domingo, 3 de março de 2013

Deus ou deuses? Em quem (que) acredito eu?


Deus ou deuses?
 
 
Em quem (que) acredito
 
 
 eu?
  

O Ano da Fé é a ocasião propícia para me interrogar sobre os fundamentos da minha fé. E se o não fiz até agora, cor­ro o risco de passar marginal a todo o dinamismo pastoral surgido da ousada proclamação do agora Papa emérito. Fa­lei de ocasião propicia porquanto ques­tionar-se sobre o Quem ou que da minha fé é atitude que se mantém sempre em aberto e que acompanha a vida toda.

A experiência diz-nos que quem não se preocupa com Deus cai nas malhas dos deuses. Porque precisamos todos de acreditar em algo ou alguém, se não nos transcendemos para o verdadeiro Deus cairemos voltados para os idolos. Numa palavra, todos somos crentes em Deus ou nos deuses. A nossa vida pode até dizer-se um balancear constante entre Deus e deuses. Precisamente em Cristo, Deus revela-se a mim que o procuro. Mas se não procuro o Deus autêntico acabo por «descansan agarrado pelos idolos. Enquanto Deus é percebido pelo ser humano que o procura como agente de libertação, razão do sentido da exis­tência, finalidade ou meta a alcançar, e, portanto, como Alguém que desafia, provoca e inquieta, os deuses não «cha­teiam» ninguém, deixam-nos adormecer na tranqüilidade pantanosa das vidas arrastadas e mergulhadas no consumis- mo, sem tensão para o que é mais belo, nobre, digno e perfeito. De facto, Deus. é «importuno. Impele-nos a avançar porque há diante de nós uma vida mais bela e atraente. Há, diante de nós, uma vida eterna, a luz da qual a vida terrena e temporal pode adquirir outra eleva­ção, outra beleza.

Quando, sensível às misérias do seu povo, mata o egipeio que atentava con­tra um hebreu, Moisés terá de se refu­giar e perceber que a sua acção se tor­nara inútil. Deus desperta-o para uma libertação do povo de caracter colectivo. E, convertido a este Deus que se lhe dá a conhecer como Único, essência mes­ma do Ser, o Existente por si - Ele é e os deuses não são - Moisés aventura-se numa missão que lhe parece impossível.

Só «convertendo-se> no seu dia a dia a Deus é que a gesta do êxodo se torna possível e a história de Israel se pôde afirmar como acção de Deus na história concreta dos homens.

Deus não se pode definir nem os ho- ' mens devem ousar pôr limites. Por isso ' a linguagem humana para dizer Deus se torna sempre imperfeita e incapaz. E - muitas vezes ao tentarmos dizer Deus reduzimo-lo a um ídolo com as nossas próprias medidas. Tentamos dizer Deus „ e, diante da dificuldade sentida, faze­mos silêncio. Afinal, a atitude mais acer­tada quando é sinal de acolhimento do mistério.

A nossa IV Semana Bíblica, que ocor­re ao longo da semana, vai abordar as temáticas muito comuns ao longo do Antigo

 Testamento em que o confron­to Deus/ídolos aparece bem vivo. Tal como nos nossos tempos, talvez estes mais penosos e hipócritas precisamente por pretenderem passar à margem das questões em confronto.

 

Teremos, cada um de nós, a ousadia de nos confrontarmos com Deus em Quem acreditamos, separando-o dos idolos que nos povoam? A oportunidade a esta. Se ficarmos em casa, enredado; nas nossas mil e uma desculpas pari não aproveitarmos a proposta, mai; uma vez os idolos nos enredaram e Deu: foi dispensado. A cidade de hoje precisé de um novo rosto de Deus. Converte-te tu ao Deus único antes de identificarei os idolos dos outros.                                 
 O Prior - P. Abílio Cardoso,in Boletim Paroquial

