Ao
lado do essencial
Quando Jesus nasceu foi dito d'Ele: “Assim hão-de revelar-se os
pensamentos de muitos corações" (Lc 2, 35). Parece que essa propriedade
se mantém no Seu Vigário, pois muito do que se tem dito nestes dias acerca de
Bento XVI manifesta mais a atitude pessoal de quem fala do que o problema que
julga analisar.
A Igreja é a instituição mais comentada fora dela. Por todo o lado se
proclamam opiniões taxativas sem lhe pertencer, ou sequer simpatizar. O
Cristianismo é, sem dúvida, o tema com mais treinadores de bancada. Pelo seu
lado o Papado, que é o seu elemento mais criticado, exerce a espantosa atracção
que se vê. Não conseguem gostar dele, nem deixar de falar disso. O fenômeno
merece análise.
É verdade que a Igreja Católica constitui uma realidade única no mundo.
Existindo há 2000 anos, hoje com 1200 milhões de fiéis, é facilmente a maior e
mais influente instituição da história. Bento XVI, o 265.° Papa, é também caso
único. A mais antiga monarquia, a do Japão iniciada em 660 a. C., tem
actualmente “apenas" o seu 125 ° imperador, enquanto o Dalai Lama, que
pode ser considerado o lider mundial mais parecido, é só o 14.° desde 1357. Em
termos meramente estéticos e intelectuais é fascinante.
No entanto, essas análises incluem um elemento inesperado pois, em
geral, os comentadores, sendo alheios, não fazem o menor esforço para entrar
dentro da lógica daquilo que consideram. Mas não tomam isso como um obstáculo à
qualidade do seu juízo. É evidente que quem emite opiniões sobre ciência,
música, jardinagem ou alpinismo faz um esforço para entender essas entidades,
mesmo que se mantenha exterior ao próprio. Ninguém escreve sobre indígenas do
Pacífico, cinema japonês ou cultura punk sem procurar dominar o respectivo ponto
de vista. No caso da Igreja isso não sucede, o que leva a generalidade dos
críticos a pronunciar candidamente os dislates mais flagrantes, sem perceber
que está totalmente ao lado da questão. O motivo desta situação é um fenômeno
curioso.
Como se pode comprovar numa mera consulta dos jornais nos últimos dias,
a grande maioria dos textos que se debruçaram sobre a decisão de resignação de
Bento XVI nem sequer menciona aquele que foi, de longe, o factor mais decisivo
no fenômeno que consideram: Deus. Concorde-se ou não, goste-se ou não da sua
convicção, é evidente que Bento XVI tomou a sua decisão diante de Deus. Do
mesmo modo, toda a Igreja recebeu a notícia como vinda de Deus. e espera do
Senhor a continuação desta história. Ignorar isto é como discutir música sem
som ou alpinismo sem montanhas.
Olhar para os recentes acontecimentos desta forma, ou seja a partir de
dentro, muda completamente as conclusões. Bento XVI não renunciou por causa da
Cúria, que é igual há séculos, ou devido a escândalos e ataques, iguais aos que
acompanharam cada momento do pontificado. Nem sequer foi por motivos de saúde,
apesar de o próprio os ter invocado. O seu gesto só aconteceu porque ele está
plenamente convencido ser essa a vontade de Deus. Ele acha mesmo que é isso que
aquele Senhor que segue atenta e minuciosamente em cada passo da vida há muito
anos, e a quem entregou cada gota da sua existência, quer que ele faça.
Ver assim as coisas também muda totalmente as conversas que estes dias
se multiplicam sobre o próximo Papa. Aqueles para quem essa eleição terá
conseqüências, porque seguirão realmente na sua vida o novo “Cristo na terra”,
como lhe chamava S. Catarina de Sena, vêem as coisas de outra forma. Eles estão
pouco preocupados se ele será europeu ou africano, jovem ou idoso, alegre ou
reservado. Essas são as questões das escolhas na ONU ou Comitê Olímpico, mas o
Conclave nada tem a ver com isso.
Para os eleitores o propósito é, como diz a Constituição Apostólica que
regula o processo, ter “em vista unicamente a glória de Deus e o bem da
Igreja" (Universi Dominici Gregis, 83). Quanto ao resto dos católicos,
eles estão nenos preocupados em saber quem querem que o novo Papa seja do que
em saber o que o novo Papa vai querer que eles sejam.
In DN 2013-02-25
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