoridade, pois estes cenários deixam os pais mais vulneráveis e, diante da pressão indireta do público, podem acabar cedendo. Se a criança vir firmeza nos pais, se tranquilizará mais rapidamente.

- Quando a criança se acalmar, é aconselhável abraçá-la, pegá-la no colo e conversar com ela, olhando sempre em seus olhos e adaptando-se à sua estatura; dizer-lhe o quanto você a ama, mas que não pode permitir esse tipo de comportamento.

Ainda que seja normal desesperar-se diante das birras infantis, lembre-se de que a criança se sente muito pior do que você ao ver-se com estas reações que não é capaz de controlar. Não hesite em demonstrar firmeza e lembre-se sempre: a palavra “não” também pode ser pronunciada pelo amor!

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Voz político-moral global


Voz político-moral global 


por ANSELMO BORGES
DN 08AGO2015 e DN 15AGO2015

 
"A descrição do Papa como um super-homem, como uma estrela, é ofensiva para mim. O Papa é um homem que ri, chora, dorme tranquilamente, e tem amigos, como as outras pessoas." Quem isto diz é o Papa Francisco, dessacralizando o papado, citado por R. Draper num artigo na National Geographic deste mês, com o título provocador: "O Papa vai mudar o Vaticano? Ou o Vaticano vai mudar o Papa?" À partida, digo que estou convicto de que é o Papa que vai mudar o Vaticano. Seria péssimo para a Igreja e para o mundo se fosse ao contrário. Ele sabe que ninguém é perfeito: "Existimos apenas nós, pecadores." Mas também sabe que "Deus não tem medo de coisas novas! É por isso que nos surpreende continuamente, abrindo-nos o coração e guiando-nos por caminhos inesperados."
Logo a seguir à eleição, disse a alguns amigos: "Preciso de começar a fazer mudanças imediatamente." E o que é facto é que elas estão aí. Concretamente, para a reforma urgente da Cúria, rodeou-se de nove cardeais de todo o mundo. Para a pedofilia, tolerância zero. As finanças do Vaticano devem ser presididas pela transparência. A sua simplicidade é por todos enaltecida. A sua bondade, inexcedível. Os seus gestos - o automóvel utilitário, o sorriso franco, os abraços ternos, os seus inesperados telefonemas a este e àquela, a visita a prisões e lavar os pés a mulheres, incluindo uma muçulmana, fornecer duche, barbeiro e um kit de higiene aos sem-abrigo, a nomeação da maioria de cardeais de fora da Europa, visitas certeiras ao estrangeiro, a anteposição da graça e da misericórdia à lei e à doutrina - querem que se torne claro que o centro da Igreja é o ser humano, sempre frágil e necessitado de compreensão e ternura, e o Evangelho enquanto notícia boa e felicitante.
E outras reformas podem estar a caminho. Evidentemente, não mudará o essencial da doutrina. "Irá, isso sim", diz o padre franciscano, seu amigo argentino, R. de la Serna, "reconduzir a Igreja à sua verdadeira doutrina, a que ficou esquecida, a que repõe o ser humano no centro. Ao devolver a posição central ao ser humano que sofre, bem como à sua relação com Deus, as atitudes de aspereza face à homossexualidade, ao divórcio e outros temas assim começarão a mudar". Quanto ao fim da proibição da comunhão aos católicos divorciados e recasados, Juan Carlos Scannone, o amigo jesuíta, seu antigo professor, refere: "Ele disse-me: "Quero ouvir toda a gente." Ele vai esperar pelo Sínodo de Outubro e vai ouvir toda a gente, mas está definitivamente aberto a uma mudança." O pastor e professor universitário N. Saracco falou com Francisco sobre a lei do celibato obrigatório dos padres. "Se ele conseguir sobreviver às pressões da Igreja hoje e aos resultados do Sínodo sobre a família, acho que estará em condições para falar sobre o celibato", afirma. Perguntado pelo jornalista se se trata apenas de uma intuição, Saracco tem "um sorriso maroto" e diz: "É mais do que intuição."
Já como estudante, Francisco revelou, nas palavras de Scannone, um "elevado discernimento espiritual e capacidade política". Agora, quer operar uma revolução na Igreja, sabendo ao mesmo tempo que tem responsabilidades mundiais, e, de facto, tornou-se uma voz político-moral global. Hoje e no próximo Sábado, darei exemplos significativos dessa influência mundial.
1. Fez questão de a sua primeira visita ser a Lampedusa. E aí ficou um apelo dramático, repetido no Parlamento Europeu: o Mediterrâneo não pode converter-se num "cemitério", com tragédias que se sucedem quase diariamente.
Neste momento, o medo maior dos europeus tem a ver com as migrações. Para lá da condenação da insensatez das guerras no Iraque e na Líbia e do apelo ao humanismo e à solidariedade, pergunta essencial é se a Europa não tem obrigação de contribuir urgentemente para o desenvolvimento da África, estancando a tragédia na sua raiz. Mas, por outro lado, também se pergunta se os africanos não têm de ouvir os apelos que nomeadamente Obama lhes deixou na sua recente visita ao seu continente. Denunciou "o cancro da corrupção", com desvios de milhares de milhões de dólares, que deviam ser usados para o desenvolvimento dos povos. Apelou à democracia e ao fim de conflitos violentos intermináveis. "Ninguém devia ser presidente para a vida": "Não percebo porque é que as pessoas querem ficar tanto tempo no poder, especialmente quando têm muito dinheiro." Atirou contra a homofobia e a opressão da mulher: "África são as belas e talentosas filhas, tão capazes como os filhos de África."
2. Neste contexto, Francisco conhece o poder de Putin e quer boas relações. Aliás, um dos seus sonhos é visitar Moscovo. O seu "ministro" dos Negócios Estrangeiros, arcebispo R. Gallagher, declarou há dias: "A Federação Russa pode ter um papel na estabilização do Mediterrâneo, igual ao que teve na obtenção de um acordo sobre o programa nuclear iraniano."