sexta-feira, 1 de março de 2013

Cristo - Consubstancial ao Pai, in Diário do Minho


CONSUBSTANCIAL AO PAI
 

 
O Catecismo da Igreja Católica, no número 242, resume assim este tema: «No primeiro concilio ecumênico de Niceia, em 325, a Igreja confessou que o Filho é ‘consubstanciai’ ao Pai, quer dizer, um só Deus com Ele. O segundo concilio ecumênico, reunido em Constantinopla em 381, guardou esta expressão na sua formulação do Credo de Niceia e confessou ‘o Filho unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos, luz da luz. Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstanciai ao Pai’». [Para ajudar a compreen­der melhor, ler: João 14, 6-14; Catecismo da Igreja Católica, números 234-242 e 249-256]
«Quem me vê, vê o Pai» - responde Jesus, no evangelho segundo João, ao pedido do apóstolo Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai!». «0 modo tipicamente cristão de considerar Deus passa sempre através de Cristo. É Ele o Caminho, e ninguém vai ao Pai senão por meio d’Ele. [...] Cristo, o Filho predileto, é por excelência o revelador do Pai. 0 verdadeiro rosto de Deus é-nos revelado só por Aquele que ‘está no seio do Pai’. A expressão original grega do Evangelho de João (cf. 1, 18) indica uma relação íntima e dinâmica de essência, de amor, de vida do Filho com o Pai» (João Paulo II, Audiência Geral de 20 de setembro de 2000). 0 diálogo entre Jesus e Filipe destaca a relação de profunda intimidade entre Jesus e o Pai: não se pode conhecer Um sem o Outro. Para o Papa Bento XVI, «estas palavras são as mais nobres do evangelho de João» (Audiência Geral de 6 de setembro de 2006). Mas não é fácil captar tudo que é dito. Os apóstolos também tive­ram dificuldade em perceber esta essência de Deus revelado em Jesus Cristo. O mesmo sucedeu nos primeiros anos do cristianismo. Aliás, ainda hoje é preciso a abertura à fé para acolher a totalidade deste mistério divino.
Ao longo dos tempos, para tentar dizer o indizivel do mistério da Santíssima Trindade, «a Igreja teve de elaborar uma terminologia própria, com a ajuda de noções de origem filosófica: ‘substância’, ‘pessoa’ ou ‘hipóstase’, ‘relação’, etc. Ao fazer isto, a Igreja não sujeitou a fé a uma sabedoria humana, mas deu um sentido novo, inédito, a estes termos, chama­dos a exprimir também, desde então, um mistério inefável, ‘transcendendo infinitamente tudo quanto podemos conceber a nível humano’» (Catecismo da Igreja Católica, 251).
Consubstanciai ao Pai. 0 termo «consubstanciai» é a tradução da palavra grega (homoousios) que designa a mesma (homo) substância ou essência (ousios); assim, afirmamos que o Filho e o Pai possuem a mesma substância. Esta expressão colocada no «Credo» é uma resposta clara ao aria- nismo (cf. tema 10): uma heresia (falsa doutrina) que defendia que Jesus Cristo não era Deus, mas apenas uma criatura que atingiu uma perfeição especial. 0 Concilio de Niceia (325) reafirmou a plena identidade divina do Filho e do Pai. «Daí, a acumulação, pelos Padres de Niceia, de expressões convergentes, não-escriturísticas, que tiveram de ser acrescentadas ao Credo da Igreja e do seu batismo. Mesmo o consubstanciai ao Pai, o homoousios com traduções hesitantes, não foi inserido por causa da significação clara que poderia ter tido anteriormente num sistema filosófico admitido por todos. As pre- cisões filosóficas sobre a natureza ou a substância só virão cinqüenta ou cem anos mais tarde, com os grandes bispos teólogos: Basílio Magno (f 379); Gregório Nazianzeno (f 390); Gregório de Nissa (f 394) e, no Ocidente, Agostinho de Hipona (f 430). Santo Ambrósio conta-nos que a palavra ‘consubs­tanciai’ só foi adotada em Niceia - quando outras assembleias de bispos a tinham julgado suspeita - porque tinha sido abertamente rejeitada por Ario e os seus» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993,69). Para reforçar a verdadeira doutrina, os Concílios seguintes (Constantinopla e Calcedónia) insistiram nos termos acrescentados no Concilio de Niceia (cf. temas 10 a 12). A ex­pressão - «consubstanciai ao Pai» - que encerra esta temática, defende que Jesus Cristo não é uma criatura especial, mas é Deus, faz parte de Deus, é gerado em Deus e possui a mesma essência de Deus. Ao contrário do que diziam os defensores do arianismo não está em causa o monoteísmo (um só Deus). 0 Pai e o Filho, com o Espírito Santo, constituem a Trindade de Um único Deus: um só Deus em três Pessoas.
Apesar de todas estas fórmulas, é importante recordar que as palavras do Credo não impedem a busca das melhores expressões para dizer Deus. A linguagem (ontem como hoje) será sempre im­perfeita, incapaz de explicar a plenitude do mistério de Deus.
In Diário do Minho 

Os Idosos, sempre em primeiro lugar!...Ame o que faz!...Os governantes devem pensar uma Comissão de Protecção Sénior

 
Os Idosos, sempre em primeiro lugar!
 
Ame o que faz!...
 
 

















 
 
Os governantes devem pensar uma Comissão de Protecção Sénior; isso já há muito que o Secretariado da Pastoral Social da Diocese chegou a essa conclusão no fim de umas jornadas sociais

DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

Há uma certa ambiguidade quando se fala em «
diálogo inter-religioso» e

«
encontro inter-religioso». Na opinião pública, as expressões «diálogo inter-religioso»

e «e
ncontro inter-religioso» são equivalentes, e associam-se frequentemente a uma

proposta de busca de consensos teológicos, tendo em vista uma vontade de unificação

das religiões. Também se confundem com «diálogo ecuménico».

Diálogos inter-religiosos

, ou diálogo das religiões, no sentido de exposições e

debates entre teólogos de várias religiões para encontrar a unificação, não existem, e

seriam infrutíferos. Mas pode haver, e há,
encontros inter-religiosos, ou encontros entre

religiosos,

para defender interesses ou objectivos comuns. Vou primeiro explicar

porque é que não pode haver
diálogos entre as religiões para a unificação das mesmas

e, depois, falar da possibilidade de haver
encontros inter-religiosos para debater temas

não religiosos

de interesse comum.

