domingo, 13 de dezembro de 2015

Dar Alma à Vida LXXXII


Dar Alma à Vida LXXXII



 Dar Alma à Vida é Amar a Deus e ao próximo como a nós mesmos; é afirmar e viver o que se afirma, que o Amor é a
chave da Vida, da Felicidade, da Paz, da Justiça e do Perdão.
Dar Alma à Vida é ter presente o Amor e a Honra devida como filhos de Deus e dos pais que Ele nos deu; é reconhecer a fraternidade, o Amor e a honra como bens desejados do profundo do nosso ser como  valores mútuos entre todos.


Dar Alma à Vida é reconhecer que Deus a todos nos une.

Dar Alma à Vida é reconhecer que o Amor e a Honra mútuas arrastam consigo o Perdão e é no “perdoar que somos perdoados”.
Dar Alma à Vida é Amar até ao fim, dando tudo por tudo para que os que têm mais idade nunca se sintam abandonados,

sós, objectos de prateleira em casa ou no cemitério.

Dar Alma à Vida é pôr de lado a “cultura de lucro” que leva ao abandono de quem embaraça porque é como um peso ou
 um “estorvo”. No lucro material não está a misericórdia…

Dar Alma à Vida LXXXI


                   Dar Alma à Vida LXXXI
Dar Alma à Vida é dar à Vida a possibilidade do desejo de Deus, um Deus de Bondade,

 de Misericórdia, de Perdão, de Paz, de Unidade, de Amor.
Dar Alma à Vida é reconhecer que na Vida, nem tudo pode correr bem, e que é

possível haver lugar para correcção, acerto de agulhas, para a vida descarrilada.

Dar Alma à Vida é compreender que a reconciliação entre Deus e os homens conduz à

Paz, conduz à Vida!



Dar Alma à Vida é sentir o calor do Perdão, da Misericórdia, a alegria de um erro

 corrigido e não de um erro que subsiste como se nada houvesse ou outra alternativa

 para viver com letra maiúscula isto é, viver com Alma…

Dar Alma à Vida é criar na Vida uma luta consentânea pelo Bem, pelo Amor, perfeição, recorrendo à Confissão.
Dar Alma à Vida é regá-la com jactos de humildade, adubá-la com uma mente

agarrada à oração, mondá-la do estado de pecado para o estado de graça, expô-la ao

 sol para que a divina luz da misericórdia a penetre, arejá-la para que continue a

respirar o espírito de Deus e sempre de mãos cheias de boas obras, com os braços

abertos para acolher e ser acolhido, com os corações prontos para perdoar e serem

perdoados.


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

TEMPO DE CONVERSÃO


TEMPO DE CONVERSÃO
 

 
 O Ano Santo da Misericórdia não será santo se não mudarmos a nossa maneira de estar na vida pessoal e comunitária. Há que deixar de chamar velhos aos nossos irmãos com mais idade, os quais têm mais sabedoria empírica da vida, porque velhos são os trapos, os farrapos que se lançam ao lixo ou com os quais se faziam fogueiras nas casas ou junto delas para afastar as cobras; saber acolher de braços abertos não só uma criança, mas sobretudo o mais debilitado pela idade ou quem já perdeu alguma juventude em relação a nós; saber acolher o pobre, o marginal, o sem abrigo, o mal cheiroso porque não tem condições de vida; o marginal, o toxicodependente, o que já não pode das pernas porque passa fome; o “pecador” que se aproxima do bem seja no gabinete, na rua, ou à porta do confessionário; a prostituta que se aproxima.

 
Precisamos de ir atrás de quem precisa de um conforto, de um apoio, seja material seja espiritual, para não cair na tentação de querer resolver um problema moral chutando a bola material, por vezes a base do problema moral, para outro que menos tem, só pelo facto de que apesar de ter menos, é mais; abusar do poder para mandar sem amar, trabalhar sem explorar o mais fraco ou chutar da igreja para fora só porque é doente, como os celíacos, e “ipso facto”, está aos olhos de alguns retrógrados fora da comunhão, esquecendo que muitas vezes a lei não pode matar o Amor, na linguagem do evangelho; o espírito da lei vivifica.
 