O Papa Francisco tem consigo a missão decisiva de pôr ordem e renovar a Igreja. Mas sobre ele pesam igualmente responsabilidades históricas para com a humanidade toda, e também aqui o seu desempenho tem despertado, como disse Raúl Castro, "admiração mundial". Aliás, ele é um grande diplomata, afirmando o embaixador britânico junto da Santa Sé, Nagel Baker: "Nunca tivemos tanto trabalho. Todos os governos nos pedem continuamente in-formações sobre os movimentos do Papa Francisco."
Na continuação do texto de Sábado passado, apresento outros sinais da sua influência global.
3. Se um desejo maior de Francisco é visitar Moscovo, outro é ir a Pequim. O presidente Xi Jinping e Francisco trocaram mensagens de cortesia nas suas respectivas eleições em 2013 e a Igreja chinesa ordenou nos princípios deste mês o primeiro bispo fiel a Roma nos últimos três anos e ordenará em breve o segundo com a aprovação de Francisco. Sinais de abertura do governo chinês, que trabalha com o Vaticano para restabelecer relações diplomáticas. Hoje, com uns 12 milhões de católicos e mais de 70 milhões de cristãos, a China poderá ser em 2030 o país do mundo com maior número de cristãos, estando Francisco convencido de que o futuro do cristianismo se joga em grande parte na Ásia.
4. Na Europa, que países visitou Francisco? Significativamente três, de maioria muçulmana: Albânia, Bósnia e Turquia, com razoável convivência inter-religiosa. Francisco sabe que um problema maior no mundo e na Europa é e será a relação entre cristãos e muçulmanos. As duas religiões juntas são metade da humanidade, o que significa que a paz entre elas tem importância decisiva para o futuro.
Mas Francisco não se cansa de apelar à comunidade internacional para não abandonar as minorias cristãs e outras, perseguidas e esmagadas no Médio Oriente. O seu secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, lembrou mesmo, na ONU, que, para deter as agressões terroristas, "é lícito e urgente" o recurso "à acção multilateral e a um uso proporcionado da força".
Neste contexto, o vaticanista Sandro Magister sublinha a importância do acordo entre a Santa Sé e o Estado da Palestina, assinado em 26 de Junho no Vaticano. A novidade não estaria tanto na fórmula "Estado da Palestina", mas sobretudo no reconhecimento explícito da liberdade de religião e de consciência, bem como da liberdade da Igreja não só nos lugares de culto mas também nas actividades caritativas e sociais, no ensino, nos meios de comunicação social. "Trata-se de um reconhecimento sem precedentes por parte de um país muçulmano e poderia abrir o caminho para algo semelhante noutros países. Não é mero acaso o cardeal Parolin ter viajado recentemente até Abu Dhabi para inaugurar uma nova igreja com as mais altas autoridades dos Emiratos Árabes Unidos: uma mensagem eloquente para a vizinha Arábia Saudita, onde a simples posse de uma Bíblia continua a ser um delito gravíssimo" e a conversão a outra religião, sujeita à pena capital.
5. A encíclica Laudato si" ficará na história como a Magna Carta da ecologia integral, afirmando o teólogo X. Pikaza que "talvez não haja um documento da Igreja Católica que vá ter mais influência que esta encíclica".
Francisco acaba de designar o dia 1 de Setembro como Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação. A encíclica foi louvada pelo secretário-geral da ONU, a FAO declarou que "nunca um papa falou tão directamente sobre o meio ambiente e com tanta credibilidade moral". Obama, que acaba de tomar medidas ecológicas históricas, citou o Papa, assegurando que a luta contra as mudanças climáticas "é uma obrigação moral". Neste contexto, a quatro meses da conferência sobre o clima que reunirá em Paris, em Dezembro, sob a égide da ONU, os seus 195 membros, na qual Francisco deposita grande esperança, François Hollande, num encontro em Paris de 40 personalidades políticas, religiosas e morais do mundo inteiro, declarou que é preciso chegar a acordo: "Não é uma questão de chefes de Estado ou de governo, mas de todos os habitantes do planeta." Prémios Nobel, reunidos em Constança, Alemanha, advertiram para as mudanças climáticas: se nada for feito, caminhamos para "uma ampla tragédia humana".
6. Por causa das suas posições a favor dos pobres e contra um sistema económico e financeiro que mata, conservadores americanos há que acusam Francisco de esquerdista, com concepções marxistas. O que ele não é. Neste contexto, The Washington Post, 1 de Agosto, escreveu que "não se pode entender o Papa sem Perón e Evita". Influenciado pelo peronismo na juventude, Francisco rejeita tanto o marxismo como o capitalismo selvagem, sem regras. O jornal cita o jesuíta Juan C. Scannone, seu antigo professor: é a favor de uma "teologia do povo", "não critica a economia de mercado, mas a fetichização do dinheiro e do livre mercado. Uma coisa é a economia de mercado e outra a hegemonia do capital sobre o povo".

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

 




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