Ela faz parte da natureza
do homem, mas, ao mesmo tempo, transcende-a. E é o único ser capaz de viver a
própria morte. Ao contrário dos animais, o homem carateriza-se pelo seu próprio
EU, pela sua singularidade, a consciência do seu ser e do seu saber, aliada a
uma vontade imensa de se superar, de se ultrapassar e ir para além do próprio
corpo.
É vencendo-se como homem
que o sujeito consegue elevar-se acima da humanidade e procurar perpetuar-se
para sempre, imortalizando-se.
O homem é a única
espécie viva que sabe que deve morrer. Daí a necessidade de transpor esta realidade
para o plano racional, reflexivo e espiritual.
O ser humano é mortal
desde ar sua conceção. Ele é “um ser para a morte". A qualquer momento,
este destino se pode cumprir. O confronto com esta realidade impele-nos a
repensar a vida, na busca de uma autor- realização da pessoa humana e a um
aprofundamento da auto- consciência no sentido de cumprir a existência em
pleno antes que tarde nada sermos.
Perante a morte, há uma
radical impotência do homem face ao presente terreno e, no limite da vida, face
ao todo numa dimensão transcendental.
A morte confronta-nos
com o mistério do absoluto na medida em que não sabemos o que é morrer, nem
estar morto, a situação de já
expetativa de passar a
existir do outro lado da vida”.
É esta experiência do
incognito que conduz o homem a um processo da maior humanização e busca de
compreensão.
Desde as civilizações
mais remotas, em todas as culturas, o ritual de enterrar os mortos sempre foi
muito seriamente vivido, com ritos próprios e sagrados, não obstante a
religião praticada.
Filosofar é preparar-se
para a morte dizia Cícero, retomando a linha de Platão, para o qual a vida inteira
do filósofo mais não era do que uma preparação para esse inevitável fim.
Também Santo Agostinho,
nas suas Confissões, nos deixa esta perplexidade: “Que
pretendo dizer, Senhor, meu Deus, senão que ignoro donde parti para aqui, para
esta que não sei como chamar, se de vida mortal ou morte vital”. Só o
cristianismo ousou transformar a morte numa vitória, naquilo que não era,
pois encarou-a como um fim/princípio de outra e definitiva vida.
Não é uma teoria nem uma
opinião, mas uma promessa de eternidade que propõe a todo o homem, finito e
mortal, algo mais do que o absurdo duma existência terrena e efêmera.
Será, então, a morte um
acontecimento único e irrepetível que vem dar à vida humana um sentido de
totalidade, de completude dum fim, após o qual se abre ao homem “o mistério
deserparalém da vida”.
Onde
estarei quando já cá não estiver? Vale a pena insistir nesta promessa de
eternidade,
na certeza de que é imensamente redutor e claustrofóbico não admitir
uma continuidade
para além do limite do já não ser.
Maria
Susana Mexia, in Diário do Minho
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