            Este Ano Santo não será santo se estivermos a vender o que recebemos de graça (Cf. São Paulo), se continuarmos a juntar o nosso tesouro na terra como se outro caminho, o da misericórdia divina, não existisse.

            Se o nosso Deus não fosse Ele Misericórdia, assim como nascemos, morreríamos carregados de traça. Tudo pagaremos caro porque, em Deus, funciona em plenitude a Justiça, e os critérios divinos da justiça são diferentes dos critérios humanos, são mistério. Apesar da sua infinita Misericórdia, só a Ele compete julgar e não aos homens, sejam peritos em leis ou investidos em títulos de alteza social.

           
Somos nós baptizados e nos dizemos Igreja que, se não mudarmos de atitude, afastamos da Igreja muita gente quando Ela deve ser aberta a todos, especialmente aos pobres, aos oprimidos, aos torturados, aos presos, aos postos de lado por isto ou por aquilo.

            Só não ama a Misericórdia o Diabo e, por isso, não devemos querer nada com ele. Tudo por Deus e nada com o Diabo que só gosta de cifrões e é maquiavélico para alcançar os seus fins, como fez Judas.

            Creio que este ano da Misericórdia, em tão boa hora proclamado pelo Papa Francisco, vai ser um ano de muitas graças que nos conduzirão à conversão, à reconciliação, à Paz e a uma Igreja mais santa, como deve ser a Igreja de Jesus Cristo realizada por todos os chamados a construi-la hoje.                                                                                           Artur Coutinho

 



quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

MEMÓRIAS DE MARFIM ARTE NATALÍCIA


MEMÓRIAS DE MARFIM

ARTE NATALÍCIA

 

José Rodrigues Lima

 

Peregrinamos pelo património do Alto Minho. O nosso destino foi a aldeia do Luzio, no concelho de Monção. Após a pesquisa no Arquivo Municipal, onde encontramos abundante documentação, metemo-nos à estrada, tendo chegado ao centro da aldeia ao princípio da tarde.

No percurso enchemos os olhos com belas paisagens, onde os soutos de carvalhos são significativos. Alicerçados na documentação e nas conversas da boa gente do Luzio, apreciamos a sua memória colectiva que vai desde o antigo couto, passando pela arte barroca, até às imagens em marfim, preciosidades raras e duma beleza fascinante.

O rio Gadanha que nasce nos Anhões tonaliza o ambiente da aldeia, onde o chilrear da passarada é uma constante.

Os sons pesados do sino conjugavam-se com o ambiente natural, envolvendo-nos na vida campestre inserida na Serra da Anta.

 

Como chegar

Da vila de Monção tomem a estrada na direção dos Arcos de Valdevez.

Aparecendo a sinalização de Lordelo, meta à esquerda para passar em Anhões, e de imediato avistar, do alto, a aldeia do Luzio namorada pelo sol.

A aldeia situa-se a 13 Kms da vila raiana.

O rio Gadanha divide a aldeia do Luzio formada pelos seguintes lugarejos: Ínsua, Portal, Paço, Outeiro, Luzenças, Pisado, Calastreiro, Trozinhos, Leirado, Igreja, Casbeiro, Tois, Bouças. Beçada, Fonte e Casal.

 Nestes sítios encontramos casas graníticas com soluções arquitetónicas dignas de registo, sendo de referir a Casa do Paço e um belo portal de cantaria trabalhada com rigor, obedecendo a risco definido.

Também podemos descobrir a aldeia partindo do alto do Extremo. Constatamos um Minho diferente, aquele dos caminhos patrimoniais não rompidos, onde sentimos “o mítico e conhecemos a história”.

 

 

Chama cósmica do rio Gadanha

As águas do rio Gadanha descem da aldeia dos Anhões saltitando de açude em açude.

À nossa mente vem a figura simpática do Padre Zé dos Anhões, do Senhor do Benfim. O seu perfil físico e psicológico irradiava bonomia, e tornou-se uma referência no concelho de Monção e não só.

Passou mais de cinquenta anos nestas paragens que ficam junto do rio, percorrendo-as a pé e a cavalo…

Os que o conheceram podem dizer da sua sabedoria prática, da filosofia de vida e das suas miragens das aldeias que pastoreou. Uma personagem a reter na história da aldeia.

