sábado, 14 de setembro de 2013

Como se escreve um dicionário?


Como se escreve um dicionário?

 Porque é que queres aprender a nossa língua?», foi a pergunta que uma criança moçambicana me fez, pouco tempo depois da minha che­gada a Tete, em 1969. já não me lembro qual foi a minha resposta naquela circunstância.

0 facto é que os missionários, para poderem comunicar com 0 povo e evangelizar, têm de conhecer a sua língua e também os usos e costu­mes desse povo; e geralmente são essas as orientações que se rece­bem quando um é destinado a uma determinada zona lingüística e cul­tural. Pessoalmente fui favorecido, porque me foi dado tempo suficien­te para me dedicar a esse estudo.


Ultimamente foi publicado pelos Missionários Combonianos 0 livro Elementos da Língua Ndau, pre­parado por mim durante a minha estada na diocese da Beira. É um estudo sobre uma língua falada principalmente na parte sul desta diocese, e que faz parte da família das línguas chonas falada no Zimbá- bue e em Moçambique. Esse traba­lho engloba: gramática, dicionário ndau-português e português-chona, e abundante literatura oral tradicional como adivinhas, histórias, pro­vérbios, etc. Algo de parecido tinha sido feito em 1991 na língua de Tete com a publicação de Elementos da Língua Nyungwe.

Já nessa altura alguém perguntava: «Como é que se escreve um dicio­nário?»

Naturalmente que cada pessoa tem 0 próprio método de trabalho, con­forme 0 próprio estilo e as circuns­tâncias. Eu segui 0 método que achei melhor: 0 contacto directo com 0 povo, nas mais diversas cir­cunstâncias da sua vivência: de tra­balho, de descanso, de oração, de cerimônias, de festa, de sofrimen­to. Tarefa dura e que exige muita constância, assumida com a atitude de uma criança, que nada sabé e que tudo tem de aprender: «O que é isto? Como se chama esta coisa? Que estás a fazer?...» Tarefa que obriga a entrar em sintonia com as pessoas, nas diversas circunstâncias e a tentar perceber as razões da sua maneira de viver.


O instrumento principal eram papel e lápis, sempre prontos a sair do bolso, para registar toda a palavra ou expressão nova.

Esse registo tornava-se difícil; por vezes não era nada fácil determi­nar com exactidão 0 som e a escrita correspondente de uma determina­da palavra, e igualmente 0 signifi­cado dessa palavra. Geralmente as pessoas tinham muita paciência comigo, pelo que muito agradeço a todas.

Outro instrumento usado era um pequeno gravador, muito útil não só para a recolha de palavras, mas principalmente para gravações de cânticos, histórias e adivinhas. Espe­cialmente durante 0 recreio depois da ceia, não era difícil ter a oportu­nidade de gravar esta literatura oral feita em competição. E foi com gra­vações que mais facilmente percebia 0 nexo gramatical entre as palavras; mais ainda, foi assim que descobri verdadeiros artistas na linguagem tradicional, entre pessoas tímidas e acanhadas quando se tratava de se exprimirem em português. Seguidamente à recolha de palavras e de frases, fazia-se a ordenação em ficheiros manuais ou electrónicos (estes já na era dos computadores). Para a solução das dúvidas, recorria a um grupo de pessoas adultas de especial confiança. Nem sempre era tarefa fácil, a partir de exemplos, gramatical.

Era também com essas pessoas que estudava as tradições principais, que tinham implicação também na feitura de um dicionário que se pre­tendia o mais completo possível, e que poderia vir a ser a base de um futuro estudo mais aprofundado so­bre usos e costumes.

Os provérbios são usados especial­mente nas assembleias familiares, para resolver problemas, ou sim­plesmente por ocasião de uma fes­ta. São sínteses de sabedoria dos antigos, patrimônio de todo o povo, riqueza que não pode cair no esque­cimento.

Tradição africana

Actualmente está em curso em al­gumas escolas primárias de Moçam­bique a experiência do ensino bi­lingüe: nas duas primeiras classes, usa-se e estuda-se a língua materna; na 3.-, 4.- e 5.5 classes, continua-se com a língua materna, e iniciam-se 0 uso e 0 estudo do português. Dizem os entendidos que os resultados são positivos, na aquisição progressiva dos conhecimentos, e na distinção entre as técnicas das duas línguas. Na preparação para a Segunda Assembleia do Sínodo dos Bispos para a África, insistiu-se muito na neces­sidade de aprofundar e generalizar 0 os vários aspectos e a nível in- ter disciplinar. A coordenação da feitura de dicionários, e a con­vivência quotidiana com 0 povo na acção pastoral, levou-me à convicção da urgência de se de­senvolverem esses estudos, para que a tradição seja criticamente apreciada e possa ser a base de um desenvolvimento humano e cristão harmonioso, e as pessoas sejam defendidas dos crimes de gente interesseira.

Os Combonianos em Moçambi­que têm-se dedicado ao estudo das línguas locais; têm-nas usa­do na catequese e na oração; compuseram várias gramáticas e dicionários e colaboraram na tra­dução de catecismos, missais e Bíblia.

Em 1973, saiu na língua nyungwe de Tete a primeira edição (ciclostilada) do leccionário dominical, a que se têm seguido outras edi­ções melhoradas em policópia. A grande falta que se sente re­lativamente a esta língua é que não existe ainda uma tradução da Bíblia, ao contrário do que acontece na maioria das línguas moçambicanas. Com a graça de Deus e a dedicação das pessoas, também este trabalho há-de ser realizado para bem de muitos.

 

 

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