O meu Tio materno, Padre Albino Martins Manso,
nascido na Freguesia de Perre, às catorze horas e trinta minutos do dia 19 de
Junho de 1914, filho de Antônio Martins Manso e de Tomásia de Barros (meus Avós
maternos), era o mais novo rebento de um conjunto de nove filhos, o quarto dos
quais, a Aurora, também ela muito prolifera (cinco filhas antes e mais dois
rapazes, depois de mim), me deu à luz em Março de 1935.
Cedo manifestou o Albino vocação para o sacerdócio. A minha Mãe referia muitas vezes que, em pequeno, sempre que pretendiam obrigá-lo a pastar as vacas (naquele tempo, como no de muitos de nós, ninguém falava no problema do trabalho infantil) respondia invariavelmente que não o fazia porque ele ia ser padre e, por isso, ninguém lhe falasse em tal.
Cedo manifestou o Albino vocação para o sacerdócio. A minha Mãe referia muitas vezes que, em pequeno, sempre que pretendiam obrigá-lo a pastar as vacas (naquele tempo, como no de muitos de nós, ninguém falava no problema do trabalho infantil) respondia invariavelmente que não o fazia porque ele ia ser padre e, por isso, ninguém lhe falasse em tal.
Concluída a quarta classe, ingressou no Seminário
Maior de Braga, onde estudava já o irmão Antônio, alguns anos mais velho,
certamente pressionado pelos pais, que pretendiam ter dois sacerdotes na família,
como era então apanágio das casas fortes da Freguesia de Perre.
Acabaram os estudos do Seminário no mesmo ano e
celebraram a primeira missa (cantaram Missa, como se dizia então) ao mesmo
tempo e na mesma igreja.
Ordenado sacerdote, foi colocado na freguesia de
Cristelo, Paredes de Coura, cabendo-lhe também a obrigação de dizer missa em
Padronelo e em Bico, freguesias vizinhas daquela. 0 irmão, Padre Antônio, foi
colocado em Trás-os-Montes, para os lados de Vinhais.
As primeiras e, quiçá, as mais indeléveis
recordações que dele tenho remontam justamente a esta altura, porque aí passei
uma semana com a minha Mãe e o meu irmão mais novo, o Jorge, dela retendo na
memória o aspecto da casa, da corte da burra, que o transportava quando ia dizer
missa naquelas freguesias e, sobretudo, o cheiro da fruta espalhada no chão da
sala (como era perfumada a fruta naquele tempo!). A casa, em semi-ruína, ainda
lá estava, tal como a corte, há cerca de meia dúzia de anos, quando por lá
passei, movido pela curiosidade e pelo saudosismo. Só não estava a escada que
eu e o meu irmão utilizávamos para cuspir na burra, através de uma larga
frincha por cima da porta, quando descobrimos que nela disparava um bom par de
coices, sempre que o fazíamos.
O Padre
Albino, dotado de uma alegria contagiante, era o irmão preferido de minha Mãe.
0 que de melhor se produzia em nossa casa era para ele e para o sacerdote da
Meadela. 0 vinho de dizer missa, o vinho seco, como lhe chamavam, feito de uvas
brancas colhidas muito maduras e postas a secar antes de serem transformadas
em maravilhoso néctar, era produzido em casa de meus Pais, quase exclusivamente
para ele. De resto, dispunha da nossa casa como se fosse sua, ao ponto de, por
diversas vezes, aí reunir os amigos que se
banqueteavam em contagiosa confraternização, chegando numa dessas reuniões a juntar à mesa
vinte e quatro padres seus colegas.
O Albino era um padre que eu apreciava,
inteligente, muito lúcido, com uma visão do mundo eclesiástico diferente do
arquétipo estabelecido, características que lhe conferiam uma faceta algo
revolucionária para a época.
Talvez por isso
e por, em conseqüência, se haver incompatibilizado com o Arcebispo
de Braga, deixou Paredes de Coura e dedicou-se, como hoje se diria, à
solidariedade social, prestando auxílio a quem dele necessitava. Passou pelas
Oficinas de S. José, em Ponte de Lima, trabalhou em obras de caridade em
Entre- os-Rios e rumou a Lisboa, com o mesmo propósito, onde colaborou em
revistas da especialidade, revelando-se então aí os seus dotes de escrita, a
par dos de oratória, que possuía.
Consciente do trabalho que ele vinha
desenvolvendo, o Arcebispo de Braga trouxe-o de novo para o seu rebanho e
colocou-o na freguesia de Contelães, em Vieira do Minho, onde se manteve até ao
fim dos seus dias. Fiel ao seu múnus, por sua iniciativa, entre outras acções
de interesse social e humanitário, angariou aí os fundos necessários à
aquisição de uma viatura de que estavam então carecidos os Bombeiros daquela
vila.
Como nem tudp o que fazemos na vida agrada a
todos os que nos rodeiam, o Padre Albino era amado por muitos e detestado por
alguns. Por essa razão, estou absolutamente certo, faleceu de morte súbita,
com quarenta e um anos de idade, no dia 1 de Abril de 1956, um Domingo de
Páscoa, quando se aproximava da casa de um dos seus paroquianos, em visita
pascal.
Da certidão de óbito consta como mal definida a
causa da sua morte.
0 seu corpo foi transportado, no dia 3 de Abril
do mesmo ano de 1956, na viatura dos Bombeiros que ajudara a adquirir, de
Vieira do Minho para o cemitério de Meadela, onde se encontra sepultado junto
de meus Pais, no jazigo da família.
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