O cancioneiro regional acompanhava-nos. E assim, a natureza leva-nos a recordar:

Não há pau como o de carvalho,

Que é um pau de três frutos;

Dá bolota, dá bogalho,

Também dá maçã de cucu.

 

Pinheiro, dá-me uma pinha,

Ó pinha dá-me um pinhão;

Menina, dá-me os teus olhos

Que eu dou-te o coração.

 

Dizes que arruda amarga,

Quem vo-la deu a comer?

Os segredos do meu peito.

Quem vo-los deu a saber?

 

 

 

Olhar…olhar…

 

Não se pode andar pelo concelho de Monção sem conhecer o poeta João Verde. Ele engrandeceu a sua terra em prosa e em verso, e legou-nos os livros, “Ares da Raia”, ”Musa Minhota” e “N`Aldeia”, para além de poemas diversos.

Ele chamava a atenção para a sua terra:

 

Quem vem a Monção e vê,

Estas paisagens sem par;

-Não sabemos bem porquê-

Fica a olhar, a olhar, a olhar…

 

Noutro poema diz:

 

Vamos pois aldeia fora

À procura de saúde,

Q´eu prefiro a vós do açude

À cidade estouteadora

 

 

Arte em Marfim

 

“As coisas estão muitas vezes onde não se julgam”, é frase corrente nas aldeias. Pois ficamos surpreendidos com a arte trabalhada em marfim.

As pessoas cautelosas, devido ao roubo consumado, manifestam certa reserva em mostrar as pequenas imagens de marfim.

O membro da Comissão Fabriqueira, Manuel Rodrigues Fernandes, proporcionou, com muita gentileza, a observação das imagens que fotografamos. A história que envolve as imagens é linda de se ouvir

Conta-se que numa grande casa, de uma boa família da aldeia, houve em tempos recuados um enorme incêndio, tendo o fogo levado todo os haveres e morrido as pessoas queimadas, salvando-se apenas um rapazito da família.

O miúdo teria ido para frade, e mais tarde ter-se-ia dedicado à missionação no Oriente, na Índia Portuguesa ou Macau.

Este missionário, talvez no início do século XIX, começou a enviar imagens esculpidas em marfim para a sua terra natal.

Deste modo foi chegando um bonito presépio que foi furtado. Enviou, ainda, aquele apóstolo do Oriente, uma maravilhosa Sagrada Família, uma Senhora da Conceição ou Senhora Mãe de Deus, conforme invocação do povo, e um crucifixo.

Ficamos maravilhados com a arte, a devoção e o apreço que os habitantes do Luzio nutrem pelas verdadeiras relíquias.

Esta singular história contada com emoções à mistura, revelou-nos um universo denso de simbologias que passam pela capela de de N.ª Sr.ª do Desterro, com inscrição de 1821.

As referidas imagens em marfim encontram-se bem guardadas em cofre seguro.

 

Por certo nesta quadra natalícia recordamos de Gil Vicente:

 

“Da rosa nasceu a flor

Para nosso Salvador:

Virgem Sagrada!

Nasceu a rosa do rosal,

Deus e Homem natural:

Virgem Sagrada”

 

Boas Festas.

 

Anexo:

Fotografia Sagrada Família de marfim .

 

José Rodrigues Lima

 

93 85 83 275

jrodlima@hotmail.com

SIMBOLOGIAS NATALÍCIAS DO AZEVINHO À MISSA DO GALO


SIMBOLOGIAS NATALÍCIAS

DO AZEVINHO À MISSA DO GALO

 

José Rodrigues Lima

 

PRESÉPIO 

Etimologicamente o termo “presépio” significa manjedoura, lugar onde se recolhe o gado, curral, estábulo.

 Nos dias de hoje o presépio ocupa um lugar especial no domínio das representações natalícias.

Num sarcófago do século IV, existente no Museu de Latrão, encontramos uma gravação artística alusiva ao nascimento de Jesus.

Já no século VII vão-se multiplicando as representações do presépio, de modo especial na azulejaria.

No século XIII o presépio começa a ser verdadeiramente popular graças a S. Francisco de Assis.

Em 1223, por vontade de Francisco de Assis “a missa foi celebrada em cima de uma manjedoura que se serviu de altar, para que o Divino Infante sob as espécies do pão e do vinho, estivesse aí presente em pessoa, como tinha estado presente no presépio em Belém.”