Definição de

Religião


As religiões são sistemas de crenças ou dogmas e de práticas
obrigatórias e

suficientes


para a Salvação (em vida ou pós-morte). Nas três religiões reveladas do

Mediterrâneo, as religiões são a expressão da vontade de Deus ditada por emissários: 1)

Quanto ao Judaísmo: pelos profetas do Antigo Testamento; 2) quanto ao cristianismo:

pelo próprio Filho de Deus incarnado, Jesus Cristo; 3) quanto ao Islão: pelo Profeta

Maomé, o último dos profetas enviados por Deus.
As três religiões assentam em

dogmas irredutíveis


Os textos sagrados são, para cada uma das três religiões reveladas, a
definitiva

e imutável Palavra de Deus.


Cada religião considera-se como uma revelação divina, perfeita e acabada,

resultado da Palavra de Deus, a Verdade por excelência e eterna. E só pode haver uma

Verdade, a sua.
Cada sistema teológico organiza-se numa construção coerente da

Verdade divina.


Isto não quer dizer que as religiões não possam ser tolerantes para com os

desviantes ou os não-crentes.

Excluo, aqui, o Budismo que não é propriamente uma religião mas «vias» de

perfeição (há várias variantes do budismo) e que podem ser praticadas simultaneamente

com as várias religiões (uma pessoa pode ser simultaneamente budista e cristã).

Pressupostos

de um pretenso diálogo

teológico


Para que houvesse
diálogo inter-religioso no sentido de debate de teologias,

pressupor-se-ia que os dialogantes fossem teólogos, intérpretes fidedignos das doutrinas

em discussão, e que um cedesse em favor do interlocutor e corrigisse a sua Verdade.

Ora, isso contradiz a própria natureza da religião cuja Verdade está definitivamente

revelada e declarada.

Digamos com toda a franqueza:
a proposta vinda dum teólogo acreditado ou

do responsável duma instituição eclesiástica, para um diálogo religioso com os

homólogos de outras religiões, a fim de se encontrar um patamar comum, um

compromisso ou um consenso, essa proposta de diálogo é uma operação de

proselitismo, de propaganda ou, então, uma provocação.


2

Diálogo religioso entre

pessoas singulares


No entanto, há que distinguir, por um lado, as instituições teológicas que

defendem e propagam uma ortodoxia de, por outro lado, as pessoas singulares que

seguem essas religiões. Muitas pessoas religiosas, agnósticas ou ateias pensam que

poderia haver diálogo e até
união entre as três religiões do Livro ou da Bíblia

(Judaísmo, Cristianismo, Islamismo) uma vez que têm origem no Patriarca Abraão, e

que até se diz que «
Deus é o mesmo» (o Deus das três religiões poderá ser o mesmo, se

ele existir, mas o certo é que, de uma religião a outra, ele torna-se muito diferente)
1. As

pessoas singulares podem reunir-se, confrontar as suas respectivas verdades, participar

nos ofícios das outras e cooperar em acções religiosas, sem pôr em causa a ortodoxia da

sua religião; são actos privados. As instituições guardiãs da teologia, essas, não se

poderão pôr em confronto porque são detentoras da única Verdade.

As religiões são

exclusivistas


Todas as religiões ou teologias têm em comum o facto de serem exclusivistas.

Só a sua concede a Salvação. Uma religião denuncia a outra, ora como «falsa» ou

inventada pelos homens, ora como inútil para Salvação. Todas são concorrentes entre si.

As três religiões do Ocidente (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) são até

particularmente concorrentes porque procedem do mesmo texto, o Antigo Testamento,

de que as três se apropriam quanto à promessa de messias (ou do ultimo profeta).

As teologias

são formas de poder


As religiões não são apenas sistemas teológicos. São também formas de poder

institucional - poder do saber teológico, poder social, poder conferido pela cultura. Os

detentores do poder religioso foram «vocacionados» para essa tarefa, predestinados e,

para efeitos sociais, são profissionais desse saber. Ceder teologicamente é perder parte

do seu poder, enquanto detentor do saber religioso. Depois, as religiões são largos

continuados históricos que, ao longo dos milénios, foram engendrando as culturas ao

ponto de religiões e culturas se confundirem.

Religiões do Mediterrâneo

irredutíveis


As religiões do Mediterrâneo partem de versões diferentes e contraditórias

quanto à Palavra de Deus. O Judaísmo recusa, liminarmente, que Jesus possa ser Filho

1

Sociologicamente, Deus é uma criação cultural e histórica. O conceito de Deus é muito diferente nas três

religiões «abraâmicas». O do Judaísmo é criador, legislador e juiz vingativo («Eterno Deus das

vinganças» que castiga os filhos e descendentes pela culpa dos antepassados); é tribal no sentido que só

protege o seu povo. É legislador para as questões civis e dietéticas. O Deus dos cristãos é trino (em três

pessoas, Pai, Filho, Espírito Santo sendo isto uma grande heresia para o Judaísmo e para o Islamismo).

