segunda-feira, 29 de junho de 2015

Até as prostitutas vos precederão no Reino de Deus


Até as prostitutas vos precederão no Reino de Deus

Manuel José Ribeiro

Última crónica tinha como título "As mulheres e as religiões" e, sobre esse tema, relatava as pesquisas que tive de fazer para provar a seriedade do seu conteúdo. O título da presente crónica também não é invenção minha. Fui buscá-lo a uma sentença de Jesus Cristo, a que retirei a palavra "publicano” e acrescentei, para dar mais força expressiva, a palavra "até". Quem quiser ter uma noção das circunstâncias dessa frase poderá consultar o Evangelho de Mateus no capítulo 21, 23-32. A sentença textual de Jesus é esta: "Em verdade vos digo: os publicanos e as prostitutas preceder-vos-ão no Reino de Deus". Se tivermos em conta a quem Jesus dirigiu estas palavras fortes, poderemos concluir muita coisa. Estas palavras foram dirigidas aos Príncipes dos Sacerdotes, à poderosa e interesseira classe sacerdotal do Templo de Jerusalém, quando encontraram Jesus a ensinar e, de imediato, aqueles lhe perguntaram com que direito Jesus ensinava e quem lhe tinha dado a autoridade para isso! Se da palavra prostituta (ou meretriz ou puta] ninguém tem dúvidas quanto ao seu significado e à baixíssima posição social que "a mais antiga profissão do mundo" sempre ocupou, resta-me acrescentar que os publicanos eram odiados (isso mesmo, odiados) pelo povo de Israel, pois eles, além de cobradores de impostos para os Reis e para os Imperadores Romanos, também retiravam largas somas de dinheiro para si próprios. Umas e outros, já se vê, eram fortemente desconsiderados.

Portanto, se para Jesus até as mulheres mais desacreditadas socialmente — as meretrizes — eram mais dignas do que a classe sacerdotal do seu tempo (intelectualmente autoconvencida, soberba, poderosa, ciosa dos seus privilégios, gananciosa), qual seria a consideração de Jesus Cristo pelo comum das mulheres, das esposas e mães, que eram maltratadas quer pela Lei de Moisés e, claro, pelo poder patriarcal e machista dos homens do seu tempo? Obviamente: Jesus tinha pelas mulheres a mais elevada consideração!

E, de imediato, ocorre-me a pergunta (a mim e, muito provavelmente, aos leitores que me seguem). E tem justificação plausível o tratamento discriminatório (no mínimo) que a "classe sacerdotal" do cristianismo, a partir das imperiais cidades de Roma e Constantinopla, deu às piedosas mulheres cristãs? Nenhuma justificação. Jesus foi uma pessoa fora do comum, de elevadíssima inteligência e, realmente, de uma infinita bondade. Mas não deixou códigos alguns e muito menos manuais de doutrina ou de comportamentos de qualquer espécie, designadamente sobre matéria sexual, e fez tudo para banir os preconceitos do seu tempo. O único mandamento foi o do Amor (amai-vos os aos outros como eu vos amei) e a única oração foi a do "Pai-nosso que estais no Céu". No dia em que escrevo esta crónica (o Domingo do Corpo de Deus), é indubitável a posição de Jesus em relação a toda a humanidade e, claro, às mulheres. Trata-se do episódio da Última Ceia (instituição da Eucaristia), nas vésperas das celebrações pascais judias:" Isto é o meu corpo, o sangue da Aliança, que é derramado por toldos" (Marcos, 14, 22-24)

Os próprios evangelhos canónicos (aqueles que são usados e autorizados pelas Igrejas Cristãs) narram vários episódios e transcrevem muitas palavras de Jesus que desmentem categoricamente esse comportamento discriminatório em relação às mulheres, tratamento esse que foi norma e prática da hierarquia religiosa (masculina) até aos nossos tempos. Se a esses episódios dos evangelhos canónicos juntarmos outros que vêm referidos nos chamados evangelhos apócrifos (secretos, escondidos), torna-se claríssimo que, nessa matéria, a doutrina (o dever ser) das Igrejas Cristãs (de uma parte delas, designadamente o Catolicismo) não é coerente com os ensinamentos de Jesus. Mas salvo melhor opinião.

Julga-se que é o momento de mudar algo (ou muito) sobre o papel das Mulheres na orgânica da Igreja. Há que pôr fim à demonização da mulher e trazê-la para o seio da comunidade cristã sem horrendos preconceitos e ultrapassadíssimas cautelas. O clero masculino (todo ele) só teria vantagens nessa aproximação natural, às claras. Os crentes católicos esperam que o Papa Francisco, depois do Sínodo dos Bispos sobre a Família, se vai concentrar no arejamento da orgânica clerical, exclusivamente machista ainda nos tempos actuais, e, portanto, parcialmente representativa da Humanidade: "O sangue da aliança foi derramado por TODOS", ensinou Jesus.

(NOTA: a maior parte das edições dos Evangelhos, que consultei sobre o episódio da Última Ceia, refere, para minha surpresa (embora não total, mas, mesmo assim, perturbadora), as expressões "sangue derramado por muitos homens" (Mateus), ou "derramado por muitos" (Marcos), ou "sangue derramado por vós" (só os discípulos?), em Lucas. Em que ficamos? Num tempo em que as informações correm mais velozes e todo o mundo tem acesso às mesmas, torna-se imperioso que alguém explique estas estranhíssimas incongruências).

(Bibliografia base: os Evangelhos e o livro "Jesus e as Mulheres”, de Françoise Gange, Editora Vozes, de Petrópolis, Brasil)

(manuelribeirojor@gmail.com)

A aurora do Lima – 18 de Junho de 2015

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