Esta religiosa comemoração foi “o estímulo” para os franciscanos a levarem a todo o mundo.

 

A ÁRVORE DE NATAL

A tradição da árvore de Natal é de origem germânica, e data do tempo de S. Bonifácio.

Foi adoptada para substituir os sacrifícios do carvalho sagrado ao deus pagão Odin, adorando-se uma árvore em homenagem ao Deus Menino.

Uma das primeiras pessoas a adoptar o costume da árvore de Natal parece ter sido a rainha Carlota, esposa de Jorge III, da Inglaterra, que nas festas cristãs do fim de ano enfeitava as árvores com brinquedos, doces e lanterninhas.

A árvore é considerada protecção da divina Providência à infância e à inocência.

O costume generalizou-se por todo o mundo e hoje, para além da árvore de Natal que por sua vez se levanta nas nossas casas, a par do presépio, há empresas, e até cidades, que levantam, ao ar livre, gigantescas árvores de Natal.

 

PAI NATAL

A história do Pai Natal é baseada num facto verdadeiro.

No século IV, Nicolau, bispo de Mira, cidade situada entre Rodes e Chipre, tinha o hábito de distribuir presentes entre os pobres, mas não gostava de receber agradecimentos.

Mesmo depois da sua morte, as crianças holandesas acostumaram-se a colocar os seus sapatos à porta de casa, esperando a visita de S. Nicolau. Faziam-no na noite de 5 para 6 de Dezembro data da canonização do santo. O costume generalizou-se, mais tarde, por outros países, inclusivamente para França que, em vez de festejar S. Nicolau a 6 de Dezembro, mudou a data para a noite de Natal, passando a chamar-lhe “PAI NATAL”

 

A VELA

Tudo começou com um sapateiro alemão que vivia numa cabana afastada da cidade. Embora pobre, tinha por hábito colocar todas as noites, na janela da sua cabana, uma vela acesa para guiar os viajantes durante a noite. Apesar das guerras, doenças e tempo difícil que atravessou, ele nunca deixou que essa chama se extinguisse. Isto inspirou os outros a emita-lo durante os festejos de Natal e o costume generalizou-se.

 

 

CARTÕES DE BOAS FESTAS

A origem deste costume deve-se costume deve-se ao artista inglês W.T. Dobson. Em 1845, enviou a alguns amigos umas cópias litografadas de um texto, de sua autoria, sobre o espirito do Natal.

A originalidade da mensagem agradou e foi imitado.

Os primeiros cartões impressos na Inglaterra eram muito simples: uma acha de lenha, os sinos e os cumprimentos tradicionais.

O costume passou depois aos Estados Unidos da América em 1874.

A partir daí, os cartões de Boas Festas apresentaram os mais diversos temas, alguns muito longe de qualquer inspiração religiosa ou espirito cristão.

 

O AZEVINHO

O azevinho era a coroa de Baco, o deus do vinho. Em certa época, chegou a ser banido das festas cristãs.

Uma lenda conta a sua introdução na Inglaterra: Baco, atravessando esse país, ficou tão enamorado das suas belezas que, à sua partida, decidiu plantá-lo aí, deixando-o como uma lembrança especial.

Os romanos consideravam-no como símbolo da paz e da felicidade, e os druidas celtas usavam-no como remédio e antidoto contra venenos.

O azevinho, segundo a lenda, liga-se à história cristã como a planta que permitiu esconder Jesus dos soldados de Herodes. Em compensação – diz a lenda – foi-lhe dado o privilégio de conservar as suas folhas sempre verdes, mesmo durante o mais rigoroso dos invernos.

 

MISSA DO GALO

O nome de “Missa do Galo” tem a origem seguinte:

Pouco antes de baterem as 12 badaladas da noite de 24 de Dezembro, cada lavrador da província de Toledo, em Espanha, matava um galo, em memória daquele que cantou três vezes quando Pedro negou Jesus, por ocasião da sua prisão. Depois, a ave era levada para a Igreja a fim de ser oferecida aos pobres que, assim, podiam ver melhorado o seu almoço do dia de Natal.