Jesus Cristo, Filho de Deus, definiu Deus como «Pai e amor», e um Deus universalista, individual e intercultural

(sem pertença étnica, alheio às diferenças culturais dos «filhos»); não é segregacionista quanto ao

género; não é legislador para as questões terrenas, civis, sociais ou dietéticas (o seu reino «não é deste

mundo»), deixando a «César o que é de César e a Deus o que é de Deus»; o seu primeiro mandamento é o

amor entre os humanos sem distinção de nenhuma ordem. O Deus do Islão, Deus uno, é semelhante ao do

judaísmo, legislador absoluto para todas as questões civis, sociais e dietéticas, sem distinguir sociedade

civil (Estado) de religião. É estratega de guerra e juiz vingativo mas compassivo e misericordioso para os

convertidos e submissos («Islão» significa paz, submissão, paz na submissão). É rigorosamente

segregacionista quanto ao género e quanto a crentes e não crentes. Comunga da natureza dos deuses

tribais na medida em que a língua de oração tem de ser exclusivamente a da tribo do Profeta, enquanto o

local de culto privilegiado, Meca, foi o da naturalidade do Profeta e o da origem da tribo.


3

de Deus (base do cristianismo) ou que haja uma Palavra de Deus para além do último

texto inspirado da Bíblia (Antigo Testamento). A Verdade judaica está unicamente na

Tora e nos Profetas (do Antigo Testamento). O Corão que deriva, em parte, do Antigo

Testamento, nega a própria base do cristianismo que é a divindade de Jesus, sujeitando

à pena de morte os defensores desse princípio base do cristianismo.

Lembro um debate célebre, da Idade Média, em que o rei de Aragão convidou teólogos

judeus e teólogos cristãos para discutirem em público as respectivas religiões - um

diálogo inter-religioso. Os judeus argumentavam desta forma: «Vós, cristãos defendeis

que o Antigo Testamento é Palavra de Deus, que Deus é a Verdade eterna, portanto,

Deus não se contradiz
. Então, como pode Deus ter prescrito ‘decretos eternos’, a

Verdade eterna, e, depois, mandou
o seu ‘filho’ para revogar a sua doutrina eterna?». Os

inquisidores, perante a lógica irrefutável deste argumento teológico, só encontravam

uma solução: o silenciamento definitivo, a exterminação dos judeus. Este diálogo

medieval é típico dum diálogo de «surdos» que só serve para cada lado afirmar as suas

convicções e encontrar novos argumentos.

Diálogo entre

confissões

de uma religião


Há que ter em conta que as religiões não são monolíticas. Dentro duma

religião há diversas «confissões» ou Igrejas. Nas religiões cristãs: catolicismo, os vários

protestantismos, a Igreja anglicana e as Igrejas ortodoxas (orientais e eslavas). No

Judaísmo: o judaísmo sefardita e o judaísmo askenazi. No Islamismo: o sunismo, o

chiismo e o ismaelismo.

Poderá haver, e tem havido, diálogo entre «confissões» dentro do cristianismo

mas só sobre certas matérias secundárias que não tivessem sido objecto de

dogmatização. Desde que uma confissão tenha prescrito certa posição doutrinal como

dogma, a discussão torna-se impossível porque
o dogma é uma verdade indelével,

irreformável.

Desde os meados do séc. XX, as diversas confissões cristãs têm tentado o

ecumenismo. Mas os resultados ficam-se pelos gestos de cortesia, de respeito mútuo e

de não-ataque teológico. O diálogo teológico com os católicos dificilmente tem algum

resultado por causa do dogma da infalibilidade do papa de Roma declarado em 1870.

Encontrar-se-ão poucos teólogos que aceitem discutir teologia ou filosofia com um líder

infalível que, portanto, não pode mudar de direcção
2. O diálogo entre os vários

protestantismos é comum.

Quanto ao diálogo entre Judaísmo e Islamismo - alguns autores consideram o

Islamismo como uma variante ou uma continuidade do judaísmo
– o diálogo também é

impossível mas os judeus sempre viveram em boa harmonia com os meios islâmicos,

sem grandes perseguições, até à criação do Estado de Israel

2

Por outro lado, o catolicismo defende, dogmaticamente, que a salvação se adquire, exclusivamente, pela

prática dos sete sacramentos (Baptismo, Crisma, Confissão, Comunhão, Extrema-unção, Ordem e

Matrimónio). Doutrina dogmática irreformável. A partir daqui, um dogma diz que «fora da Igreja

Católica não há salvação», porque ela é a única que têm o poder de ministrar esses sacramentos. Entre os

protestantes o debate da Salvação pode estar sempre em aberto porque, segundo eles, para a Salvação

basta a fé e o estado de boa consciência com os ensinamentos das sagradas escrituras. Portanto, dum lado

e do outro, a Salvação é posta em condições inconciliáveis. O Concílio de Vaticano II amenizou este

dogma com o seguinte princípio «Outras religiões podem conferir a Salvação mas por meios que só Deus

conhece». Mas isso não é um dogma (porque contradiria o precedente) mas apenas um princípio para uso

dos missionários. Há aqui uma certa contradição, mas o catolicismo conhece muitas dificuldades por

causa da sua dogmática.


4

O diálogo entre as confissões do Judaísmo sefardita e askenazi é relativamente

fácil.

