quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

MEMÓRIAS DE MARFIM ARTE NATALÍCIA


MEMÓRIAS DE MARFIM

ARTE NATALÍCIA

 

José Rodrigues Lima

 

Peregrinamos pelo património do Alto Minho. O nosso destino foi a aldeia do Luzio, no concelho de Monção. Após a pesquisa no Arquivo Municipal, onde encontramos abundante documentação, metemo-nos à estrada, tendo chegado ao centro da aldeia ao princípio da tarde.

No percurso enchemos os olhos com belas paisagens, onde os soutos de carvalhos são significativos. Alicerçados na documentação e nas conversas da boa gente do Luzio, apreciamos a sua memória colectiva que vai desde o antigo couto, passando pela arte barroca, até às imagens em marfim, preciosidades raras e duma beleza fascinante.

O rio Gadanha que nasce nos Anhões tonaliza o ambiente da aldeia, onde o chilrear da passarada é uma constante.

Os sons pesados do sino conjugavam-se com o ambiente natural, envolvendo-nos na vida campestre inserida na Serra da Anta.

 

Como chegar

Da vila de Monção tomem a estrada na direção dos Arcos de Valdevez.

Aparecendo a sinalização de Lordelo, meta à esquerda para passar em Anhões, e de imediato avistar, do alto, a aldeia do Luzio namorada pelo sol.

A aldeia situa-se a 13 Kms da vila raiana.

O rio Gadanha divide a aldeia do Luzio formada pelos seguintes lugarejos: Ínsua, Portal, Paço, Outeiro, Luzenças, Pisado, Calastreiro, Trozinhos, Leirado, Igreja, Casbeiro, Tois, Bouças. Beçada, Fonte e Casal.

 Nestes sítios encontramos casas graníticas com soluções arquitetónicas dignas de registo, sendo de referir a Casa do Paço e um belo portal de cantaria trabalhada com rigor, obedecendo a risco definido.

Também podemos descobrir a aldeia partindo do alto do Extremo. Constatamos um Minho diferente, aquele dos caminhos patrimoniais não rompidos, onde sentimos “o mítico e conhecemos a história”.

 

 

Chama cósmica do rio Gadanha

As águas do rio Gadanha descem da aldeia dos Anhões saltitando de açude em açude.

À nossa mente vem a figura simpática do Padre Zé dos Anhões, do Senhor do Benfim. O seu perfil físico e psicológico irradiava bonomia, e tornou-se uma referência no concelho de Monção e não só.

Passou mais de cinquenta anos nestas paragens que ficam junto do rio, percorrendo-as a pé e a cavalo…

Os que o conheceram podem dizer da sua sabedoria prática, da filosofia de vida e das suas miragens das aldeias que pastoreou. Uma personagem a reter na história da aldeia.

O cancioneiro regional acompanhava-nos. E assim, a natureza leva-nos a recordar:

Não há pau como o de carvalho,

Que é um pau de três frutos;

Dá bolota, dá bogalho,

Também dá maçã de cucu.

 

Pinheiro, dá-me uma pinha,

Ó pinha dá-me um pinhão;

Menina, dá-me os teus olhos

Que eu dou-te o coração.

 

Dizes que arruda amarga,

Quem vo-la deu a comer?

Os segredos do meu peito.

Quem vo-los deu a saber?

 

 

 

Olhar…olhar…

 

Não se pode andar pelo concelho de Monção sem conhecer o poeta João Verde. Ele engrandeceu a sua terra em prosa e em verso, e legou-nos os livros, “Ares da Raia”, ”Musa Minhota” e “N`Aldeia”, para além de poemas diversos.

Ele chamava a atenção para a sua terra:

 

Quem vem a Monção e vê,

Estas paisagens sem par;

-Não sabemos bem porquê-

Fica a olhar, a olhar, a olhar…

 

Noutro poema diz:

 

Vamos pois aldeia fora

À procura de saúde,

Q´eu prefiro a vós do açude

À cidade estouteadora

 

 

Arte em Marfim

 

“As coisas estão muitas vezes onde não se julgam”, é frase corrente nas aldeias. Pois ficamos surpreendidos com a arte trabalhada em marfim.

As pessoas cautelosas, devido ao roubo consumado, manifestam certa reserva em mostrar as pequenas imagens de marfim.

O membro da Comissão Fabriqueira, Manuel Rodrigues Fernandes, proporcionou, com muita gentileza, a observação das imagens que fotografamos. A história que envolve as imagens é linda de se ouvir

Conta-se que numa grande casa, de uma boa família da aldeia, houve em tempos recuados um enorme incêndio, tendo o fogo levado todo os haveres e morrido as pessoas queimadas, salvando-se apenas um rapazito da família.

O miúdo teria ido para frade, e mais tarde ter-se-ia dedicado à missionação no Oriente, na Índia Portuguesa ou Macau.

Este missionário, talvez no início do século XIX, começou a enviar imagens esculpidas em marfim para a sua terra natal.

Deste modo foi chegando um bonito presépio que foi furtado. Enviou, ainda, aquele apóstolo do Oriente, uma maravilhosa Sagrada Família, uma Senhora da Conceição ou Senhora Mãe de Deus, conforme invocação do povo, e um crucifixo.

Ficamos maravilhados com a arte, a devoção e o apreço que os habitantes do Luzio nutrem pelas verdadeiras relíquias.

Esta singular história contada com emoções à mistura, revelou-nos um universo denso de simbologias que passam pela capela de de N.ª Sr.ª do Desterro, com inscrição de 1821.

As referidas imagens em marfim encontram-se bem guardadas em cofre seguro.

 

Por certo nesta quadra natalícia recordamos de Gil Vicente:

 

“Da rosa nasceu a flor

Para nosso Salvador:

Virgem Sagrada!

Nasceu a rosa do rosal,

Deus e Homem natural:

Virgem Sagrada”

 

Boas Festas.

 

Anexo:

Fotografia Sagrada Família de marfim .

 

José Rodrigues Lima

 

93 85 83 275

jrodlima@hotmail.com

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