Em algumas aldeias espanholas e portuguesas era costume levar-se um galo vivo à igreja para que ele cantasse durante esta missa. Quando cantava, todos ficavam contentes, pois entendiam-no como prenúncio de um ano farto e feliz. Quando ficava mudo, todos se entristeciam, pois era sinal de um mau ano para as colheitas.

 

CANÇÕES NATALÍCIAS

A mais famosa canção de Natal – NOITE FELIZ – foi composta em 1818, numa aldeia dos Alpes por um padre de nome Joseph Mohr, que fez os versos, e por um mestre-escola chamado Franz Xavier Gruber, que escreveu a música.

“Noite Feliz” – a canção do céu, como lhe chamam – é hoje cantada em todo o mundo. Para a língua portuguesa, foi feita uma feliz tradução por Frei Sinzig.

Noite Feliz, Noite feliz!

O Senhor, Deus de Amor,

Pobrezinha, nasceu em Belém,

Eis na lapa Jesus, nosso Bem.

Dorme em paz, ó Jesus!

Dorme em paz, ó Jesus!

 

Noite Feliz! Noite Feliz!

Eis que no ar vem cantar

Aos pastores os anjos dos céus

Anunciando a chegada de Deus,

De Jesus Salvador!

De Jesus Salvador!

 

Noite Feliz! Noite Feliz!

Ó Jesus, Deus de Luz.

Quão afável é teu coração

Que quiseste nascer nosso irmão

E a nós todos salvar!

E a nós todos salvar!

 

BOLO REI NA MESA FESTIVA

Foi no Porto nos fins do século XIX, que Baltazar Castanheiro Júnior introduziu a receita que deu origem ao primeiro bolo rei português. É na Confeitaria Nacional em Lisboa, da qual era dono, que vamos então encontrar os primeiros exemplares portugueses.  

A receita generalizou-se, dando origem a algumas variações, que de comum apenas conserva a fava.

 

 

 

José Rodrigues Lima

93 85 83 275

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Escolas que ensinam a perdoar

JUBILEU DA MISERICÓRDIA

Escolas que ensinam a perdoar

07 Dez, 2015 - 08:43 • Ângela Roque
Foram criadas pelos missionários da Consolata na Colômbia, onde ajudaram a acabar com o confronto armado com as FARC. Na Europa, Portugal é o primeiro país a ter Escolas de Perdão e Reconciliação (ESPERE).
É um projecto que tem ajudado a sarar as feridas de muitos conflitos armados pelo mundo: as ESPERE, Escolas de Perdão e Reconciliação, foram criadas pelos missionários da Consolata. Ensinam a ultrapassar a raiva, o ressentimento, e a perdoar. Porque sem isso não as pessoas não podem reconciliar-se.
O projecto nasceu na Colômbia, onde ajudou a acabar com o confronto armado com as FARC. Está, neste momento, em 18 países. Portugal é o primeiro na Europa.
Em entrevista ao programa “Princípio e Fim”, da Renascença, o padre Albino Brás, coordenador nacional das ESPERE, diz que o projecto também fazia falta por cá. E vê no Jubileu uma oportunidade para a Igreja promover o perdão e a reconciliação, e repensar a forma como incentiva a misericórdia.
A Igreja está a trabalhar como devia a questão do perdão e da reconciliação?
