terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

ENTERRO DO PAI VELHO, DANÇA DOS CARPINTEIROS E MECADAS



O CARNAVAL NO ALTO MINHO
 

O ENTERRO DO PAI VELHO, DANÇA DOS CARPINTEIROS E MECADAS



 

A festa cíclica do Carnaval está presente no meio rural e urbano. Porém, é nas comunidades tradicionais que o encontramos mais genuíno, projectando-nos na ancestralidade, na memória colectiva e no inconsciente cultural.

 

REGENERAR O MUNDO

No dizer de Roger Caillois, a festa pretende restaurar o caos primordial, reactualizar as cosmogonias, teatralizando e mimando os gestos dos deuses e antepassados, porque o tempo mítico da desordem é um tempo criador, e necessariamente será também renovador do cosmos envelhecido. “A festa é assim celebrada no espaço-tempo do mito e assume a função de regenerar o mundo”.

As teses referentes à origem do Carnaval podem-se sintetizar em quatro: vegetalista, celta, greco-romana e medievalista.

Existem indicadores que convidam a encarar o carnaval moderno como uma espécie de “eco moribundo” das festas antigas do tempo das Saturnais.

O grande antropólogo Caro Baroja, autor do livro “El Carnaval”, verdadeira bíblia deste ciclo festivo, escreveu que “quando o homem acreditou de uma forma ou de outra que a sua vida estava submetida a formas sobrenaturais surgiu o Carnaval”. O mesmo investigador afirma que “o Carnaval merece respeito”, estudo e análise, não só como fonte de grandes criações plásticas, sendo de mencionar Brueghel e Goya, mas também musicais, recordando Schuman, Berlioz e Paganini.

 

DEITAR FORA O INVERNO

Mircea Eliade mencionando um texto do século VIII, afirma que as populações alemãs “in mense Februario hibernum credi expellere”, que tem a seguinte tradução: “no mês de Fevereiro deve-se deitar fora o Inverno”.

De acordo com J. Heers, o Carnaval começou por ser uma procissão como tantas outras, uma dança de primavera que, quase de certeza, recuperou antigas memórias ligadas aos cultos pagãos de outrora, dos deuses campestres e das forças da natureza. Alguns autores não hesitam em evocar, com a maior naturalidade, a tradição das Bacanais, das festas da terra, do vinho e das florestas. Sublinham-no por interpretação etimológica ao fazer derivar directamente a palavra do latim do carro em forma de navio, “currus navalis”, que ilustrava as procissões.

O Carnaval como todas as festas profanas ou religiosas, sem dúvida de inspiração muito antiga ou de impregnação cristã, apresenta numerosos espectáculos públicos, reflexos espontâneos de uma civilização, referências preciosas para o conhecimento de uma cultura

 

CATARSE COLETIVA

O Carnaval é uma festa de todos, dos simples e dos pobres.

Uma boa oportunidade para os sisudos se extroverterem e para os grupos realizarem uma “catarse colectiva”, esquecendo o quotidiano que esmaga para reinar a alegria, com “rituais cósmicos, de inversão, ostentação e fertilidade”, reafirmando a identidade colectiva, conforme o antropólogo Joan Prat.

 


O ENTRUDO DA MEMÓRIA

Na aldeia do Lindoso, Ponte da Barca, continua a celebrar-se o Carnaval com o “Enterro do Pai Velho”.

Cumprem-se os rituais em que a escultura simbólica do Pai velho trabalhada em madeira autóctone, funciona como aglutinadora da comunidade invernal, congregando a todos, revelando uma forte consistência do património assumido e testemunhando uma coesão social digna de registo.

O carro do Pai Velho terá o significado simbólico do Inverno que vai a enterrar; o carro das ervas faz como que uma saudação á Primavera que está a surgir.

O busto de madeira do Pai Velho funciona como um autêntico “churinga” das tribos Arunta e outras da Austrália Central e será guardado piedosamente em lugar de paz e fora dos olhares estranhos.

O clímax da festa carnavalesca acontece na terça-feira de carnaval, pro volta da meia-noite, onde são queimados todos os enfeites e lido o testamento do Pai Velho onde sempre se faz crítica social.

 

DANÇA DOS CARPINTEIROS

Na aldeia valenciana de Gandra, neste período de transição do tempo invernal para o primaveril, realiza-se a dança dos carpinteiros.

Um grupo de homens, apresentando-se em mangas de camisa, calça de linho, faixa vermelha à cintura e gorros de lã na cabeça, representa a dança.

Cada um traz na mão a sua peça de ferramenta: um martelo, uma serra, um compasso, uma enxó e outras.

Um deles empunha uma vara de lodo e da extremidade pendem fitas de várias cores.

Para se exibirem os mestres seguram cada um a sua fita e cantam, com música apropriada, andando em passo de dança á roda da vara, os seguintes versos e outros de inspiração:

“Somos mestres carpinteiros / Aprendemos em Coimbra / Fazemos obra barata / Obra bem-feita e linda. Somos mestres carpinteiros / Falo verdade assim juro / Vimos hoje festejar / Aqui o santo entrudo.”

 

MECADAS EM VERDOEJO

As mecadas de Verdoejo sofreram influência das festividades carnavalescas da Galiza.

Este ritual despertou a atenção do investigador Padre Sarmiento, beneditino culto. Posteriormente foi estudado pelo Professor Xosé Pensado.

A gente de fora da Galiza costumava perguntar aos galegos, fazendo mofa: “Perdoáche-lo meco?”

A pergunta lembrava aos galegos a existência de uma ofensa aos seus antepassados que não foi vingada, o que contradiz com o ato de pendurar o Meco, como resultado da ira popular.

Há outras versões para explicar a origem das mecadas. Assim, o escritor Manuel Murgia encarregou-se de nacionaliza o mito fazendo proceder de uma “voz” que significa “quincalheiro”.

Se na freguesia de gandra os carpinteiros são protagonistas, em Verdoejo as personagens são predominantemente pedreiros.

“Nós todos somos pedreiros / Vimos da beira mar / Vimos a esta terra / Procurar que trabalhar. / Eu sou pedreiro novo / Ainda não ganho dinheiro / Chego barro meto achas / Levo os picos ao ferreiro.”

É oportuno referir que o Concílio de Benavente  no século XI, fixou a Quarta-feira de Cinzas como limite para as festas de Carnaval.

Assim, a palavra Carnaval da expressão latina “carnem levare”, que significa retirar a carne, numa alusão ao caracter introdutório da quaresma cristã que se avizinha.

Ainda nos tempos de hoje se ouve dizer: Parece um entrudo, comentário quando uma pessoa é gorda; ou então parece uma quaresma, sublinhando uma pessoa que é magra.

Um entrudo também o pode ser uma pessoa vestida com roupa velha ou desajeitada.

 

 

José Rodrigues Lima

93 85 83 275

jrodlima@hotmail.com



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