Confissões dentro do

Islamismo


Quanto às confissões dentro do Islamismo, o Islamismo não é homogéneo. Há

sunismo, chiismo e ismaelismo (para além de outras tendências numericamente

menores, como os alauitas). Ora, entre o sunismo e o chiismo, nunca existiu diálogo,

desde o princípio do Islão donde essas diferenças procedem. Os sunitas tomam os

chiitas por inimigos ainda piores do que os cristãos. Entre chiitas e cristãos até houve

diálogo no tempo das Cruzadas, em que cristãos e chiitas se uniram contra os sunitas.

Vejamos as posições que impossibilitam o diálogo teológico entre chiitas e sunitas.

O chiismo obedece a um líder e a uma hierarquia de clérigos que têm total poder

sobre os fiéis, como os católicos obedecem ao Papa e à Igreja (arriscando-se, ao

contrário, a serem excomungados, privados da Salvação). O chiismo está centralizado

no Imã Ayatolah supremo (
Ayatolah significa «sinal de Deus»). É ele, e só ele, quem

tem capacidades para interpretar o Corão cujas passagens tanto podem apelar à

violência como à pacificação, recorrendo o Imã Ayatolah à interpretação simbólica ou

alegórica e ao contexto literário. Na prática, o Ayatolah supremo dirige a religião

segundo as conjunturas históricas, sociais e políticas. Nos conflitos religiosos, o

muçulmano chiita, para agir, deve obediência ao Imã Ayatolah supremo. Não pode

tomar iniciativas contrárias à sua direcção. A declaração de guerra santa é uma

prerrogativa exclusiva do Imã Ayatolah supremo.

Vejamos o sunismo: no sunismo não há chefes, instituições ou hierarquias

religiosas a quem os fiéis, para serem bons muçulmanos, devam obediência. O Corão e

a Suna (as tradições do Profeta) são a únicas fontes a que o muçulmano sunita deve

obediência. (O Corão e a Suna constituem a Chária, ou lei). Para cumprir a religião,

todos devem aprender (e, frequentemente, saber inteiramente de cor) o Corão. Para o

sunita, a interpretação do Corão é literal, um «pronto a usar», sem recursos simbólicos

ou alegóricos, entendido versículo por versículo, sem contextualização literária, como

se cada versículo fosse uma norma autónoma. Para defender o Islão, o muçulmano

sunita pode agir individualmente, por sua iniciativa, sem chefe, e pode considerar-se um

iluminado, o único na boa-via do Islão a quem Deus exige este ou aquele sacrifício. O

sunismo enquadra-se numa perspectiva parecida com o anarquismo libertário europeu

do séc. XIX. O sunita dirá: «Não preciso de chefes nem de teólogos. Só o Corão e eu».

Note-se que os atentados terroristas que temos conhecido desde há anos, na Europa, no

Magrebe, no Próximo Oriente, na Índia, no Paquistão e na Indonésia, foram todos

perpetrados por sunitas. A Al Qaeda, os terroristas do Magreb (salafitas), de Israel, da

Índia, do Paquistão e da Indonésia, são sunitas
3.

Alguém que queira dialogar com o Islão sunita não terá ninguém que o

represente oficialmente. Ou tem de dialogar com cada muçulmano sunita. Poderá

encontrar apenas líderes locais, políticos ou académicos, mais ou menos influentes, mas

que não gozam do direito de serem seguidos ou respeitados pelos crentes individuais.

Os líderes sunitas terão de usar da força para se fazerem respeitar. A antiga

História do islão e a actual demonstram bem isso.

3

O partido Hezbolah (partido de Deus) que actua no Líbano, na Síria e na Palestina e que goza do apoio

do Irão, é chiita. Mas os seus actos e ideologia violentos devem-se aos problemas decorrentes do Estado

de Israel


5

Legitimidade

religiosa no Islão


De facto, chiitas e sunitas têm concepções opostas quanto à legitimidade do

poder religioso e político. No chiismo, a legitimidade do poder religioso reside na

hierarquia eclesiástica com o Imã Ayatolah supremo no topo. O A
yatolah supremo é o

sucessor e representante, na terra, do XII Imã chiita, descendente de Fátima, filha do

Profeta e de Ali marido de Fátima, que se ocultou em 940 (Imã Oculto ou Encoberto) o

qual se desocultará no futuro como messias e salvador. Todo o poder religioso emana

do Imã Ayatolah supremo.

Quanto ao sunismo: no sunismo, a legitimidade do poder político-religioso

reside no próprio facto da manutenção do poder. O poder cabe a quem o conquistar e

manter dentro do Islão. Praticamente, o detentor do poder adquire a legitimidade pelo

facto de ser obedecido. Os muçulmanos sunitas que entenderem que o líder defrauda ou

trai o islão, devem assumir a obrigação de o combater. A história do islão antiga e

recente está repleta de atentados a chefes do Estado, alguns democraticamente eleitos,

mas que, para alguns, são ilegítimos detentores do poder no islão, traidores ao islão.

Basta meia dúzia de iluminados para provocar uma catástrofe.

No islão ismaelita, que é um ramo chiita, o poder religioso cabe exclusivamente

ao Imã Aga-Khan, considerado como descendente em linha genealógica directa do VII

Imã chiita, descendente do Profeta Mohamed, através de Fátima sua filha e de Ali

marido de Fátima. O Imã Aga-Khan sempre foi tido como um líder de paz e de

tolerância dentro da sua confissão e inter-religiosa.