A Igreja deixou isso muito remetido à questão sacramental, ao sacramento da penitência e da reconciliação, como se fosse uma coisa apenas técnica, mecânica. A dinâmica do perdão e da reconciliação deve ir muito mais além. Mas, não é só a Igreja. Até há 10 ou 15 anos, as ciências humanas, até a psicologia, não trabalhavam o perdão como uma componente de regeneração pessoal, humana e social. Mas é uma ferramenta libertadora, regeneradora, que transforma a narrativa de raivas, rancores e ressentimentos, num novo olhar.
No actual contexto em que vivemos, de ameaça terrorista global, o Jubileu da Misericórdia faz ainda mais sentido, é uma iniciativa ainda mais oportuna?
É uma iniciativa que faz todo o sentido. Nós, quando sofremos uma dor, uma ofensa, isso gera raiva. Quando não superamos essa raiva, isso gera rancor, ressentimento. Quando não superamos o ressentimento, isso gera vontade de vingança. Quando não superamos a vontade de vingança, isso gera violência. Em que é que isso se transforma? Numa espiral da violência. Então, o perdão o que é? É como que esta tesoura que chega ali e corta.
Se formos ver à história dos povos que estão em guerra, e têm sede de vingança e violência, vemos que há muitos rancores, ressentimentos acumulados, históricos, pessoais, grupais, comunitários, societários, entre países, entre nações. As ESPERE procuram dar uma resposta a todos estes níveis, a nível pessoal e a nível comunitário.
A iniciativa do Papa vem dar mais fôlego ao vosso projecto?
Nós dizemos que temos um grande aliado em Roma. Porque a misericórdia, de facto, é o núcleo do Evangelho. É um desafio à bondade, à compaixão. A própria palavra “misericórdia” , com origem no latim, significa “coração compadecido”, essa capacidade de sentirmos compaixão e bondade, de deixarmos o rancor, o ódio, as raivas, que são emoções humanas muito básicas, mas que temos que as trabalhar para transformar isso numa nova narrativa, num novo olhar.
E é isso que ensinam nos vossos cursos?
Os cursos são muito práticos, vivenciais, trabalha-se muito em grupo e têm várias etapas. São cinco módulos para o perdão e cinco para a reconciliação.
E como é que funcionam?
Depende dos públicos-alvo. Pode ser em escolas, nas prisões (com os presos ou com os guardas prisionais), pode ser com grupos de jovens em paróquias. Podem decorrer entre 50 a 70 horas, e há dois modelos: o “modelo de onda curta”, intensivo, que decorre em dois fins-de-semana, seguidos ou não; e o “modelo de banda larga”, uma vez por semana, quatro horas, durante 10 semanas.
As escolas não são espaços físicos. Os missionários podem fazer convites a algumas pessoas, mas também há quem nos procure para fazer o curso.
Quem é que já vos procurou?
Professores, advogados, uma juíza, pessoas reformadas. É muito diversificado e heterogéneo.
Quantos cursos já fizeram?
Já fizemos dois cursos. Ainda estamos a adaptar materiais, porque a realidade portuguesa é diferente da América Latina, e até dinâmicas, porque algumas não funcionam cá. Sobretudo a parte da tradução deu algum trabalho.

As ESPERE faziam falta em Portugal?
Claro que sim! Então não há conflitos, violências? Por exemplo, o bullying nas escolas está a crescer bastante, a violência familiar cresceu. E nós temos projectos para as famílias também.
Ainda recentemente fui à Colômbia para uma reunião internacional de coordenadores das ESPERE e participei no encontro de celebração do Tratado de Paz, que vai ser assinado em Janeiro entre as FARC e o governo, depois de 40 anos de guerrilha. E houve ali testemunhos fortíssimos, como o de uma mãe a quem assassinaram o filho e o marido. Esta mãe e um guerrilheiro estão agora à frente de um Centro de Reconciliação, que é uma das ferramentas das ESPERE. E foi ali que percebi o potencial regenerador que o perdão tem, no momento em que a mãe diz ao rapaz ‘eu não te quero mal’, e abraçaram-se. Eu achei fantástico.
É preciso mostrar às pessoas que esse sentimento é possível? Ainda recentemente, nos atentados de Paris, o marido de uma das vítimas escreveu que não ia odiar os terroristas…
Essa carta é lindíssima e creio até que vamos usá-la nas Escolas, porque fala-nos da irracionalidade da violência e, ao mesmo tempo, da irracionalidade do perdão. Porque o perdão nestas situações acaba por ser algo irracional também. Creio que este jornalista tinha que ter muito Deus no seu coração para dizer isto aos terroristas: “não te darei o meu ódio, far-te-ei o favor de sermos felizes e livres, eu e o meu filho. Eu não entro na espiral da violência onde vocês querem que eu entre”.
Mas é possível responder ao terrorismo sem vingança?
O terrorismo tem de se combater com violência, quando é necessário, e a Igreja prevê na sua doutrina a guerra justa. Mas, isso não basta e não pode ser a última resposta. Há um trabalho mais profundo que tem de ser feito, que é o de ajudar as pessoas a encontrarem-se, a conhecerem-se mais.
E isso também se aprende?
Também. Tem de haver mais espiritualidade do encontro, que é uma palavra muito cara ao Papa Francisco, a cultura do encontro, do abraço, do conhecer a cultura do outro. E isso também se coloca agora com a questão dos refugiados.
Este Ano da Misericórdia pode ajudar a fazer caminho?
Pode e deve ajudar a fazer caminho. E espero que produza frutos e que haja muitas iniciativas na Igreja, muito práticas também. Acho que andamos muito cheios de teorias, de devoções, vamos fazer mais procissões, mais uma Via Sacra muito bonita pelo Ano da Misericórdia, mas depois… acho que isso é pouco, muito pouco.
As ESPERE vão ter uma nova dinâmica neste ano? O que é que está pensado?
Vamos procurar fazer mais seminários neste âmbito. Ainda recentemente, dia 28 de Novembro, realizámos um em Lisboa. O trabalho das ESPERE é mesmo os cursos, mas vamos promover outras iniciativas para ajudar as pessoas a reflectirem sobre estas temáticas.
Portugal investe pouco na cultura da paz, mesmo em termos educativos?
Fala-se muito em paz, só que é uma palavra oca, muitas vezes. Não basta dizer “paz” para a paz acontecer. É preciso criar ferramentas para ajudar a pessoas a viverem essa paz, a receber essa paz como um dom. Diz-se muitas vezes “Queremos um mundo melhor”, isso é uma boa intenção, mas o que é que vais fazer em concreto para que o mundo seja melhor? Então, de facto, creio que este projecto é muito necessário para Portugal porque está muito pouco trabalhado. Nós vivemos uma cultura muito punitiva ainda, muito justicialista. As ESPERE propõem a justiça restaurativa, restaurar a pessoa, o outro, regenerar o agressor.
E há equívocos na forma como entendemos o perdão?
Há muita gente que pensa que “perdoar é esquecer”. Nós dizemos que perdoar não é esquecer, porque esquecer é amnésia, e perdão não é amnésia. É olhar com outros olhos, não ficar refém do passado, mas abrir-se aos cumes oxigenados da compaixão e da bondade. Isso é que é perdoar. Ter a coragem de sair do círculo vicioso da violência e iniciar uma nova narrativa que pode levar à reconciliação.
Perdoar não significa necessariamente reconciliar-se com o outro, pode existir perdão sem reconciliação, mas não pode existir reconciliação sem perdão, e a misericórdia baseia-se nisto.
É preciso aceitar que o perdão é uma porta aberta para a esperança, para a misericórdia. Aceitar, acolher e descobrir o Deus das novas oportunidades na nossa vida, o Deus sem máquina calculadora, que perdoa sempre.