Exemplo do Diálogo

Em Madrid


Voltando ao diálogo entre as religiões. Para estes dias, 16, 17 e 18 de Julho,

organiza-se em Madrid um «Encontro de religiões e de culturas» a que alguns

jornalistas chamam «Diálogo entre as religiões», convocado pelo rei da Arábia Saudita

e foi ele quem organizou a lista dos convidados. As justificações deste líder, e que

constam nas dezenas de mesas de discussão, são as seguintes, segundo o próprio rei da

Arábia: «No mundo actual há fenómenos que desconsolam a gente sensata de todas as

religiões em mais de um aspecto. A humanidade padece de desintegração da família, de

decadência moral, contaminação do meio ambiente, guerras que comovem o coração

dos intelectuais e que constituem uma forte preocupação na busca de soluções para

salvar a humanidade das suas moléstias. Todos esperam que os líderes e seguidores das

diferentes religiões e culturas encontrem soluções adequadas para salvar a humanidade

dos perigos que comprometem o seu futuro»
4. Mas os comentadores previnem que esta

iniciativa é uma manobra para «limpar a imagem» do rei da Arábia Saudita - donde

procede a Al Qaeda - e que mantém o regime mais segregacionista do mundo 1) quanto

às mulheres (que não podem andar na rua sem serem acompanhadas do marido, pai,

irmãos ou filhos, as adulteras são mortas por apedrejamento), 2) quanto à sexualidade

(os homossexuais são enforcados) e 3) quanto à liberdade religiosa (a Igreja católica não

conta com nenhum templo no reino e o rei trata as minorias chiita e ismaelita de

hereges; e estas não foram convidadas ao dito encontro de Madrid). Este encontro de

Madrid segue-se a um Diálogo ou Conferência Islâmica Internacional celebrado em

finais de Maio, em Meca. Porque é que o rei saudita não organizou este encontro ou

diálogo no seu país? Porque, no seu país, islâmico sunita (de código waabita,

particularmente severo), não pode haver debates livres sobre as religiões, como não há

nenhum sinal de liberdade de culto, nenhum templo doutra religião. O Guardião das

4

Jornal El Pais, 14 de Julho de 2008.

6

Santas Mesquitas de Meca e Medina (é o seu título religioso), rei absoluto, veio ao

estrangeiro para convidar a um diálogo entre religiões ou veio propor uma boa imagem

da sua religião? Optou por Madrid para dourar a sua imagem, certo, mas também

porque os fundamentalistas sunitas estão a reclamar a reconquista do Andalus. Este

evento em Madrid é um exemplo característico de como os
teólogos ou líderes das

religiões, quando convidam ao debate sobre as religiões, agem por proselitismo.


Nestas propostas de diálogo entre as religiões, se não há vontade de

proselitismo, há, pelo menos, a busca de um efeito de marketing, de uma «boa imagem»

para a religião de quem partiu o convite (dialogante, aberta, acolhedora, etc.).

Intenções dos laicos

proponentes

ao diálogo


Quando são os laicos a convidar para o diálogo entre as religiões, reconhecemos

que estes são animados de boa vontade, de civismo, de desejos de pacificação religiosa

e de solidariedade humana. Mas também podem ser induzidos numa utopia, por
não

terem em conta os dogmas, a irreversibilidade dos fundamentos teológicos, o

exclusivismo da Verdade

, de que os líderes religiosos são os defensores (caso

contrário, serão destronados ou ultrapassados por outros dentro da sua religião ou

instituição teológica).

O Cardeal Patriarca de Lisboa, aquando dum recente encontro inter-religioso em

Lisboa disse que «teremos de esperar ainda muito tempo para termos um diálogo interreligioso

», entre as religiões. Isto significa, diplomaticamente, que nenhum responsável

duma religião ou Igreja se pode comprometer nesse diálogo. Todos os responsáveis

religiosos honestos dirão o mesmo, diplomaticamente, dirigidos ao público em geral,

sem confessarem expressamente a impossibilidade desses diálogos ou que estes seriam

infrutíferos.

ENCONTROS INTER-RELIGIOSOS ou ENTRE RELIGIOSOS

Encontros entre religiosos são possíveis - mas, desde que não se discuta religião

ou, pelo menos,
desde que não se fale daquilo que separa as religiões e que constitui

as suas respectivas bases

. O que há em comum entre as religiões é, teologicamente,

insignificante e secundário - o conceito de sagrado e de divino, alguns tabus,

importância dos ritos... O que as separa são abismos ou muralhas inultrapassáveis.


Rezar

em comum


Os líderes judeus, cristãos e muçulmanos poderão encontrar-se para rezar. Mas

cada um reza com fórmulas diferentes. Dificilmente rezarão uma fórmula oficial em

comum. Ou terão de inventar uma fórmula de prece comum às três doutrinas (algumas

orações corânicas e os salmos bíblicos seriam facilmente adoptáveis).
Mas não rezarão

na mesma língua.

Para o muçulmano, a oração só tem valor pronunciada na língua

árabe. Os cristãos poderão rezar em qualquer língua.