“Façam voluntariado com o coração"

“Façam voluntariado com o coração"

05 Dez, 2015 - 10:57 • Ângela Roque
Maria Graça Nobre tem 90 anos e há mais de 30 que é voluntária da Liga Portuguesa Contra o Cancro no IPO de Lisboa. Diz que é mais o que recebe do que o que dá, e que o que faz é tudo “por amor”.



Nem a idade (tem 90 anos), nem a distância (vive entre o Cartaxo e Santarém) impedem Maria da Graça Nobre de ir todas as sextas-feiras fazer voluntariado no IPO de Lisboa.
Está na Liga Portuguesa Contra o Cancro há 32 anos, mas o voluntariado entrou na sua vida mais cedo.
“Antes de vir para a Liga já tinha estado oito anos em Alcoitão. Parei dois anos, porque tive um problema familiar, mas depois entrei na Liga, e até hoje”. Um compromisso que para si “é um emprego”, a que só falta quando não pode deixar de ser, “por razões de saúde”.
Maria da Graça garante que a idade não é um obstáculo nem um limite: “Pelo menos para mim não é. Venho de longe, meia hora de carro até ao combóio, uma hora de combóio até Lisboa. Venho sempre bem-disposta”.
Quando se lhe pergunta se tem orgulho no que faz, não hesita: “Tenho muito orgulho em ser voluntária do IPO. Faz parte de mim. Costumo dizer que estes anos em que estou no voluntariado da Liga que recebi muito mais do que aquilo que dou. Aqueles doentes ensinam-nos muito”.
Já chegou a vir três vezes por semana, agora vem só à sexta-feira, para o serviço do ‘Café com Leite’. Diz que faz “tudo por amor, especialmente por amor. O doente sentir que tem ali alguém que pode dar uma palavrinha e aquele copinho de chá ou café com leite que se lhe leva, é dado com amor”.
A bebida quente é um aconchego quase sempre aceite, mas a conversa nem por isso: “O doente do IPO é um doente muito difícil, nem sempre aceita a conversinha. Mas há outros que vêm eles ter connosco e desabafam, falam”.
Maria da Graça Nobre espera que o seu testemunho possa ser um incentivo para que outros também sejam voluntários: “Façam voluntariado, mas sempre com o coração. É o que é importante no voluntariado”.
A “mais-valia” da idade
Para a coordenadora do núcleo regional sul da Liga Portuguesa Contra o Cancro, Helena Grilo, são exemplos como os de Maria da Graça que inspiram outros a fazer voluntariado.
“Olhar para uma senhora com 90 anos, que ali está há mais de 30, que só faltou mesmo por razões de saúde, de facto é um exemplo que nós tentamos também partilhar com os outros voluntários”.
A nível nacional a Liga tem 1.200 voluntários. No núcleo regional Sul há 500, e muitos são idosos. A idade não é um critério, até porque nem todos conseguirão passar muitas horas em pé, ou lidar com doentes em situações limite, explica. Mas os que podem estão de corpo e alma, e são uma grande ajuda.
“A experiência de vida das pessoas é uma grande mais-valia. Especialmente quando estamos a falar de situações de grande fragilidade, as pessoas mais velhas sabem incentivar, ensinam a valorizar as pequenas coisas, ajudam os doentes a viver um dia de cada vez e a ter esperança”.
No IPO de Lisboa há voluntários da Liga em 17 serviços: “Cada serviço tem os seus turnos, cada pessoa sabe exactamente qual é o trabalho que deve fazer”. Estão nos serviços de apoio aos doentes em ambulatório e aos doentes internados. Mas, explica Helena Grilo, também integram os “ movimentos de entreajuda, porque há determinadas ajudas que a Liga disponibiliza a determinados doentes, mulheres com cancro de mama, os doentes laringectomizados, e os doentes ostomizados”.
Há ainda um serviço de apoio aos doentes do Lar que existe no IPO, e um serviço de costura, que “é o único serviço em que as voluntárias não estão em contacto directo com os doentes, mas estão o ano inteiro a trabalhar para os doentes”. Fazem próteses mamárias provisórias, uma espécie de ‘almofadinhas’ que “oferecem às senhoras que são mastectomizadas no dia da alta, porque é a única coisa que elas podem pôr”.
É também ali que são feitos os “xailes de lã que as voluntárias de apoio ao internamento oferecem na semana do Natal aos doentes que ficam lá internados”.
Bata de voluntário: “Um diploma que se veste”
Helena Grilo explica que a Liga Portuguesa contra o Cancro tem quatro áreas de apoio ao doente oncológico onde estão voluntários: “Uma é a prevenção primária, com as campanhas de sensibilização para a prevenção do cancro, outra a prevenção secundária, que passa pelos rastreios, e a Liga faz o rastreio do cancro da mama. E temos ainda o apoio à investigação científica. Todos os anos a Liga concede bolsas que apoiam projectos de investigação na pesquisa da cura do cancro”.
A formação dos voluntários é igual para todos: “Primeiro recebem informação sobre a Liga, depois vão conhecer os vários serviços, e no final fazem um estágio em que aprendem com os que já são voluntários. Rodam pelos vários serviços e equipas para depois dizerem onde é que se sentem melhor”. Este estágio dura no mínimo sete meses, tem um orientador e é sujeito a avaliação: “Se for positiva recebem a bata de voluntário. Nós até costumamos dizer que o nosso diploma veste-se”.
Esta sexta-feira, na celebração antecipada do Dia Internacional do Voluntário, foram entregues batas a 65 novos voluntários, e distinguidos 19 que completaram 10 anos de serviço, mais nove que completaram 20, e uma que celebrou 25 anos de serviço.
A conversa com Maria da Graça Nobre e Helena Grilo vai ser transmitida na íntegra domingo, 6 de Dezembro, no programa “Princípio e Fim” da Renascença, a partir das 23h30.