Espaço

de oração


Quanto ao espaço de oração tem de ser um espaço profano: os cristãos não

impedem os muçulmanos de entrar livremente nos templos cristãos, sejam templos

católicos ou protestantes, e de aí rezarem como quiserem. No entanto, segundo o islão,

7

os muçulmanos estão proibidos de entrar nos espaços sagrados das outras religiões.

Esses muçulmanos, vistos a entrar aí, podem ser considerados pelos seus

correligionários como apóstatas (e sujeitos à pena de morte, segundo a Chária). Mas os

judeus e os cristãos são proibidos pelo Islão de entrar nas mesquitas para rezar. Se

quiserem entrar numa mesquita para rezar terão de recitar, à entrada, a Declaração de Fé

e, com isso, ficam convertidos ao islão.

Em Portugal, o santuário de Fátima tem sido frequentado por budistas, hindus,

chiitas e ismaelitas. A história destes locais remete para um culto a Fátima, filha do

Profeta, «Mãe do chiismo», mãe do XIIº Imã chiita, o Imã Oculto ou Encoberto, que se

desocultará como Messias. Houve aí um culto a Fátima, no tempo dos mouros

marroquinos conquistadores da Península que eram fatimidas ou chiitas. Os símbolos

católicos (imagens, etc.) aí existentes são incompatíveis com o chiismo e o ismaelismo

mas, dada a largueza e a abertura do espaço para a serra envolvente, há possibilidades

para o encontro diverso e para alguma variedade de práticas religiosas. O problema é

que o próprio Vaticano já determinou expressamente que esse santuário não pode ser

usado por outras religiões. É exclusivamente católico. Até deu à nova basílica o nome

de Santíssima Trindade (o Deus dos cristãos é em três pessoas) para afastar todas as

tendências não cristãs, sobretudo as islâmicas chiita e ismaelita. Quer dizer, a Igreja

católica diz-se, continuamente, aberta ao diálogo mas afasta dos seus espaços os não

católicos
5.

Temas

do diálogo


O encontro de teólogos das três religiões mediterrânicas só será possível sobre

temas não teológicos nem fundamentalmente religiosos - temas científicos, sociais,

políticos, culturais e humanitários. Sendo assim, os «encontros inter-religiosos» não se

diferenciam muito dos outros encontros cívicos, académicos ou políticos. Só parecem

adquirir o cunho de «religioso» porque as elites religiosas, numa determinada época, se

interessam também por esses temas, mundanos ou laicos, e que são comuns a toda a

Humanidade. Todos os líderes religiosos podem debater os temas da Ecologia, da

Economia ou da Assistência Social que são preocupações de muitas outras pessoas,

laicas e ateias. Não é porque sejam temas teológicos ou religiosos. O consenso dos

líderes religiosos gerado em torno desses temas mundanos não pressupõe nenhuma

unidade religiosa. A Igreja de Roma e alguns líderes sunitas reuniram-se no Cairo para

debater a defesa da família e o progresso demográfico, em que a Igreja se colocou ao

lado dos muçulmanos para condenar a anti-concepção e defender a família numerosa.

São temas sociais. Mas, para além da defesa da família em geral, da procriação e de

algum humanismo sociológico comum, os católicos não podem ir mais longe com os

islâmicos, porque os direitos religiosos e familiares respectivos são muito diferentes e

até opostos (no islão: possibilidades de família poligâmica, repudiação da esposa pelo

marido, divórcio, subalternização da mulher ao marido...).

As autoridades de todas a religiões poderão encontrar-se para discutir a paz.

Hoje, guerras religiosas, só existem com o islamismo. Mas, como vimos, os líderes

muçulmanos sunitas não podem arrogar-se do direito de serem respeitados pelos outros

muçulmanos porque não há uma direcção comum no sunismo. As suas posições sobre a

paz passam por, simplesmente, individuais. O problema é que existe, no Corão, o

5

Com tanta tradição histórica de proibir e de reprimir as outras religiões, sendo o Estado português laico,

também gostaríamos de saber o que poderia a Igreja católica fazer contra alguém que construísse uma

mesquita nos arredores do santuário ou que se lembrasse de rezar no terreiro do santuário na língua árabe

e voltado para Meca.


8

preceito da guerra santa, ou
gihad, muitas vezes referido no texto e que algumas

correntes e muitos muçulmanos sunitas elevam ao lugar do
Sexto Pilar do Islão6. Ora o

texto sagrado é para ser cumprido, dirão esses. O termo corânico
gihad que,

etimologicamente, significa «esforço», pode aplicar-se, no Corão, a guerra contra os não

muçulmanos, em passagens do género: «Matai todos os infiéis que estejam à vossa

volta» (Surate 9, versículo 5; os sunitas cumprem os versículos do Corão como normas

autónomas, sem contextualização histórica ou literária). Portanto, a guerra também está

legitimada pela religião de uma das partes. É muito interessante ver gente pacífica

chegar a um consenso sobre a paz. O problema consiste nos belicosos que ficam de fora

e que, por motivos teologicamente legítimos, não são obrigados a entrar nesses

consensos de paz.

Possibilidade

de encontros

inter-religiosos

(entre religiosos)


As sociedades estão cada vez mais a laicizar-se e, simultaneamente, a procurar

vias alternativas e individuais de espiritualidade levando ao descrédito dos dogmas,

mesmo nas sociedades islâmicas onde a secularização avança sub-repticiamente (o Islão

onde é aplicada a Chária é um sistema sócio-religioso e jurídico que se confunde com o

Estado).

Nas sociedades ocidentais, desconhece-se, hoje, tanto a doutrina católica como a

islâmica, e considera-se desejável o ideal, utópico, da unificação das religiões. A partir

desse ideal utópico, e da individualização religiosa, são viáveis os encontros com

religiosos de boa vontade para discutir temas humanitários e universais, como a paz, os

direitos humanos e a erradicação da pobreza. Várias organizações cristãs no mundo,

como a Comunidade de Santo Egídio, procedem a encontros inter-religiosos, tanto para

rezarem no mesmo espaço como para discutirem assuntos humanitários. É notável a sua

acção em favor da paz em várias regiões de África. Conta cerca de 300 comunidades

espalhadas pelo mundo onde intervêm junto dos beligerantes ou conflituantes assim

como em favor dos doentes da sida, refugiados, etc. Mas não promove diálogos

teológicos. Organizou em Lisboa a manifestação «
Encontro inter-religioso - Oceanos

de Paz»,

em 24, 25 e 26 de Setembro de 2000. Note-se «Encontro» e não «Diálogo».

Teve a participação das religiões mais seguidas no Ocidente. Lembro que os islâmicos

sunitas participantes destas manifestações, por mais elevado que seja o seu prestígio

religioso ou político, não representam o islão sunita. Só representam a si próprios ou as

respectivas organizações cívicas, não religiosas. A sua presença não condiciona os

outros muçulmanos. Diferentemente disto, a presença do Cardeal Patriarca de Lisboa,

no mesmo encontro, representa todo o patriarcado de Lisboa e, até, se assim o estipular

a Conferência Episcopal Portuguesa, toda a Igreja católica portuguesa.

Importa ainda dizer que o conceito de solidariedade social universal à qual

alguns pensam poder dedicar estes Encontros Inter-religiosos, também tem

condicionamentos de uma religião a outra. Entre os cristãos, a solidariedade social é um

dever religioso fundamental, prioritário, instituído por Jesus Cristo, e sem olhar a raça,

nacionalidade ou religião, universalista, globalizante, sendo prioritários os mais

necessitados. Não é esse o critério do Islão. Segundo o Corão e a Suna, os muçulmanos

6

Os Cinco Pilares do Islão, a base em que este assenta, são: a Declaração de fé («Não há Deus para além

de Allah e Mohamed é o seu enviado»), a Esmola obrigatória, zakat, (um imposto), Cinco orações diárias,

Jejum do Ramadão e Ida a Meca uma vez na vida. Alguns meios muçulmanos acrescentam a Guerra

Santa.


9

não estão obrigados a serem solidários para com os das outras religiões, crentes, ateus

ou hereges, sendo apenas obrigados a sê-lo para com os muçulmanos.

Os Encontros de religiosos dos vários quadrantes promovem a tolerância e a

cooperação entre os povos, e entre maiorias e minorias religiosas, tendo o efeito das

relações públicas e de boa vontade, alheias aos Estados vistos como beligerantes ou

repressivos. Estes Encontros podem servir de correctivo da acção desses Estados

beligerantes. Produzem um forte impacto mediático e, dada a secularização e a

medíocre formação religiosa das massas - que, neste caso, é positiva - levam a

resultados a curto prazo e desmobilizam as tendências religiosas fundamentalistas e

obscurantistas.
Mas podem ser usados para o proselitismo e para realçar a bondade

ou maldade de uma ou outra religião ou Igreja.


A ambiguidade de que falei no princípio (confusão entre diálogos interreligiosos,

diálogos teológicos, e encontros entre religiosos), resultante da ignorância da

opinião pública que pensa poder haver diálogos entre as religiões, é neste caso benéfica

porque conduz à tolerância religiosa e à cooperação entre indivíduos de religiões

diferentes.

O Diálogo inter-religioso como plataforma de entendimento comum no

Mediterrâneo,

não podendo ser promovido pelas instituições teológicas, tem muitas

possibilidades de o ser pelas organizações sociais e pelos indivíduos, à margem das

ortodoxias. Nós vemos cada vez mais pessoas a assumir a fraternidade humana a partir

da fé no Deus revelado ao Patriarca Abraão e aos Profetas. Ora, isto está em

conformidade com as tendências modernas de busca de novas espiritualidades em

detrimento das ortodoxias tradicionais. Estas tendências de emancipação espiritual estão

em visível progresso nos meios do cristianismo. São tendência de futuro.

No entanto, o fundamental, é que se exija dos Estados a liberdade religiosa e o

tratamento jurídico equitativo das religiões e confissões, por mais minoritárias que

sejam.
A igualdade e a liberdade religiosas é que devem ser a primeira plataforma

de entendimento comum, para a fraternidade entre os povos

. Mas, estes princípios

de liberdade e igualdade devem ser apanágio dos Estados das duas margens do

Mediterrâneo, o que ainda não acontece.

Moisés Espírito Santo

Prof. Catedrático de Sociologia das Religiões

Passionistas de Barroselas - Família passionista viva e dinâmica

Um Boletim trimestral dos Passionistas que
 
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